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Quando os fãs confundem ficção e realidade: os limites da relação parassocial

Leticia Carmo Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

É fácil entender por que um casal de uma série conquista o público. Nós acompanhamos a história, torcemos pra que eles fiquem juntos, comemoramos cada cena de romance, e muitas vezes ficamos semanas esperando pelo próximo episódio. O problema começa quando essa torcida deixa de ser relacionada aos personagens e passa a envolver a vida pessoal dos atores que os interpretam.

Foi o que aconteceu com parte do fandom de Off Campus, a química entre os personagens Hanna Wells (Ella Bright) e Garret Graham (Belmont Cameli) fez com que os fãs começassem a torcer não apenas para o casal da série, mas sim para que acontecessem na vida fora das telas. 

Ella chegou a comentar sobre os fãs que queriam que ela e Belmont namorassem fora da série. A atriz disse entende de onde vem a torcida, mas contou que considera o ator como ‘literalmente’ seu irmão e também que ele tem uma namorada que ama.

Mesmo com esse comentário, a discussão não parou. Em junho, a própria equipe de Off Campus publicou um aviso nas redes sociais pedindo que os fãs respeitassem o elenco e as pessoas que fazem parte de suas vidas. A produção afirmou que contas envolvidas em assédio direcionado seriam removidas de seus seguidores. 

A situação chegou até pessoas próximas ao ator. Raina Morris, namorada de Belmont, pediu publicamente que fãs parassem de enviar mensagens para familiares dela. Segundo o E! News, o pedido aconteceu em meio ao interesse de parte do público pela relação entre Belmont e Ella.

O próprio Belmont voltou a falar sobre o assunto. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, o ator afirmou que, além das opiniões sobre seu trabalho, as pessoas passaram a ter opiniões sobre o que acontece em sua vida pessoal. 

Ele descreveu a atenção como algo novo e estranho e disse que, com o sucesso da série, existe “outro nível” de fandom na internet. Para ele, existe também uma espécie de “veneno” quando pessoas públicas são colocadas constantemente sob uma lupa. 

E talvez o mais curioso seja que, quando os fãs começaram a interpretar o comportamento de Belmont nas redes sociais, até uma simples mudança no Instagram virou motivo para teorias. Depois que o ator arquivou diversas fotos com Ella, parte do público passou a especular que os dois teriam brigado. Os rumores ganharam força justamente porque algumas pessoas já estavam acostumadas a enxergar a relação entre os dois a partir da história de Hannah e Garrett. 

Só que Hannah e Garrett não existem fora da tela. Ella e Belmont, sim.

Quando o casal da série vira o casal da vida real

Esse tipo de comportamento está relacionado ao que a comunicação chama de relação parassocial. O conceito descreve uma relação unilateral em que uma pessoa desenvolve uma sensação de proximidade, intimidade ou conexão com uma figura pública ou personagem de mídia, mesmo sem existir uma relação equivalente entre os dois lados.

Com as redes sociais, essa sensação pode ficar ainda mais forte. Acompanhamos stories, entrevistas, bastidores, fotos, vídeos e até pequenos detalhes da rotina de artistas. A distância entre fã e celebridade continua existindo, mas a quantidade de informações disponíveis pode criar a impressão de que conhecemos aquela pessoa de verdade.

Isso também ajuda a explicar por que alguns fãs passam a procurar “pistas” em tudo. Uma curtida, uma foto apagada, um unfollow ou uma interação entre duas pessoas pode ganhar um significado enorme quando o público já está emocionalmente envolvido com determinada narrativa.

A polêmica de Outer Banks

Off Campus não é um caso isolado. Alguns anos antes, Outer Banks já mostrava como a relação entre personagens e atores pode se misturar dentro de um fandom.

Na série, JJ Maybank (Rudy Pankow) e Kiara Carrera (Madison Bailey) formam um casal muito querido pelo público. Fora das telas, porém, Pankow namora a fotógrafa Elaine Siemek. A relação dos dois foi alvo de ataques de fãs desde os primeiros anos da série, e o próprio ator chegou a defender a namorada publicamente diante do assédio.

A situação ganhou novos capítulos quando rumores sobre um suposto conflito entre Pankow e Bailey começaram a circular. Fãs passaram a analisar follows, unfollows, relações entre integrantes do elenco e até os relacionamentos pessoais dos atores para tentar encontrar uma explicação para acontecimentos da série.

Quando JJ morreu na quarta temporada, por exemplo, parte do público criou teorias de que a saída do personagem estaria relacionada a um suposto problema entre Rudy e Madison. Os criadores de Outer Banks, porém, afirmaram que a morte de JJ já fazia parte dos planos da série e que a decisão não surgiu por causa de um conflito entre os atores.

Essa polêmica mostra como uma narrativa criada pelos próprios fãs pode ganhar vida própria. A partir de poucas informações reais, surgem teorias que passam a ser tratadas como explicações possíveis e, em pouco tempo, até os atores envolvidos podem ser cobrados por elas.

Quando acompanhar vira cobrar

Esse comportamento também aparece fora dos grandes shipps. A relação parassocial não depende necessariamente de acreditar que dois atores estão apaixonados.

Um exemplo recente envolve Ariana Grande. Durante a divulgação de Wicked, a cantora e atriz voltou a pedir que as pessoas parassem de comentar sobre seu corpo. Em entrevista, ela falou sobre ter ouvido diferentes versões sobre o que estaria “errado” com sua aparência ao longo da carreira e classificou esse tipo de comentário como perigoso. 

A situação ajuda a mostrar outra dimensão do problema: a sensação de intimidade também pode fazer com que fãs acreditem ter liberdade para opinar sobre decisões pessoais, aparência, relacionamentos e escolhas de artistas.

É como se acompanhar alguém por anos criasse uma espécie de contrato que nunca foi realmente assinado. O fã pensa que conhece aquela pessoa porque viu entrevistas, acompanhou sua carreira e ouviu músicas que marcaram momentos importantes de sua própria vida. Mas a familiaridade não transforma a relação em amizade.

Afinal, onde está o limite?

Ser fã envolve emoção. É normal criar carinho por um personagem, torcer por um casal, acompanhar entrevistas e até brincar com a possibilidade de dois atores terem química fora da tela. O problema não está em gostar demais de uma história. Está em esquecer que ela continua sendo uma história.

O limite aparece quando a brincadeira começa a atingir pessoas reais. Quando o namorado ou a namorada de um artista passa a ser tratado como inimigo, ou quando um unfollow vira investigação, uma foto apagada vira prova de uma briga, um ator precisa explicar uma amizade, quando familiares começam a receber mensagens de desconhecidos… Ou quando a equipe de uma série precisa pedir publicamente para que os fãs parem de assediar seu elenco.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja até onde um fã pode acompanhar a vida de um artista, mas até onde ele tem o direito de entrar nela.

Gostar de uma história não significa possuir quem faz parte dela. E, por mais próxima que uma celebridade possa parecer através da tela do celular, ainda existe uma diferença fundamental entre acompanhar alguém e fazer parte da vida dessa pessoa.

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O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann.

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Leticia Carmo

Casper Libero '28

A journalism student exploring how culture and entertainment connect us