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Casper Libero | Culture

Por que professores estão se tornando alvos de ataques e ameaças?

Maria Fernanda Barros Oliveira Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Celebrado em 15 de outubro, o Dia do Professor chama a atenção para a importância de quem está à frente das salas de aula e para a realidade enfrentada por esses profissionais no exercício da profissão. Em meio às homenagens, os desafios do cotidiano escolar também merecem espaço, especialmente quando os dados revelam uma realidade preocupante.

Dois em cada três profissionais da educação ouvidos pelo Centro do Professorado Paulista (CPP) já foram agredidos no trabalho. Na pesquisa com 1.144 participantes, 65,6% relataram algum tipo de agressão, principalmente verbal, e 19,3% disseram ter sofrido violência física, segundo o Diário do Grande ABC.

A sala de aula deveria ser um espaço de aprendizado, diálogo e convivência. Para muitos docentes, porém, o cotidiano inclui ameaças, xingamentos, intimidação e exposição nas redes sociais. O que antes era visto como indisciplina pontual passou a ser tratado por pesquisadores e sindicatos como um problema de saúde e de segurança no trabalho.

A situação não é exclusiva do Brasil, mas aqui ela aparece de forma intensa nas comparações internacionais. Na pesquisa Talis 2024, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 47% dos professores brasileiros apontaram a intimidação e o abuso verbal por parte de alunos como uma importante fonte de estresse. A média entre cerca de 50 países foi de 18%.

Os números indicam que a violência contra professores não se limita a casos isolados. Para entender por que esses profissionais se tornam alvos, é preciso olhar para a convivência dentro da escola, para as condições de trabalho e para formas de agressão que ultrapassam os muros da instituição.

Mais do que agressão física

A violência contra docentes assume várias formas. Além de empurrões e ameaças, inclui xingamentos, humilhações e atitudes que desautorizam o professor diante da turma. É um tipo de agressão que muitas vezes não deixa marcas visíveis e, por isso, tende a ser minimizado.

Uma tese da Universidade Estadual de Londrina (UEL) sobre a rede estadual de ensino identificou que 71,1% dos professores participantes sofreram algum tipo de violência nos 12 meses anteriores à pesquisa. O dado oferece um recorte regional e reforça que o problema faz parte da experiência profissional de grande parte da categoria.

Na rede municipal de São Paulo, um levantamento da Universidade de São Paulo (USP) e da Associação dos Profissionais dos Professores do Município (Aprofem), com mais de 2,5 mil profissionais, trouxe um número semelhante: 62,5% disseram ter sofrido algum tipo de violência.

O mesmo estudo mostrou que 63,5% dos participantes se afastaram do trabalho por motivo de saúde no último ano, o que aproxima as duas questões, violência e adoecimento. Quando os conflitos são tratados apenas como indisciplina, sem resposta firme da instituição, as agressões tendem a se repetir. O professor passa a lidar sozinho com situações que exigem intervenção coletiva da escola, das famílias e dos órgãos responsáveis pela rede de ensino.

Quando o celular transforma humilhação em espetáculo

As redes sociais acrescentaram uma dimensão nova ao problema. Uma cena que antes ficava restrita à sala de aula pode ser gravada, editada e compartilhada com milhares de pessoas, muitas vezes fora de contexto.

Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) já descreviam, em artigo sobre o YouTube e o cyberbullying de alunos do ensino médio, vídeos feitos por estudantes em que professores aparecem agredidos e humilhados em sala de aula. O trabalho observa que as pesquisas brasileiras sobre o fenômeno ainda são incipientes e que a tecnologia também pode ser usada para aproximar professores e alunos, desde que haja uma compreensão crítica sobre ela, em vez de simples proibição.

Em alguns casos, a gravação deixa de ser registro e passa a fazer parte da agressão. É o que se chama de cyberbaiting: o aluno provoca o professor de propósito para filmar a reação e divulgá-la na internet. A exposição pode gerar um ciclo contínuo de humilhação, em que a vítima é lembrada do episódio mesmo fora da escola.

Um estudo da revista Psicologia Escolar e Educacional ouviu seis professores de uma escola pública de ensino fundamental e médio do interior do Rio Grande do Sul sobre cyberbullying e as estratégias de enfrentamento. Os pesquisadores identificaram fragilidades na resposta da escola ao problema, na visão dos próprios docentes. Por ser uma pesquisa qualitativa com poucos participantes, o resultado não pode ser generalizado, mas ajuda a mostrar como a violência digital continua afetando o professor fora do expediente.

Sindicatos de professores já publicaram orientações práticas para a categoria. Entre elas, manifestar de imediato que a gravação da aula não é autorizada, registrar boletim de ocorrência e comunicar formalmente a direção da escola, com protocolo, identificando as pessoas envolvidas.

Falhas na proteção

A violência também precisa ser lida junto com as condições em que o ensino é feito. Jornadas extensas, remuneração considerada insuficiente, infraestrutura inadequada e acúmulo de responsabilidades aumentam a pressão sobre os profissionais.

Um estudo do Observatório do Estado Social Brasileiro, da Universidade Federal de Goiás (UFG), com dados do Censo Escolar e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), trata a violência contra professores como o sintoma mais visível da precarização estrutural do trabalho docente.

Esses fatores não explicam, sozinhos, por que alguém agride um professor. Mas ajudam a entender por que muitas escolas têm dificuldade de prevenir conflitos, acompanhar casos e acolher quem sofreu a agressão. Sem protocolos claros de denúncia, registro e acompanhamento, o educador encontra mais obstáculos para pedir ajuda e permanece exposto a situações semelhantes.

Por isso, a proteção não pode depender apenas da capacidade individual do professor de controlar conflitos. Ela envolve a atuação da gestão escolar, a participação das famílias e a existência de procedimentos definidos para cada tipo de ocorrência.

O que está sendo feito

Enfrentar o problema exige prevenção, acolhimento e responsabilização: canais seguros de denúncia, registro das ocorrências, investigação das ameaças, orientação à comunidade escolar e apoio aos profissionais afetados.

O Ministério da Educação, em parceria com o Observatório Nacional da Violência contra Estudantes (ONVE) sediado na Universidade Federal Fluminense (UFF), oferece uma rede de apoio pedagógico, jurídico e de saúde mental para educadores vítimas de violência profissional através de um formulário eletrônico disponível no site oficial da iniciativa.

Após o preenchimento, os casos são organizados em uma fila de espera e distribuídos para as equipes interdisciplinares de universidades federais de todo o país, variando de acordo com a disponibilidade das equipes e projetos de extensão locais, o que significa que o atendimento não possui prazo fixo e não tem caráter emergencial ou imediato.

A iniciativa é um passo importante, mas não basta sozinha. Ela precisa vir acompanhada de prevenção e de respostas efetivas dentro das próprias escolas. Proteger o professor é proteger a escola como espaço de aprendizagem e convivência. Quando a violência vira rotina, toda a comunidade escolar é afetada, e o enfrentamento deixa de ser responsabilidade individual para se tornar compromisso coletivo.

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O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann.

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