Em menos de três anos, as chamadas “canetas emagrecedoras” – medicamentos originalmente desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2 – tornaram-se um dos assuntos mais comentados no universo da saúde e do bem-estar. O que começou como uma ferramenta médica para controle glicêmico hoje é utilizado por milhões de pessoas, principalmente mulheres, que buscam perder peso a fim de atingir padrões estéticos.
Mas qual é o real preço dessa nova tendência para a saúde humana e o que a medicina sabe sobre os efeitos deste medicamento a longo prazo?
O Dr. Wilson Medina, endocrinologista formado pela PUC-SP, explica que as “canetas milagrosas” são agonistas do GLP-1, um hormônio intestinal, ou seja, agem no corpo como se fossem o próprio hormônio. O primeiro no Brasil foi a liraglutida, depois, a semaglutida, conhecida como Ozempic e Wegovy. A ideia era tratar diabetes tipo 2, controlando insulina e açúcar no sangue.
OS PRÓS E CONTRAS
“O que ninguém esperava era a rápida perda de peso dos pacientes. O GLP-1 age no centro da saciedade do cérebro, retarda o esvaziamento do estômago e reduz a fome. Ou seja, perder peso é um efeito colateral e tanto dessa droga”, explica o Dr. Wilson.
O fato é: essas canetas funcionam. E funcionam de verdade, o que já é mais do que se pode dizer de diversos produtos que o mercado de emagrecimento e estética oferece.
O emagrecimento é significativo e consistente, não aquela perda de água que some no dia seguinte. Além disso, o controle do apetite acontece de forma natural – a fome diminui, aquela vontade incontrolável de comer doce ou de atacar a geladeira simplesmente reduz. Não é preciso usar força de vontade o tempo todo, o processo se torna mais “fácil”.
Porém, os efeitos colaterais são muito comuns, especialmente no início do tratamento. Náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal – muitos passam mal nas primeiras semanas e até meses. É desconfortável, e algumas pessoas param o tratamento justamente por isso.
Dr. Wilson faz um alerta para os cuidados que se deve ter ao decidir iniciar o tratamento: “Outro ponto que ninguém conta: junto com a gordura, a pessoa tende a perder massa magra. Se não houver cuidado com exercícios e alimentação adequada, assim como acompanhamento de profissionais da área, o músculo é sacrificado, o que não é bom para o metabolismo nem para a saúde em geral”.
E o efeito rebatedor? Esse é cruel. Se a pessoa parar de usar a medicação sem nenhuma mudança de hábito sequer, o peso volta – e às vezes, volta com tudo, como se o corpo quisesse compensar o tempo de restrição
-Dr. Wilson
Ainda entra em jogo a questão psicológica. Muita gente desenvolve uma dependência emocional do medicamento, não consegue mais imaginar a vida sem ele, tem medo de não saber como se controlar e não se encaixar em um padrão corporal esperado.
Dessa forma, o termo off label ganhou força dentro e fora dos consultórios. A ideia é simples: significa usar um medicamento para uma finalidade diferente daquela para a qual ele foi oficialmente aprovado.
O problema é que esse uso nem sempre vem acompanhado do cuidado e atenção que deveria. Muita gente busca o medicamento por conta própria, sem avaliação médica adequada, sem entender as contraindicações, sem quaisquer acompanhamentos necessários.
“Não é que o uso off label seja errado em si – médicos têm autonomia para prescrever conforme seu julgamento clínico. O problema é quando essa prática vira um atalho estético, quando a pessoa usa uma droga séria apenas para atingir um padrão de beleza impulsionado socialmente, sem necessidade clínica real e sem entender o que está mexendo no próprio corpo”, alerta Dr. Wilson.
PRESSÃO ESTÉTICA E A SAÚDE EM SEGUNDO LUGAR
A verdade é que não dá para falar do boom dessas canetas sem mencionar o papel das redes sociais. Elas sim são as responsáveis por transformar um tratamento médico em fenômeno cultural, assunto nos grupos de WhatsApp, trends no Instagram e pesquisas no Tik Tok.
“O que era discussão de consultório virou conteúdo de feed, e isso mudou completamente a dinâmica de como as pessoas encaram esses medicamentos”, avalia Dr. Wilson.
“Quando influenciadores começaram a compartilhar resultados, a procura explodiu. O problema é que as redes mostram o resultado, mas não mostram o processo. Não mostram as náuseas, o mal-estar, a conta alta todo mês, o medo de parar e engordar de volta. As redes mostram o corpo magro e pronto, o resto, fica invisível”, ele completa.
A comparação pode se tornar um dos elementos mais perigosos no processo de emagrecimento, quando uma mulher se depara com a constante insatisfação consigo mesma em relação às demais e, ao mesmo tempo, com dezenas de resultados de emagrecimento.
A mensagem implícita é clara: “você também pode ser assim”. Mas essa vontade é alimentada por uma pressão estética histórica sobre o corpo feminino, que passa longe dos ideais de diversidade, sem respeitar a essência de cada mulher.
Dr. Wilson mostra uma preocupação pela busca por mudanças no corpo e na saúde sem a devida análise médica: “As redes também viraram terreno de desinformação. Muita gente recomenda sem formação médica, sem saber nenhum efeito colateral sequer, tratando medicamento sério como produto de beleza.
O ciclo vira um jogo doentio: a pessoa vê resultado, quer chegar lá, emagrece, posta, outras pessoas veem e querem também. A pressão aumenta e a saúde fica em segundo plano”.
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O texto acima foi editado por Anna Goudard
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