Her Campus Logo Her Campus Logo
Casper Libero | Culture > News

Entrevista: Mauro Beting comenta instabilidade no comando dos clubes de futebol

Júlia Rosa Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A temporada mal começou e já entrou para a história como uma das mais turbulentas dos últimos anos no futebol brasileiro. Em apenas algumas semanas, cinco grandes clubes trocaram seus treinadores, escancarando a crise de gestão e o imediatismo que dominam o ambiente esportivo do país.

Temporada caótica: troca-troca de técnicos marca o início de 2025

Santos, Grêmio, Vasco, Corinthians e Fluminense vivem bastidores quentes e apostam em novos comandantes para estancar a crise e acalmar torcidas que pedem respostas imediatas.

Para entender melhor as causas e os impactos da instabilidade técnica nos clubes brasileiros, conversamos com Mauro Beting, comentarista esportivo do SBT, TNT Sports e Jovem Pan, conhecido por suas análises contundentes sobre o futebol nacional.

Analisando o alto número de demissões de técnicos este ano, Beting acredita que é tudo resultado de impaciência e ansiedade por parte dos clubes. A falta de uma pré-temporada, reduzida a apenas uma semana em 2025, somada ao calendário apertado e à constante saída dos jogadores para o exterior impacta diretamente o trabalho dos técnicos. A forte pressão colocada nos clubes resultou na alta rotatividade destes profissionais, a média de permanência se tornou de apenas quatro meses.

Sem tempo para implementar ideias, a troca constante de estilos de jogo desestrutura os times e compromete o desempenho. E por não haver tempo suficiente para mostrar trabalho, acabam substituindo técnicos com perfil ofensivo por outros mais reativos, mudando completamente a forma de jogar do time já na terceira ou quarta rodada.

– Mauro Beting

Resultados imediatos e a pressão insustentável

O futebol brasileiro sempre foi território fértil para mudanças rápidas. Em 2025, porém, a velocidade das demissões impressiona até mesmo os mais acostumados com o ambiente. Com elencos ainda em formação e competições paralelas, como a Libertadores e a Copa do Brasil, os clubes muitas vezes esperam por milagres imediatos e quando eles não vêm, a solução encontrada é trocar o técnico.

Além da pressão da imprensa, da torcida e dos patrocinadores existem outros agravantes. A falta de planejamento das diretorias não pode ser deixada de lado, assim como a existência de uma falta de convicção, estudo, preparo e coragem para sustentar um projeto, pontua Beting. “É necessário um ambiente mais estável para que os clubes possam evoluir. Hoje em dia, muitos clubes ainda pagam salários ou multas de três ou quatro treinadores demitidos anteriormente”, afirma o comentarista.

Há uma tendência dos clubes em apostar nas soluções caseiras, ou até mesmo em técnicos conhecidos pelo mercado nacional – como é o caso dos últimos treinadores da seleção brasileira. Para Mauro, esse comportamento é um sinal claro da falta de paciência para projetos a médio e longo prazo. 

Analisando a situação, o comentarista acredita que a grande questão seja a mentalidade que perdura no futebol brasileiro. Caso a ansiedade por resultados, falta de preparo e paciência para elaborar planos e aguardar os resultados continue, a previsão é de mais turbulência e menos resultados expressivos, tanto nas competições continentais quanto no cenário mundial – caso da seleção brasileira.

Queda de técnicos e pressão interna

Diversos clubes brasileiros enfrentam instabilidade com seus técnicos devido a maus resultados e pressão interna. Não é à toa que cinco grandes clubes já tenham trocado seus técnicos este ano.

Os casos devem, apesar de tudo, serem analisados separadamente. Há clubes que lidam pior com trocas de técnicos ao longo da temporada, isso varia da direção e diretoria de cada time. Beting afirma que é possível ser pressionado, mas ainda sim se manter firme, entretanto isso exige competência, visão e liderança. 

A pressão colocada nos times, técnicos e jogadores está ultrapassando barreiras. As redes sociais se tornaram um espaço para cobrança, e muitas vezes, os torcedores extrapolam o limite do razoável e invadem a privacidade das pessoas, chegando a casos de ameaças e ataques em ônibus e estádios.

Entendendo as demissões nos clubes

Em 14 de abril,  Pedro Caixinha foi demitido do Santos por desempenho fraco e rejeição dos diretores ao seu método de trabalho. No sul, o Grêmio trocou Gustavo Quinteros após derrotas e conflitos internos. Mano Menezes, demitido do Fluminense, comandou o tricolor em 46 jogos, 21 vitórias, 13 empates e 17 derrotas, no final, sua passagem foi marcada por resultados ruins e críticas da torcida. Ainda no Rio de Janeiro, no Vasco, Fábio Carille caiu após eliminação no estadual e início que deixou a desejar no Brasileirão, além de divergências internas.

A cada rodada do campeonato, os olhos se voltam não apenas para os resultados em campo, mas também para os bastidores dos clubes, onde decisões rápidas e, muitas vezes, impiedosas, moldam o destino de técnicos e dirigentes. A instabilidade no comando técnico se tornou quase uma tradição, frequente como os gols.

– Mauro Beting

O caso mais surpreendente, e recente, foi o do Corinthians, que demitiu Ramón Díaz mesmo após conquistas recentes, como o título paulista de 2025. O time alegou “mudança de rumos”, mas no fundo a torca teve uma forte influência política. Dorival Júnior assumiu o comando, completando o ciclo nos principais clubes paulistas.

