Poucas carreiras permitem que os profissionais explorem tantas possibilidades quanto o jornalismo. Seja nas redações, na comunicação corporativa ou ao lado de figuras públicas, jornalistas têm a oportunidade de experienciar diferentes estilos de vida. Betise Assumpção experimentou todos eles. Sem nunca perder sua essência, passou por jornais e revistas e ficou mais conhecida por ter sido assessora de imprensa do tricampeão de Fórmula 1 Ayrton Senna, abrindo caminhos no jornalismo esportivo de diversas formas.
No Dia do Jornalista, a Her Campus Cásper Líbero conversou com Betise sobre todas as “eras” de sua carreira, passando pelas alegrias e desafios da profissão.
O começo da carreira
Nascida e criada em São Paulo em meio a 7 irmãos, quando criança Betise “era uma peste”, como ela mesma descreve em seu blog (o qual, infelizmente, está desativado, mas ainda guarda outras excelentes crônicas). Fã de brincadeiras não muito ‘femininas’, subia em árvores, desafiava os meninos em competições de bolinhas de gude e pendurou uma Barbie pela janela, mostrando desde cedo sua determinação em viver a vida a sua própria maneira.
O interesse pelo jornalismo surgiu na adolescência, pouco depois do início da carreira amadora como jogadora de vôlei. Uma de suas professoras de português começou a namorar um jornalista e decidiu montar um jornal no colégio. Movida pelo interesse no esporte, Betise se juntou à redação e, ao terminar a escola, decidiu cursar jornalismo. No início da década de 80, se formou pela Faculdade Cásper Líbero.
Em 1981, foi para o Estadão cobrir férias na editoria “geral”, mas sempre de olho no esporte. Também trabalhou como freelancer para as revistas Moto e Quatro Rodas. Foi para a editoria de esportes da Folha de S. Paulo em 1983, sendo a única mulher da área no jornal, onde ficou até 1986. De lá, foi para a Revista Placar, continuando na cobertura poliesportiva. Porém, a matéria da época que mais lhe marcou não foi com nenhum atleta.
“Marcou muito ter entrevistado o Chico [Buarque] e o Jô Soares, porque eram coisas que você não fazia nunca. O Tonico Duarte [editor da Placar], não sei se foi só a ideia dele, mas acho que sim, [pensou em] fazer uma série com entrevistas e pessoas conhecidas que gostam de futebol. O Chico tem um time até hoje, o Jô nem me lembro como arrumei o contato. Telefonei, marquei e fui, mas o Chico não tinha como achar. Literalmente fui para um teatro onde ele ia dar um show, sentei na porta e fiquei esperando chegar”, lembrou em entrevista à Her Campus.
A mudança para Londres
Incomodada com a sensação de não estar saindo do lugar e vendo apenas os homens da redação serem mandados para as grandes coberturas, Betise resolveu que era hora de mudar. Com uma irmã já morando em Londres, decidiu ir para a capital inglesa “com o objetivo de aprimorar meu inglês e aprender mais o modo de vida no exterior”. Pouco depois da mudança, em julho, encontrou Ayrton Senna em Wimbledon e contou sobre a mudança de endereço. Ela já o havia entrevistado algumas vezes e o piloto a convidou para jantar “com uns amigos e um grupo de japoneses da Honda, cujos motores iriam para a McLaren com ele no ano seguinte”.
No fim de 1989, seguindo a recomendação de Charles Marzanasco e Roberto Ferreiro, seus assessores no Brasil, Senna ofereceu o trabalho de assessora de imprensa ‘internacional’ para Betise, que, mesmo sem nunca ter atuado nesse papel, prontamente aceitou. “Eu estava fazendo 50 mil coisas para pagar minhas contas. Não tinha a menor ideia do que ia acontecer, mas falei ‘imagina, viajar o mundo inteiro’. A única vez que eu tinha saído do país foi quando eu fui pra Londres”, conta. Os dois trabalharam juntos de 1990 até a morte do tricampeão, em maio de 1994.
O pioneirismo na assessoria de pilotos
Apesar da falta de experiência como assessora, Betise encarou o desafio e foi pioneira no cargo. Até aquele ponto, não existiam assessores de imprensa específicos para pilotos na F1, apenas para equipes e marcas, e sua chegada ao paddock não foi bem-vista logo de cara. “O Bernie [Ecclestone, ex-chefão da F1] não queria mais me dar credencial. Eu tinha pela Quatro Rodas, por causa das colunas que escrevia”, relembra. Existia um receio da categoria que, a partir daquele ponto, Senna conseguiria ‘controlar a narrativa’ em torno dele, o que, segundo a jornalista, não aconteceu.
“Eu não era amiguinha [do Ayrton], eu trabalhava para ele. Nunca fiz nada para enganá-lo e nem enganar a imprensa, então ficou fácil”, falou. Uma de suas primeiras medidas foi organizar as entrevistas do piloto por idiomas, começando pelos ingleses, italianos e então brasileiros, que poderiam esperar um pouco mais por causa do fuso horário. Além disso, preparou uma pasta com diversas informações importantes e assuntos variados sobre a vida e carreira de Senna, para que os repórteres pudessem se preparar para as entrevistas. Em exclusivas, nem mesmo ficava presente: “deixava meu gravador e ia embora”.
