Depressão e ansiedade atingem a maioria dos universitários brasileiros. Entre aulas, estágios e comparações, especialistas alertam para a necessidade de cuidado institucional e individual.
Na vida universitária, a expectativa é de descobertas, amadurecimento e construção de carreira. Mas, entre leituras obrigatórias, provas, estágios e a pressão por resultados, cresce um cenário de sofrimento psíquico que permanece invisível.
Foi essa realidade que chamou a atenção da psicanalista Romy Sigurd Herrera Saenz, peruana que veio ao Brasil estudar Psicologia na Universidade de São Paulo (USP) e hoje se dedica a ouvir especialmente latinos e imigrantes que enfrentam dificuldades em um novo país. “Muitos estudantes chegam dizendo que não sabem se vão dar conta, que se sentem sobrecarregados e perdidos. É como se a universidade cobrasse uma maturidade profissional que eles ainda estão construindo”, afirma.
A especialista nota ainda que muitos estudantes buscam diagnósticos como uma forma de justificar sua exaustão. “Às vezes, não é por querer estar doente, mas porque o diagnóstico dá sentido a um sofrimento que parece inexplicável”, explica.
Estágio: carreira antes da hora
Se por um lado o estágio é uma oportunidade de aprendizado, por outro tem se tornado fonte de sobrecarga. Muitos estagiários relatam assumir responsabilidades comparáveis às de empregados formais, com prazos e demandas que extrapolam a função de quem ainda está em formação.
Além disso, há universidades que não incentivam o estágio e, em alguns casos, chegam a proibir completamente essa prática até a metade do curso, o que contribui para elitizar ainda mais o acesso dos estudantes ao mercado de trabalho.
Revisões acadêmicas indicam que sentimentos de insegurança e medo são frequentes entre estagiários, sobretudo em áreas de saúde, onde lidam diretamente com o sofrimento alheio. O resultado é um ciclo de ansiedade e cobrança interna.
Comparações e cobrança silenciosa
As redes sociais ampliam ainda mais a sensação de inadequação entre os jovens. Enquanto alguns compartilham rotinas que começam às quatro da manhã para dar conta de todas as atividades, outros exibem vidas aparentemente perfeitas, cheias de esportes, cuidados pessoais e conquistas profissionais.
Para a psicanalista, essa lógica intensifica a cobrança interna: “é a comparação de parecer que o outro está fazendo dar certo e eu não”, explica. Nesse contexto, a exigência de ser sempre proativo, entregar trabalhos com excelência e ainda se destacar no estágio se transforma em um peso que pode abrir caminho para quadros de depressão e ansiedade.
Muitos jovens chegam a diminuir o próprio esforço: “Só estou estudando, mas às vezes estar só estudando já é muito”, relata Romy. Emocionada, ela acrescenta: “As pessoas falam ‘mas você só estuda’. Como se fosse só estudar. E se a pessoa não tiver dinheiro para comprar um livro, um notebook, um grupo de discussão sobre o estudo, ela se sente sozinha. Não é só um estudo.”
Por que importa?
- 2 em cada 3 universitários no Brasil sofrem de ansiedade diariamente (CNN Brasil, 2024).
- Mais de 80% dos estudantes de Pelotas (RS) apresentaram sintomas de depressão em diferentes níveis (PMC, 2020).
- 31,3% dos universitários de Brasília apresentaram depressão leve e outros 23,4% depressão mínima (PePSIC, 2021).
- Apenas 30% dos jovens de 25 anos concluíram o ensino superior no Brasil, segundo o IBGE, o que revela desigualdades no acesso e permanência.
DIcas Práticas para estudantes
- Estabeleça limites: organize horários realistas para estudo, estágio e descanso;
- Evite comparações constantes: redes sociais não refletem a realidade completa;
- Busque redes de apoio: grupos de estudo, amigos e colegas que podem ajudar a dividir pressões;
- Procure atendimento psicológico: muitas universidades oferecem serviços gratuítos ou a preços reduzidos;
- Pratique o autocuidado: atividades físicas, sono regulado e lazer também são parte importânte da vida acadêmica;
- Converse sobre dificuldades: falar com professores, supervisores ou familiares pode abrir espaço para ajustes.
A luta contra a depressão e a ansiedade na universidade não é apenas individual, é também estrutural. Exige mudanças institucionais, supervisores atentos, limites claros para estágios e políticas de saúde metal eficazes.
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O artigo acima foi editado por Eduarda Lessa.
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