Nos últimos anos, Cynthia Erivo e Ariana Grande estiveram constantemente sob os holofotes. Embora o sucesso de Wicked e de sua continuação, Wicked: For Good, tenha contribuído para alcançarem essa grande visibilidade, a atenção direcionada à elas frequentemente ultrapassou seus projetos profissionais.
A dupla de atrizes esteve no centro de debates e opiniões: seus corpos, suas formas de se expressar e até mesmo a amizade que compartilham passaram a ser amplamente discutidas na internet.
Em meio ao ambiente de exposição constante das redes sociais, pouco espaço foi dado para refletir sobre as consequências dos comentários, compostos por críticas, recebidos por Ariana e Cynthia. E as artistas passaram (ou voltaram) a expressar recentemente – Ariana por meio de sua nova música “Hate That I Made You Love Me” e Cynthia em sua recente entrevista “Know Their Lines” à revista Variety -, os impactos de comentários baseados em misoginia e racismo.
Entre entrevistas, letras de músicas e especulações
Recentemente, as atrizes começaram a expressar indiretamente ao público como as críticas, intensificadas no período de divulgação de Wicked, afetaram seu bem estar pessoal, e até mesmo, sua relação com a indústria artística e fãs.
Ariana Grande chamou atenção do público com a letra de seu novo single Hate That I Made You Love Me, primeira faixa de seu oitavo álbum de estúdio, intitulado Petal, que terá lançamento em 31 de julho de 2026.
Os fãs da cantora especulam que a música, que a princípio poderia se referir à um dos relacionamentos anteriores da cantora – ao retratar um sentimento de não corresponder às expectativas de alguém apaixonado – na verdade representa a perspectiva dela sobre seus próprios fãs.
Enquanto isso, Cynthia Erivo já vinha destacando em entrevistas concedidas que muitas vezes o público fazia associações equivocadas sobre sua pessoa, relacionando a recentemente as ações de Elphaba, sua personagem em Wicked, com suas formas pessoais de agir. A atriz também tem reforçado seu desejo de manter Wicked um pouco fora de seu foco, almejando falar sobre seus outros trabalhos cinematográficos.
Na última semana de maio, Erivo participou do quadro “Know Their Lines”, da revista Variety, em que o(a) convidado(a) deve tentar lembrar à qual trabalho pertence aquela sua própria fala. Durante a entrevista a atriz se recusou a reproduzir o riff da canção Defying Gravity do filme citado, e ao pedir para que seguissem em frente, ele se deparou com mais uma pergunta sobre o mesmo tema: “Estamos realmente tentando conseguir algo de Wicked, não é?”, afirmou a atriz com desconforto.
O corpo feminino como propriedade pública
Conhecida por sucessos globais como “7 Rings” e “Into You”, Ariana Grande convive com comentários sobre sua aparência física há anos. A atriz foi apresentada internacionalmente para o público ainda na adolescência, ao interpretar Cat Valentine na série Brilhante Victória, da Nickelodeon, e desde então teve seu crescimento pessoal e profissional acompanhado por milhares de espectadores.
Ao longo de sua carreira, transformações naturais em sua imagem foram frequentemente levadas à debate, alimentando comentários sobre sua aparência física, seu peso e especulações recorrentes sobre sua saúde.
Em abril de 2023, a atriz veio a público por meio das redes sociais reforçar seu descontentamento com a prática comum na internet, de criticarem corpos e especularem sobre os outros a partir disso: “Acho que deveríamos ser mais gentis e menos confortáveis ao comentar sobre o corpo de outras pessoas, não importa o quê”.
A cantora aproveitou o espaço para ressaltar aquilo sobre ela que não é mostrado nas câmeras: “O corpo que vocês estão comparando ao meu corpo atual, foi a versão menos saudável do meu corpo. Eu estava tomando muitos antidepressivos, bebendo, comendo mal e no ponto mais baixo da minha vida”.