Com o tempo, a situação melhorou e não só Senna como também os repórteres compreenderam as decisões da assessora. “Eu não estava protegendo ele de nada que a imprensa falasse, nunca fiz isso. Eu explicava ‘você vai dar seu tempo, vai falar com sete pessoas e ganhar não sei quanto espaço. Vai sair só o que você falou, as pessoas que estão fazendo fui eu que escolhi’. Eu era jornalista, conhecia como as coisas funcionavam, então tratava os repórteres com respeito e, quando me desrespeitavam, eu respondia de volta. Esse balanço é uma coisa complicada, mas não dá para dizer que foi difícil porque, na minha opinião, fiz da maneira correta”, reconhece.
Questionada sobre qual momento mais lhe surpreendeu trabalhando com Senna, Betise conta sobre o dia em que o tricampeão a defendeu publicamente após ter sido alvo de alegações mentirosas por uma convidada do paddock. Assim que ficou sabendo, Ayrton acabou com todos os boatos:
“No meio de um jantar, ele disse ‘Betise é minha funcionária, isso aqui é nosso escritório. Vocês estão passeando, ela não. Ela é profissional e confiável. Você não pode fazer isso’. Em diversas outras situações, com mentira e histórias de bullying, meus grandes coleguinhas davam risada e achavam absolutamente normal. O Ayrton não achou normal nem a mulher vir falar besteira comigo. Ele não titubeou, me defendeu e não admitiu nada. Não me lembro disso nunca ter acontecido com nenhum outro homem”, compartilhou.
Outros trabalhos
Após a morte de Senna, no GP de San Marino de 1994, Betise veio para o Brasil por alguns meses, tendo inclusive reorganizado a ordem dos pilotos que carregaram o caixão do tricampeão no funeral. De volta à Europa, passou uma temporada em Paris e retornou a capital inglesa em 1995, onde mora até hoje. Dois anos depois, se casou com Patrick Head (engenheiro co-fundador da equipe Williams), com quem teve um casal de filhos. Voltou a produzir matérias como freelancer, inclusive fora da editoria de esportes, e, após o divórcio em 2008, deixou de frequentar o paddock da F1 – esporte do qual, mesmo tendo trabalhado com Ayrton Senna, nunca foi fã e, segundo ela, tem “a maior concentração de egotistas gananciosos com quem trabalhei”.
Junto com a colega Maria Luiza Abbott, fundou a AJA Media Solutions em 2007, agência de comunicação com clientes de áreas diversas, permanecendo até 2011. Em seguida, foi chamada para atuar como consultora de imprensa internacional da Rio 2016, um trabalho iniciado ainda em 2014 e classificado como o mais desafiador de toda a carreira.
“Foi super frustrante porque nada do que foi acertado como meu trabalho aconteceu e todos os maiores problemas poderiam ter sido evitados [em relação à imprensa]. A piscina que ficou verde, a bala perdida em Deodoro, a comida que acabou no Parque Olímpico… Era como gerenciar uma queda de avião por dia. Não controlamos a narrativa nenhuma vez”, revela.
Alguns anos depois, entre 2017 e 2020, foi conselheira da premiação “D&AD Impact” e, desde então, coloca suas energias em trabalhos pro bono e projetos sociais, sendo o mais recente deles a Associação da Mata, coletivo feminino que trabalha em prol da conservação da Mata Atlântica. A jornalista é sócia benemérita da entidade desde 2024, contribuindo também com a gerência de comunicação da instituição, trabalho que tem lhe deixado muito orgulhosa.
“É um assunto que realmente te dá propósito. Nessa emergência climática, poder trabalhar num negócio de mulheres, que a gente tá ‘vendo o bebê crescer’ e sempre tem coisa nova. Tem muito espaço para crescer e está na minha mão! Você tem controle e todo pouquinho que faz vai acrescentando com um propósito legal, então eu também gosto disso”, acrescenta.
Alegrias da profissão e conselhos para futuras jornalistas
Ao longo da carreira, Betise Assumpção construiu não apenas uma trajetória diversa, mas também abriu caminhos em um ambiente ainda dominado por homens. Ao fazer um balanço da carreira, afirma não ter nenhum arrependimento e destaca o maior ‘presente’ que lhe foi dado pelo jornalismo: “Conhecer tanta gente, culturas diferentes e tantos lugares. Te dá uma bela noção do que realmente é importante e abre a cabeça de uma maneira que nada mais abriria. Conheci gente de todo lugar do mundo. Gente que come diferente, que acredita em coisas diferentes, se veste diferente, com outra opinião, falando outra língua…”.
A fala se conecta ao conselho que ela deixa para as futuras jornalistas: “Leia muito, tudo e leia jornal. Informe-se de veículos de comunicação sérios. Não precisa concordar com nada, tem que ler, porque eles têm obrigação com a verdade. Na mídia social ninguém tem obrigação, mas nós jornalistas trabalhamos com a verdade. A gente trabalha com fato e, lendo outras coisas, isso te dá uma perspectiva e uma abertura que será o diferencial”.
“O que você faz é o que todo mundo faz. Qual vai ser o diferencial na sua cobertura? É você. É o jeito que você tá vendo e o jeito que você interpreta. Então, quanto mais aberta for a sua cabeça para tudo, melhor você vai fazer e melhor vai entender. Sendo jornalista, você tem que saber tudo. Então, quanto mais você se informar, mais você ler, melhor será o seu trabalho, porque o seu trabalho é saber ler o ambiente”, conclui.
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O artigo acima foi editado por Beatriz Martins.
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