Na última quarta-feira, dia 18 de março, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto foi preso, acusado de feminicídio. O oficial teve sua prisão preventiva decretada pelo Ministério Público após investigações sobre a morte de sua esposa, a policial militar Gisele Alves Santana, que foi encontrada baleada na cabeça no apartamento do casal, revelarem inconsistências na sua versão de que a vítima teria cometido suicídio.
Mensagens trocadas entre o oficial e a soldado revelam que, dias antes do crime, Geraldo se descrevia como “macho alfa provedor”, fazia exigências e impunha regras de comportamento à esposa, que deveria agir como “fêmea beta obediente e submissa”. Tais mensagens evidenciam a maneira hostil como Gisele era tratada pelo tenente-coronel.
O que as mensagens de Geraldo revelam, porém, vai além de um comportamento abusivo isolado, elas expõem sintomas de movimentos “masculinistas” que vêm sendo altamente disseminados nas redes sociais atualmente: a redpill e a machosfera.
O termo “redpill”, originário do filme Matrix, é apropriado na internet para descrever um “despertar” masculino para uma suposta realidade, na qual os homens são as grandes vítimas da sociedade. Esse pensamento é difundido na machosfera, um ecossistema digital de fóruns, canais e comunidades misóginas que legitimam a hostilidade contra mulheres e promovem a ideia de que o valor masculino está ligado ao controle e a dominação.
O algoritmo para eles
O primeiro contato com discursos misóginos, em grande parte das vezes, não vem de uma escolha consciente. No atual modelo das redes sociais, a seleção dos conteúdos que serão entregues aos usuários é feita por algoritmos treinados para “entender”, com base em comportamentos digitais, quais temas são relevantes para cada indivíduo.
Além disso, de acordo com a socióloga e cientista política Bruna Camilo, os algoritmos atuam sob uma lógica de engajamento que favorece o processo de “radicalização progressiva de conteúdo”, ou seja, os usuários são gradativamente expostos a conteúdos mais extremos, pois geram mais engajamento.
Assim, o primeiro contato desses homens com tais movimentos começa através da recomendação de conteúdos online disfarçados de conselhos sobre sucesso, autoestima, relacionamento ou autoaceitação. Entretanto, esses “conselhos” vão se tornando cada vez mais radicais, promovendo ideias de que mulheres são seres inferiores, de que não merecem respeito e de que trabalham para a destruição dos homens.
Para a especialista, a exposição frequente a esse tipo de discurso de ódio gera um efeito de normalização: “A repetição se torna familiar e, depois da familiaridade, vem a aceitação“. Nesse cenário, segundo Bruna, o dano pode ser ainda maior para “adolescentes em formação identitária”, pois altera a percepção que esses jovens têm sobre o que é ser homem e “redefine a masculinidade como dominação em sucesso sexual, reduz o papel das mulheres e deslegitima as emoções, como a vulnerabilidade.”
Esse argumento é comprovado por dados: Um estudo da Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina revelou que 31% dos homens da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) acreditam que a esposa deve ser submissa ao marido e concordam com visões conservadoras sobre o papel de homens e mulheres na sociedade.
Há também um forte fator emocional que atrai homens e adolescentes para essas comunidades. De acordo com a socióloga, esse tipo de discurso é eficaz em engajar jovens porque “ativa gatilhos psicológicos, como frustração e ressentimento, especialmente em contexto de rejeição afetiva”, gerando uma “identidade de grupo” que “valida a insegurança masculina e transforma a dor em narrativa de injustiça”, enquanto bloqueia a empatia e reforça comportamentos violentos.
O algoritmo para elas
Enquanto radicalização e misoginia são entregues para homens nas redes, mulheres recebem conteúdos que exaltam a submissão, a “energia feminina” e ensinam bons comportamentos. Sob rótulos como “esposa troféu”, as redes vendem a ideia de que o sucesso da mulher se dá a partir de sua subordinação a um homem.
O conceito de “energia feminina” vem sendo redefinido online como um conjunto de normas que ditam o que é ser mulher. Nessa narrativa, a mulher não pode se impor, deve ser elegante e estar sempre sorrindo para não causar desconfortos, enquanto cede ao homem funções “importantes de verdade”.
Nessa perspectiva, coisas que deveriam ser consideradas conquistas femininas, como a liberdade e a independência financeira, passam a ser vistas como “perda de feminilidade”, incentivando a mulher a não trabalhar e a se responsabilizar apenas por “edificar o lar”. O discurso de energia feminina promove a fragilidade e a doçura como as grandes virtudes de uma mulher, que deve se comportar corretamente se quer ser respeitada.
Sobre esses conteúdos, Bruna destacou: “Podem parecer inofensivos, mas estão bem associados à submissão como uma virtude, a dependência emocional e financeira e a aceitação do controle masculino”.
O contato com esse tipo de conteúdo, assim como o contato com conteúdos misóginos voltados para o público masculino, implica na normalização do que não deveria ser normalizado. Segundo a socióloga, isso pode ocasionar inclusive “dificuldade de romper com relações violentas”, já que a mulher é ensinada a evitar conflitos.
Da internet para a realidade
Ao influenciar homens a serem “dominadores” e mulheres “submissas”, as redes sociais estão, basicamente, criando o caçador e a caça. Para Bruna Camilo, “essa metáfora não é exagerada em termos sociológicos, quando reforça o homem como dominador e conquistador e a mulher como prêmio, um objeto subordinado.”
O caso de Gisele Santana é um lembrete de que ideologias difundidas na machosfera não são apenas termos bobos encontrados na internet. Eles de fato moldam percepções acerca da realidade e ações de homens no mundo real. Geraldo Neto, ao se autointitular “macho alfa”, legitimava o controle de sua parceira, como sinal de status e de poder.
“Esse tipo de ideologia da misoginia pode funcionar como uma justificativa cognitiva para o agressor. Então, a machosfera e todos esses conceitos, se tornam uma justificativa para o agressor materializar todo esse ressentimento que ele tem.” salientou a socióloga.
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The article above was edited by Malu Alcântara.
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