A primeira parte da quarta e nova temporada da série da Netflix, Bridgerton estreou dia 29 de janeiro, e bastou poucos minutos de tela para a internet organizar o seu pequeno tribunal das minúsculas causas: mais do mesmo debate acalorado que começou ainda na primeira aparição da mulher preta e queer Michaela Stirling, adaptação do falecido – pelo menos, de nome e gênero – Michael Stirling dos livros de Julia Quinn que inspiraram a série.
Shonda Rhimes, a produtora da obra, já tinha tomado para ela a marca registrada de adotar elementos anacrônicos no universo de romance histórico e isso gerou burburinhos raivosos. Mas, desta vez, o centro da conversa não é unhas de gel acrílico em pleno ano de 1815, músicas modernas ou maquiagem forte nos bailes de Mayfair. A revolta é direcionada a confirmação sutil de que Francesca Bridgerton é lésbica.
Muitos fãs não pediram ou queriam essa mudança, mas talvez ela fosse exatamente o que faltava nessa produção tão leve, romântica e definitivamente fora de tom de época desde a primeira temporada, protagonizada pelo ovacionado casalDaphne Bridgerton e Simon Basset.
Nos romances originais, a história de Francesca é marcada por um trope clássico: após ficar viúva de John Kilmartin, ela se apaixona pelo primo de seu falecido marido, Michael Stirling. Uma narrativa de dor, luto, infertilidade e reencontro afetivo.
Com a troca de gênero da figura literária, não demorou muito para teorizarem e atacarem: “se ela amará uma mulher, não terá o arco de infertilidade?” “Francesca Bridgerton? A irmã dela, Eloise, era a escolha certa para segurar a bandeira da homossexualidade, não era?” “Se ela é lésbica, não ama John e a bela história deles foi apagada? Shonda Rhimes, sua bruxa!” Mas não é bem assim…
Representatividade que incomoda
É entendível que os fãs idealizem o que querem e se sintam frustrados quando não recebem, tal como foi o caso de Michael. Mas tantas acusações são infundadas. A temporada da Francesca sequer foi lançada. E certas interpretações são muito rasas e preconceituosas.
A representatividade dela faz parte dos aspectos de anacronismo da obra. Mas não é novidade, outras inclusões como a hierarquia sem distinção racial e mudanças de etnias em personagens já foram apresentadas. Pode-se questionar a credibilidade dos profissionais por trás do fenômeno que é a produção original da Netflix. Duvidar da qualidade do produto audiovisual oferecido na tela de streaming ou até mesmo da própria saga de Julia Quinn. Ser contra o uso da popularidade de Bridgerton para levantar causas alvos de discriminação em forma de normalidade dentro do universo. Mas, como a representatividade dela não deixará de existir, por que não refletir os ganhos desse cuidado representativo para minorias?
O que se sabe sobre Francesca nestas quatro temporadas é que ela é introvertida, tímida, pragmática, astuta, cuidadosa, dócil e gentil. Ela definitivamente não é a irmã mais velha Eloise. Mesmo que o pai das duas, Edmund, as chamasse de gêmeas acidentais por compartilharem a data de aniversário – com um ano de diferença. Eloise é rebelde, sagaz, sarcástica, curiosa, espirituosa, leal e rejeita as normas sociais.
A irmã mais velha em questão poderia muito bem ser a sáfica, como muitos haters do ship franchaela apontaram. Ela caberia muito bem no rótulo. Mas esquecem que há diversidade na pluralidade. Mulheres homossexuais podem atender ao padrão do conceito de feminilidade e ainda assim viver, reivindicar e representar suas vivências e causas de forma legítima.
Por que essa mudança importa?
É um alívio que a série se afaste de uma perspectiva reducionista, em que insiste em associar identidade sexual a estereótipos visuais ou comportamentais, como se a orientação de uma personagem precisasse ser “anunciada” por traços que as comunidades online julgam adequados. A internet raramente pede mudanças reais: pede o que já conhece, o que já se encaixa e o que já é confortável. Mas a arte não precisa pedir permissão.
É justamente porque ela “não parece” ser o que esperavam que sua história se torna necessária. A representatividade que incomoda é, muitas vezes, a representatividade que tem voz e quebra pensamentos limitantes e ultrapassados.
A construção da narrativa de Francesca Bridgerton é positivamente promissora. Ela ama John, mas não da maneira que ela acha que deveria. Ela ainda vai viver o luto por ele, pois encontraram uma amizade e companheirismo um no outro. É uma história de amor.
De uma forma sensível, estão mostrando para o público o recorte da vida dessa irmã Bridgerton em que ela está descobrindo ser diferente, tentando encontrar seu lugar com esse papel e entender sentimentos desconhecidos a ela.
Essa jornada da futura protagonista Bridgerton está alcançando grupos que sequer tinham interesse na obra da Netflix, ou eram parte do público-alvo. O motivo? Justamente o mero indício dela contemplar outros tipos de histórias, para outros tipos de pessoas.
Podem até não ter pedido por Michaela. Mas é uma história que amplia o espaço para outras que ainda virão, e por isso precisamos dela.
_________________
O artigo acima foi editado por Duda Kabzas.
Gostou desse tipo de conteúdo? Confira Her Campus Cásper Líbero para mais!