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Quem se sente ameaçado pelo voto feminino?

Eloá Costa Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A participação feminina na política sempre encontrou enclaves no conservadorismo ao longo de toda a história. Iniciado no século XIX, o movimento sufragista foi um dos primeiros e mais importantes passos para o envolvimento político da mulher. Com berço nos Estados Unidos e na Europa, o movimento ganhou força após a segunda guerra mundial.

Apenas em 1932, o voto feminino foi incorporado à constituição brasileira e somente dois anos depois se tornou obrigatório. O movimento sufragista brasileiro não defendia somente a participação democrática direta das mulheres, mas também o acesso à educação, igualdade jurídica, participação no mercado de trabalho e acesso à vida pública. 

O voto feminino ainda é sinônimo de medo para a camada mais conservadora da população e, esse instinto de ameaça é, muitas vezes, fomentado por mulheres. Esse é o caso da influenciadora Pietra Bertolazzi, que se posicionou-se abertamente contra o direito ao voto feminino.

Casos como o de Bertolazzi não são eventos isolados na sociedade atual. Anteriormente, a influenciadora norte-americana Savanna Stone também posicionou-se contra o próprio direito, alegando que esse era “uma operação de propaganda da CIA para fazer com que as mulheres pagassem impostos”.

a “nova” doutrina

Essa ideologia contrária aos próprios direitos não surgiu agora, tem bases no movimento antissufragista, iniciado no Brasil no século XIX. Na época, durante debates relacionados à participação política da mulher, era fundamental a ideia de que as mulheres não deveriam ser consideradas cidadãs, sendo estritamente atreladas e submissas às decisões do marido.

Hoje, o conservadorismo moderno revive essa pauta, adotando novas estratégias, como é o caso do Movimento Brasil Livre (MBL), com a criação de uma cartilha de proposta ideológica intitulada “Livro Amarelo”, que defende um modelo de “voto por família”, ou seja, o voto único e exclusivo do homem.

Modernamente importado, o ideário anti voto feminino brasileiro busca suas bases no governo de Donald Trump. Neste ano, o presidente republicano levantou a possibilidade de uma reforma no sistema eleitoral, para criar obstáculos burocráticos no voto de mulheres que adotaram o sobrenome do marido. Uma das justificativas adotadas por esses movimentos é a doutrina de patriarcado religioso. 

Na atualidade, essa ideologia tem uma raiz virtual, uma forma contemporânea de atrair jovens, tanto homens quanto mulheres, a ideias ultrapassadas de forma persuasiva e convincente. Esse ambiente virtual reforça, cada vez mais, e de forma não aparente, a ideia de hierarquia entre gêneros e a repressão à mulher. 

O papel da “machosfera”

Após inúmeras conquistas de direitos e a ascensão nas mais diversas áreas do cotidiano, o discurso de ódio à mulher ainda é uma realidade constante e impulsionada por ecossistemas virtuais. Ao passo que esse ambiente online se constrói e se espalha discretamente, a violência contra a mulher aumenta exponencialmente no Brasil e para além do ambiente virtual, tendo-o como um berço.

De acordo com o Senado Federal no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2025, a violência contra a mulher atingiu seu recorde, com cerca de 1470 casos de feminicídio, em uma média de quatro mulheres assassinadas por dia.

Essa cadeia de ecossistemas tem nome: a “machosfera”. O grupo, além de defender o ideal de superioridade masculina, também acredita que os avanços femininos apresentam uma forma de opressão. Um relatório da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta o avanço de discursos misóginos atrelados a essa ideologia.

Esses discursos buscam, coincidentemente, atacar o direito ao voto feminino, buscando deslegitimá-lo. De acordo com o estudo, nas comunidades virtuais da machosfera, 87% das publicações são abertamente contra o voto feminino, tratando dessa ideia não só como uma opinião, mas como um tipo de certeza da incapacidade de mulheres em exercerem a democracia através do voto. 

A quem pertence o direito ao voto?

O discurso conservador que sustenta o movimento anti voto faz parte de uma produção de expressões ideológicas de disputa de poder, intensificada pelo medo da possibilidade das mulheres, enquanto seres individuais e coletivos, de exercerem força eleitoral, política, social, cultural, econômica e decisiva no país e no mundo.

Os ataques recentes compõem um discurso que vai além da estrutura patriarcal, e que pretende naturalizar a exclusão feminina. No entanto, é impossível e completamente dispensável aderir a ideia de apagamento e despertencimento da parcela feminina da sociedade, visto que as mulheres são tão capazes quanto os homens de exercer o seu direito assegurado à democracia.

@eloinerthal

📜 Boletim Têxtil – Edição 09: Os manifestos têxteis na luta por direitos femininos 📜 Em março de 1912, 66 mulheres encarceradas por lutarem pelo direito ao voto transformaram um lenço em um dos registros mais potentes da resistência feminina. Na Prisão de Holloway, elas subverteram o bordado em uma ferramenta de protesto político e memória coletiva. Esse objeto é um lembrete de que a arte têxtil sempre foi uma voz para quem o sistema tentou silenciar. Usar o que foi pensado para nos limitar como uma forma de protesto é de uma potência absurda. ✨ Se você não quer perder meus estudos e reflexões sobre o mundo têxtil, assine minha newsletter gratuita pelo link no meu perfil! 📚 Referências: ▪️ London Museum | The Suffragettes ▪️ Google Arts & Culture | Art & Women’s Suffrage – Museum of London ▪️ Google Arts & Culture | Museum of London: Textile Collection ▪️ RCP Museum Blog | Hunger strikes and handkerchiefs ▪️ Te Papa Blog | Marking Suffrage Day – remembering Frances Parker ▪️ Te Papa Museum | The Priest House suffragette handkerchief ▪️ The Priest House | The Priest House Museum & Garden #boletimtextil #artetextil #mulheresnaarte #diadasmulheres 💛

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O texto acima foi editado por Maria Eduarda Barreira.

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Eloá Costa

Casper Libero '28

Eloá Costa is a stage actress, artist, journalism and language student. She enrolled in journalism at Cásper Líbero in 2025, and in language studies at USP in 2026. Eloá is highly interested in linguistics, politics, art and culture. In 2025, she became a Chapter Board Member at Her Campus Cásper Líbero.