Você provavelmente conhece aquela sensação de estar rodeada de gente, mas ainda assim se sentir só, certo? Esse vazio silencioso virou parte da vida de muita gente — e não tem nada a ver com o número de amigos no Instagram ou com quantas pessoas te chamam no WhatsApp. A questão vai mais fundo: falta conexão real.
A psicóloga Helena Emerich, especialista em relacionamentos, explica que hoje em dia muita gente se afasta no primeiro sinal de conflito. O que ela vê é uma rigidez às frustrações dentro das relações. Segundo ela, esa falta de tolerância impede a construção de conexões de verdade.
O que eu percebo hoje é uma grande intolerância às frustrações dentro dos vínculos. As pessoas se frustram e já não querem mais aquilo. E dentro de qualquer relacionamento a gente vai se frustrar. Quando eu não tolero a frustração, eu não consigo construir vínculos profundos. E isso vai gerar solidão, porque o ser humano é um ser social.
– Helena Emerich
O que é a solidão na era moderna?
Vivemos num mundo hiperconectado, mas também hiper acelerado. Trocar mensagens, comentar em fotos, mandar emojis de coração parece suficiente para manter relações ativas. Só que essas trocas, muitas vezes superficiais, não substituem uma conversa verdadeira, daquelas que acolhem e fortalecem.
Helena observa que a busca hoje é mais pela aparência da felicidade do que pela construção real dos vínculos. “As pessoas querem ter um relacionamento para ter uma validação social. Se eu estou solteira, parece que tem alguma coisa errada comigo“.
Bauman: o conceito e prática do “amor líquido”
O sociólogo Zygmunt Bauman já alertava: estamos vivendo uma “modernidade líquida”, onde as relações são frágeis, rápidas e fáceis de descartar. Em seu livro – Amor Líquido – ele fala que os vínculos perderam solidez, justamente porque as pessoas preferem manter uma liberdade de escolha constante, sem amarras.
Ao falar que o “amor líquido” não resiste ao tempo, Bauman descreve o que Helena vê todos os dias: vínculos frágeis, que se rompem ao menor sinal de dificuldade.
A psicóloga traz uma leitura bem atual dessa ideia, ela acredita que o relacionamento atual se tornou símbolo de status. A relação com o outro surge, não por querer estar em troca com aquela pessoa, mas sim pela necessidade de mostrar para o mundo uma ideia de felicidade, de desejo, de amor.
A gente quer um relacionamento perfeito, sem defeitos, sem brigas, sem conflitos. Só que isso não existe. Então, ao primeiro sinal de problema, eu quero desistir. Porque eu aprendi que, se dói, é porque não é para ser. E não é assim. Todo relacionamento vai ter conflito. E é enfrentando o conflito que a gente cresce e amadurece dentro do vínculo.
– Helena Emerich
A solidão segundo Melanie Klein
A psicanalista Melanie Klein traz uma visão ainda mais profunda sobre a solidão: ela acreditava que a sensação de vazio que sentimos na vida adulta tem raízes nos primeiros anos de vida, especialmente em experiências de abandono ou de falta de acolhimento emocional.
Helena explica que essas marcas ficam: “Se eu cresci num ambiente onde eu não fui amado de verdade, onde eu não fui cuidado, onde eu não fui ouvido, onde eu não fui acolhido, na vida adulta eu não vou saber o que é isso. Então, mesmo que alguém me ame, eu não reconheço aquilo como amor. E aí eu fico buscando algo que preencha esse buraco interno que nunca vai ser preenchido por outra pessoa”.
Redes sociais: mais um motivo para se sentir só
As redes sociais vendem a ideia de que estamos todos mais próximos. Mas, na prática, a realidade é bem diferente. Ver fotos, stories e atualizações da vida dos outros dá uma falsa sensação de conexão, mas falta a profundidade que faz a diferença.
Helena reflete sobre o uso das redes sociais e como elas acabam distorcendo a percepção que temos dos outros. Cada um posta aquilo que deseja mostrar, o que vemos é uma pessoa idealizada e não a realidade. “Quando eu convivo com essa pessoa, eu vejo que ela é real. Ela tem defeitos, ela tem falhas e aí eu me frustro, porque aquilo não corresponde à expectativa que eu criei”.
Há ainda as marcas deixadas pela pandemia. A especialista afirma que após o período de isolamento, as pessoas desenvolveram uma maior dificuldade de lidar com o real. Nas trocas digitais temos tempo para refletir, podemos repensar, reescrever e até mesmo apagar mensagens, diferentemente da vida real que a resposta deve ser imediata. Helena nota que muitas pessoas perderam essa habilidade de se relacionar sem filtro.
quando o outro não preenche
Estar acompanhado nem sempre significa estar em boa companhia. Às vezes, a solidão mais dolorosa é justamente aquela que sentimos quando estamos com alguém.
Solidão a dois é quando eu estou com uma pessoa, mas eu não me sinto vista, não me sinto ouvida, não me sinto amada, não me sinto acolhida. Eu estou ali, mas eu estou sozinha dentro daquela relação.
– Helena Emerich
Segundo a especialista, essa solidão conjunta acontece porque muitos casais param de se comunicar de forma verdadeira. Cada um acaba vivendo em seu próprio mundo, apesar de dividirem a mesma casa, a mesma cama, não compartilham seus sentimento e pensamentos mais profundos.
a solidão para Além dos relacionamentos amorosos
Quando somos mais jovens, fazer amigos parece fácil: escola, faculdade, grupos de interesse. Na vida adulta, as coisas mudam. O tempo fica curto, os compromissos aumentam, e manter amizades profundas exige esforço e disposição.
Helena aponta que a dificuldade de criar vínculos – não só amorosos – vem, muitas vezes, do medo de se machucar. É normal que, à medida que uma pessoa se machuque, ela crie defesas e barreiras para se proteger, no âmbito das relações humanas, esse mecanismo de defesa pode resultar em uma vivência superficial das relações. Há uma troca, mas sem conexão.
solitude e não solidão
Lidar com o estar sozinho passa primeiro por olhar para dentro e entender as próprias necessidades.
Helena acredita que o ponto de partida é simples: “Eu sempre pergunto para o paciente: o que você precisa? Não o que você quer, mas o que você precisa. Porque, muitas vezes, o que eu quero é uma companhia. Mas o que eu preciso é ser ouvido, é ser acolhido, é ser validado”.
A vulnerabilidade é fundamental. Apesar da dificuldade de se abrir pelo medo da rejeição, é necessário se permitir pois somente desta forma criaremos vínculos. A verdadeira conexão com o outro se cria na vulnerabilidade e não na perfeição, afirma a psicóloga.
Buscar relações mais reais, onde seja possível ser quem se é, sem máscaras e sem medo, pode ser o caminho para transformar a solidão em espaço de crescimento e de encontro verdadeiro — com os outros e com a gente mesmo.
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The article above was edited by Malu Alcântara.
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