Ancelotti e a Seleção

A trajetória de Carlo Ancelotti até assumir oficialmente o comando da Seleção Brasileira foi marcada por reviravoltas e negociações prolongadas. Após a saída de Tite em 2022, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) demonstrou interesse no técnico italiano, que, na época, estava à frente do Real Madrid. Apesar das especulações, Ancelotti renovou seu contrato com o clube espanhol até 2026, encerrando temporariamente as conversas com a CBF .

Para Beting, a escolha da CBF foi um grande acerto. O italiano é considerado, pelo comentarista, o maior treinador da história do Real Madrid. Analisando suas conquistas podemos entender o motivo de tal visão sobre o técnico, Ancelotti é o maior vencedor da Champions League e acumulou 11 títulos, incluindo duas Champions e três Mundiais de Clubes com o time espanhol.

Desafios no comando da amarelinha

O técnico terá como seu maior adversário a impaciência do torcedor e a cobrança exacerbada, até por se tratar de dois gigantes no futebol, Ancelotti e Seleção Brasileira. Apesar do Brasil não ser um dos favoritos ao título mundial neste momento, a esperança do torcedor brasileiro é a última que morre e com a presença do novo técnico, a expectativa em torno da conquista do hexa se tornou um sonho com possibilidade de realidade.

O comentarista ainda pontua a instabilidade no comando da Seleção, como as passagens de Fernando Diniz e Dorival Júnior e seus resultados insatisfatórios nas eliminatórias. “Sua chegada marca uma nova era para o futebol brasileiro, com a expectativa de resgatar a competitividade da equipe nacional”, ressalta.

O gigante espanhol preparou Ancelotti para a seleção?

Para Beting, Ancelotti é o técnico mais experiente, e “cascudo”, entre todos os nomes cogitados para o posto. O técnico, multicampeão por clubes como Milan, Chelsea e Real Madrid, chega com a missão de recolocar o Brasil no topo do futebol mundial.

O italiano foi oficialmente anunciado como o novo técnico da Seleção Brasileira, assumindo o cargo a partir de 26 de maio, após encerrar sua passagem pelo Real Madrid. Aos 65 anos, Ancelotti se torna o primeiro estrangeiro a comandar a equipe desde 1965, firmando contrato até o fim da Copa do Mundo de 2026. Sua chegada ocorre após a demissão de Dorival Júnior em março, consequência de uma série de resultados negativos nas Eliminatórias, incluindo uma derrota para a Argentina no Maracanã

A transição do italiano para o comando da Seleção não foi isenta de controvérsias. A ausência de um comunicado oficial do Real Madrid sobre sua saída gerou críticas, com especialistas apontando uma falta de reconhecimento institucional ao legado do treinador.

A escolha de um técnico estrangeiro levantou debates sobre identidade nacional, questionando a decisão da CBF. Para a comissão técnica, Ancelotti considera a inclusão de Kaká, ex-jogador com quem trabalhou no Milan e no Real Madrid, visando fortalecer os laços com os atletas brasileiros .O treinador também já iniciou contatos com jogadores demonstrando intenção de mesclar experiência e juventude em sua gestão.

O que podemos esperar dessa nova era da seleção

Apesar do currículo exemplar, Ancelotti não possui experiência prévia com seleções, o que para Beting não se torna um problema. “O fato de já conhecer bem jogadores como Vinícius Júnior, Rodrygo e Endrick pode facilitar a articulação de uma equipe coesa, técnica e ofensiva. Ancelotti tem tudo para fazer uma formação sólida e bem estruturada”, reflete.

O técnico terá, praticamente, um ano de trabalho até a Copa do Mundo, ou seja, ele terá mais tempo de preparação do que Felipão teve em 2002, mais que Zagallo em 1970 e mais que Vicente Feola em 1958. Ele só ficará atrás de Aymoré Moreira (1962) e Parreira (1994), em termos de tempo de trabalho entre os técnicos campeões com o Brasil. 

Com essa margem de tempo e sua experiência, acredito que ele pode montar um time extremamente competitivo. O Brasil, sob seu comando, passa a ter mais chances reais de título do que já tinha anteriormente.

– Mauro Beting

o futuro do futebol brasileiro

A dança das cadeiras no comando técnico dos clubes brasileiros escancara um problema estrutural que vai além das quatro linhas. A cultura do imediatismo, a pressão desmedida de torcedores e dirigentes, e a ausência de planejamento de longo prazo tornam o ambiente do futebol nacional um campo minado para qualquer profissional. Enquanto se troca de técnico como se troca de uniforme, os clubes seguem sem identidade tática, sem continuidade e, muitas vezes, sem resultados.

Resta saber até quando o futebol brasileiro continuará apostando em soluções paliativas, em vez de construir projetos sólidos que resistam às inevitáveis oscilações de desempenho. Porque, no final das contas, sem estabilidade, não há vitória que dure.

________________

O artigo acima foi editado por Malu Alcântara.

Gosta desse tipo de conteúdo? Confira Her Campus Cásper Líbero para mais.

Júlia Lopes

Casper Libero '28

I’m an Communication student at Cásper Líbero who is completely passionate about romantic movies, music, sports such as soccer and formula 1. I'll be writing to HC to share my opinions, thoughts and worldview and to somehow share my perspective on it.