Vivemos em um mundo marcado pela circulação acelerada de informações, pela polarização política e pela disputa de narrativas. Nesse cenário, desenvolver a capacidade de questionar o que nos cerca, quem influencia a forma como enxergamos a realidade – e com quais interesses – se torna cada vez mais importante.
Além da educação formal e do acesso à informação, a literatura pode ser forte aliada nesse processo. Nas obras de ficção, personagens complexos, sociedades distópicas e conflitos marcantes nos convidam a imaginar realidades diferentes da nossa e a questionar aquilo que, muitas vezes, fomos ensinados a interpretar como natural.
Em ano eleitoral, somos apresentados a diferentes versões do país e essa discussão ganha ainda mais relevância. São candidatos defendendo propostas e projetando cenários, ao mesmo tempo em que narrativas são construídas, influenciando a maneira como enxergamos, tanto aqueles que disputam os cargos públicos, quanto as questões que afetam a sociedade. Nesse contexto, de que maneira a ficção pode nos ajudar a compreender diferentes possibilidades de futuro e a questionar as estruturas que organizam a vida coletiva?
A literatura como forma de compreender o mundo político
Para compreender a política, não basta observar as instituições e as regras que organizam uma sociedade. Também é preciso entender como as pessoas se comportam diante delas, quais interesses orientam suas escolhas e por que determinadas relações de poder são aceitas ou contestadas. É nesse aspecto que a literatura pode contribuir para a reflexão política.
“Eu costumo dizer que a literatura é uma das maneiras mais interessantes de compreender a política porque ela nos permite observar aquilo que os conceitos teóricos nem sempre conseguem mostrar: o comportamento humano diante do poder”, comenta a cientista política Deysi Cioccari. Para ela, a literatura não deve ser vista como uma comparação ou substituição a teoria política, mas sim como uma forma alternativa de compreender como o poder é experimentado, legitimado e, muitas vezes, naturalizado.
Essa relação viva entre arte e sociedade é algo contextualizado nas reflexões de Theodor W. Adorno, integrante da primeira geração da Escola de Frankfurt. Em sua análise, entender a dimensão social de uma obra vai muito além de analisar seu contexto, parte de buscar como as contradições aparecem na linguagem, nos personagens e na própria construção narrativa.
Pelo olhar dos frankfurtianos, a literatura serve como campo de estudo da subjetividade vivida pelos homens na modernidade. Na prática, significa que a ficção não é apenas um campo imaginário da realidade, como também uma forma de a construí-la simbolicamente, interpretá-la e questioná-la.
Ler também é questionar as próprias certezas
Ao adentrar um universo fictício, o leitor tem a oportunidade de examinar as motivações dos personagens, entender acontecimentos e questionar as regras que organizam aquele mundo, mesmo quando elas se parecem com aquelas às quais está acostumado.
De qualquer forma esse exercício não garante, necessariamente, que a leitura vá resultar em uma visão mais crítica do mundo. Como Deysi explica, “uma obra literária pode ampliar nosso horizonte intelectual, mas também pode funcionar como instrumento de reafirmação das nossas próprias certezas”.
A diferença se encontra na disposição do leitor em confrontar suas próprias ideologias – estar de mente e considerar diferentes interpretações, reconhecer e estimular o pensamento sobre contradições que talvez seria mais simples ignorar. “Ler é importante. Mas aprender a desconfiar das próprias certezas é um exercício intelectual ainda mais difícil”, ela complementa.
Nas distopias, o poder levado ao extremo
É nesse ponto que as distopias se tornam especialmente relevantes para a discussão. Distopia — o oposto de uma utopia — é uma palavra de origem grega associada à ideia de um lugar ruim.
Imagine uma sociedade totalitária, opressora e desigual. Bom, é assim que se caracteriza uma distopia. Ao levar determinadas características sociais ao limite, essas obras permitem investigar não apenas quem exerce o poder, mas também quais condições levam as pessoas a obedecer e aceitar a participação na manutenção de estruturas injustas.
“Uma boa obra não precisa nos ensinar qual posição política devemos adotar; na verdade, ela nos obriga a refletir sobre questões fundamentais”, explica a cientista política.
Assim, conseguimos encontrar nos livros um instrumento para refinar nossos questionamentos. O que torna uma autoridade legítima? Por que sociedades aceitam determinadas formas de violência? Como pessoas comuns participam da manutenção de estruturas injustas? – E assim por diante.
O encontro com as urnas
De 1984, de George Orwell, à Jogos Vorazes, de Suzanne Collins – encontramos nestes livros diferentes formas do poder em sua faceta mais extrema, na qual há um abuso dele de forma descarada e imperativa sob a sociedade. Com a leitura desses que considero clássicos, além da diversão – caso você já tenha os lido é algo incontestável – podemos refletir sobre controle de informação, quais os interesses por trás de narrativas públicas e como construímos nossas próprias convicções.
Em ano eleitoral, essas perguntas ganham novos parâmetros. Diante de diferentes propostas, discursos e promessas de futuro, desenvolver o pensamento crítico exige mais do que escolher em qual narrativa acreditar. Nesse momento é imprescindível que você cumpra com seu papel de cidadão, questionando, buscando informações confiáveis e confrontando tudo aquilo que adotamos como fatos.
Afinal, a literatura não oferece respostas prontas para os problemas políticos, nem garante que seus leitores terão uma visão mais crítica da realidade, ela nos ensina a fazer perguntas melhores e entender aquilo que acreditamos. E, quando diferentes versões de país disputam nossa atenção, saber questionar é tão importante quanto saber escolher.
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The article above was edited and translated by Ana Beatriz Carvalho Sapata.
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