Em 1486, foi publicado o “Malleus Maleficarum” (“O Martelo das Feiticeiras”), manual que declarava a Europa ameaçada por uma verdadeira epidemia de bruxarias e maldições. A obra ensinava como identificar supostos comportamentos bruxos, além de como torturar e punir as acusadas. Seu alvo principal eram as mulheres, vistas como mais fracas e, por isso, mais suscetíveis às tentações do Diabo.
Mais de dois séculos depois, essa mentalidade ainda produzia tragédias. Em fevereiro de 1692, em Salém, pequena cidade de Massachusetts, duas meninas de 9 e 11 anos, Betty Parris e Abigail Williams, brincavam de adivinhação para descobrir com quem se casariam.
Pouco depois, passaram a apresentar sintomas inexplicáveis: contorciam-se de dor, tremiam e tinham crises recorrentes de raiva. Após examiná-las, o médico concluiu que estavam enfeitiçadas e que a causa era sobrenatural.
Interrogadas pelos religiosos locais, as meninas acusaram três mulheres de amaldiçoá-las: Sarah Good, Sarah Osborne e Tituba, mulher escravizada pertencente ao reverendo Parris, pai de Betty. Tituba, indígena Arawak sequestrada na América do Sul, foi a primeira a confessar bruxaria após dias de tortura, possivelmente numa tentativa desesperada de escapar da execução.
Disse ter assinado o livro do Diabo e descreveu visões de cães pretos, pássaros amarelos e de uma figura sombria ligada a Sarah Osborne. Ao delatar outras supostas bruxas, acabou mergulhando a vila no caos.
As denúncias se multiplicaram rapidamente, apoiadas quase exclusivamente nos depoimentos e nas alucinações das testemunhas. Diante disso, o governador William Phips criou um tribunal especial para receber e julgar os casos.
Apesar da confissão, Tituba foi presa e, depois disso, desapareceu dos registros históricos: até hoje, a data e as circunstâncias de sua morte são desconhecidas. Já a primeira vítima a ser executada foi Bridget Bishop, enforcada em 10 de junho de 1692, acusada, entre outras coisas, de comportamentos considerados promíscuos.
Quando o poder feminino virou feitiçaria
Não foram apenas camponesas anônimas que sofreram com as acusações de bruxaria, mulheres que ocupavam posições de destaque e detinham poder político também eram vítimas de incriminações e denúncias:
- Rainha Ana Bolena: Rainha consorte da Inglaterra, Ana Bolena, foi acusada de bruxaria por seu próprio marido, o Rei Henrique VIII, após não conseguir lhe dar um herdeiro masculino, visto que havia dado à luz a uma menina, a futura rainha Elizabeth I, e sofrido abortos espontâneos subsequentes. Por ser dona de um intelecto notável, um temperamento forte e de uma independência nata, ela se tornou uma figura ameaçadora e angariou inimigos na corte. Aproveitando-se do fato de que Ana havia incentivado a separação entre o Estado e a Igreja Católica (culminando na criação da Igreja Anglicana), e usando como base o boato popular de que ela possuía seis dedos em uma das mãos e que teria abortado um feto deformado, a monarquia a acusou de feitiçaria, incesto, adultério e alta traição. Esses eventos culminaram na sua execução na Torre de Londres em 1536;
- Joana d’Arc: A guerreira nasceu por volta de 1412 em uma família camponesa na vila de Domrémy, na França. Após presenciar sua vila ser atacada por soldados ingleses e membros de sua família serem assassinados durante a Guerra dos Cem Anos, ela relatou ter tido visões e ouvido vozes divinas, que identificou como sendo do Arcanjo Miguel e das santas Catarina e Margarida. Motivada por essas mensagens e pela instrução de ajudar a livrar a França do domínio inglês, Joana cortou o cabelo, vestiu roupas masculinas e conseguiu se juntar ao exército francês. Ela comandou tropas e liderou o país em vitórias essenciais, mas acabou capturada e vendida aos ingleses em 1430. Devido às suas visões e por vestir-se como homem, Joana d’Arc foi julgada e condenada por heresia e bruxaria, sendo morta na fogueira em Ruão no ano de 1431, aos 19 anos.
As Bruxas do Brasil Colonial
Em 1536, ocorria a Inquisição Portuguesa, que realizou três visitas ao Brasil, a partir do ano de 1591, perseguindo e acusando mulheres negras e de matriz africana de realizarem “feitiçarias”. A história mais trágica, ocorrida durante esse período, foi a de Ursulina de Jesus, queimada viva na cidade de São Paulo no século XVIII.