Diante disso, Ariana voltou ao foco das redes com sua nova faixa “Hate That I Made You Love Me”. A música, que não tem seu significado confirmado, parece abordar o desconforto de ser amada por uma versão idealizada de si, evidenciando uma reflexão da cantora sobre as expectativas que os fãs e espectadores depositam em sua imagem: “I’ve held your projections when you’ve felt so insecure” (Eu carreguei suas projeções quando vocês se sentiram muito inseguros).
Assim, o single também dialoga com a pressão vivida pelas mulheres no geral na indústria artística, que são frequentemente cobradas a atender às projeções dos fãs, como na letra “Why you so hate to see women endure?” (Por que vocês odeiam tanto ver mulheres suportando tudo isso?).
Quando gênero e raça se encontram
Ao mesmo tempo, a estrela da Broadway de A Cor Púrpura, Cynthia Erivo, também esteve no centro de discussões e julgamentos na internet. Assim como Ariana, a atriz também teve sua aparência física analisada e comentada pelo público desde o início das gravações de Wicked.
Porém, grande parte dos comentários direcionados a Cynthia não se limitaram a questões estéticas, e se concentraram também em sua personalidade, suas expressões e sua forma de se relacionar com aqueles ao seu redor, destacando principalmente sua relação com Ariana Grande.
Em diferentes situações, a artista apontou que muitas dessas críticas refletiam perspectivas racistas. Seus relatos denunciam a forma como mulheres negras são frequentemente apontadas como agressivas e intimidadoras por comportamentos que, se realizados por outras pessoas, dificilmente gerariam a mesma reação.
Uma ocasião marcante, que exemplifica o denunciado pela atriz, foi o ocorrido em Singapura, durante a turnê de divulgação de Wicked: For Good. O episódio aconteceu enquanto Cynthia Erivo, Ariana Grande, Michelle Yeoh e Jeff Goldblum caminhavam pelo tapete vermelho da première do filme, quando um homem pula a barricada que separava os fãs dos artistas, corre em direção a Ariana e a agarra pelos ombros. Rapidamente Cynthia reage correndo até a amiga, empurrando o fã e a protegendo.
As ações de Erivo repercutiram na internet, e mesmo depois da atriz afirmar que agir pela proteção da amiga foi uma resposta instintiva diante da situação, usuários das redes sociais apontaram sua postura como de “guarda-costas” de Ariana. Esses comentários foram interpretados pela atriz como concepções racistas que presumidamente seriam associadas a ela por ser uma mulher negra.
Pouco tempo depois, Cynthia revelou para a Variety que a alta repercussão desse incidente impactou diretamente sua relação com a temporada de premières do filme e com a obra em si: “Parecia que algo que eu fazia instintivamente tinha sido transformado em algo que não era, por causa da forma como as pessoas veem mulheres como eu… E eu não queria mais fazer parte disso, de verdade”.
A misoginia disfarçada de opinião
A série de julgamentos e críticas direcionados às atrizes de Wicked está longe de ser um caso isolado, já que reflete uma dinâmica misógina que a muito tempo atravessa a indústria do cinema. Mulheres com grande visibilidade no meio do entretenimento, enfrentam críticas que ultrapassam suas realizações profissionais, se estendendo para sua aparência, modo de agir e vida pessoal.
Dessa forma, a misoginia na indústria artística está diretamente ligada a estruturas históricas de desigualdade de gênero sustentadas pelo machismo estrutural. Esse cenário faz com que expectativas do público e padrões de beleza continuem influenciando a forma como as artistas são percebidas, avaliadas e tratadas pela própria indústria e pelos fãs.
Os ocorridos com Cynthia Erivo e Ariana Grande mostram que, em uma era de exposição constante, as celebridades estão cada vez mais sujeitas ao julgamento público. No entanto, nem sempre os comentários direcionados às mulheres são reconhecidos pelo o que realmente representam, que em sua maioria, são os preconceitos.
Porém, ao abordarem publicamente os impactos das críticas recebidas, por meio de suas próprias músicas e falas em entrevistas, Ariana e Cynthia transformaram suas experiências em um debate sobre os limites entre opinião e preconceito. Evidenciando como manifestações misóginas e racistas podem esconder comentários aparentemente inofensivos, mas que continuam influenciando a maneira como as mulheres são percebidas e tratadas na indústria artística.
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O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann
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