- Ursulina de Jesus: Participante da elite da sociedade local graças ao casamento com Sebastiano de Jesus. Quando Sebastiano, que era estéril, descobriu que nunca poderia ter filhos biológicos, recusou-se a aceitar sua condição e colocou a culpa em Ursulina, acusando-a de ser uma bruxa e de ter usado magias obscuras para torná-lo infértil. A falsa conexão de Ursulina com a bruxaria não passou de um pretexto fabricado pelo marido e agravado pelo fato de que a amante de Sebastiano, uma mulher chamada Cesária, foi convocada por ele para depor contra a esposa no júri inquisidor. Assim, sem direito a defesa e sem precisar de provas concretas, ela foi julgada, condenada por feitiçaria e heresia, e queimada viva publicamente no centro de São Paulo, no ano de 1754.
- Maria da Conceição: Parteira paulista, conhecedora de ervas medicinais, curava doentes em São Paulo com chás e técnicas naturais. Esse trabalho incomodou a Igreja, que via nesses saberes uma ameaça, e em 1798 o padre Luís a acusou de heresia e feitiçaria. Ela foi condenada e queimada em praça pública, na região do Largo do São Bento, o que ilustra como o conhecimento e a autonomia feminina eram criminalizados como bruxaria.
- Isabel Pedrosa de Alvarenga: Uma mulher muito pobre que vivia nas ruas pedindo comida e esmolas, foi condenada por bruxaria em 1750. Um “familiar do Santo Ofício” a denunciou alegando que ela carregava um saco com bicos de pássaros, tufos de cabelo, panos com sangue e umbigos de crianças para rituais de magia. Seu caso mostra como a Inquisição atingia mulheres marginalizadas e sem meios de defesa, e como a pobreza extrema e a vida fora dos padrões sociais facilitavam essa perseguição.
A marca do Diabo: Caçador de Bruxas
Na realidade, a caça às bruxas resultou na morte de milhares de vítimas inocentes que não se encaixavam nos moldes aceitos por uma sociedade patriarcal e religiosa. Além de punir sistematicamente mulheres independentes (como viúvas e solteiras), curandeiras e parteiras, os tribunais inquisitoriais também miravam cruelmente naquelas que eram idosas, possuíam deficiências físicas ou simplesmente viviam à margem da sociedade, usando essas características como provas irrefutáveis de feitiçaria e de pactos demoníacos.
Nesse cenário, o General Caçador de Bruxas Matthew Hopkins usava métodos violentos e sem embasamento para confirmar suas paranoias, como procurar as “marcas do Diabo” na pele das acusadas, o que na realidade, não passava de simples pintas ou verrugas naturais do envelhecimento. Sua principal vítima foi Elizabeth Clarke.
Ela, uma idosa de 80 anos, que foi torturada e enforcada na Inglaterra, em 1645, foi acusada de bruxaria e heresia por não possuir uma perna e carregar verrugas pelo corpo, isso foi usado como uma confirmação de sua “essência maléfica” pelo Caçador de Bruxas.
A independência feminina
A figura demoníaca da “bruxa” consistiu em uma elaborada construção da Igreja e do patriarcado para criminalizar mulheres que eram independentes, que se reuniam entre si e que, por deterem saberes próprios, ameaçavam os privilégios e o monopólio masculino do conhecimento.
A caça às bruxas não foi uma explosão de superstição coletiva. Foi um projeto de poder. Ao acusar mulheres que dominavam o parto, a cura e o conhecimento das ervas, as autoridades da época retiravam delas o prestígio, o saber e o espaço que ocupavam na comunidade.
Para Silvia Federici, filósofa de tradição marxista, esse processo está ligado à consolidação do capitalismo e ao controle sobre o corpo e o trabalho das mulheres, e deve ser entendido como violência sistemática, e não como simples “histeria religiosa”.
Ao resgatar a figura da bruxa, o Halloween nos convida, mesmo que sem intenção, a olhar para além das fantasias e das vassouras. Por trás do estereótipo da mulher de chapéu pontudo e caldeirão fumegante, existe uma história de silenciamento, perseguição e morte de mulheres cujo único “crime” foi deter saber, autonomia e influência em suas comunidades.
Lembrar quem foram de fato essas mulheres é uma forma de devolver-lhes a dignidade que lhes foi roubada, e de questionar as narrativas que, por séculos, transformaram a violência de gênero em espetáculo ou folclore.
Talvez o maior feitiço da caça às bruxas tenha sido convencer o mundo de que suas vítimas eram ameaças, quando na verdade eram guardiãs de um conhecimento que o poder preferiu destruir. Que a data, portanto, sirva não apenas para diversão, mas também a memória: reconhecer essas mulheres é um passo para compreender como o controle sobre o corpo e o saber feminino ainda ecoa nas desigualdades do nosso presente.
________________________
O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann.
Gosta desse tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!