Filmes como O Diabo Veste Prada, que retratam o envolvimento do mundo fashion com a área da comunicação, vêm aumentando o interesse de várias mulheres em trabalhar com jornalismo de moda há anos.
Mas será que todo o glamour representado nessas histórias é real ou apenas uma romantização da profissão?
Clarissa Palácio, repórter de lifestyle na revista Forbes, e Giulia Coronato, líder de mídias sociais no Steal The Look, explicam como é ser uma jornalista de moda fora das telas do cinema.
A IMPORTÂNCIA DO JORNALISMO DE MODA
Por vivermos em uma sociedade intrinsecamente machista e patriarcal, terminamos o dia com a impressão de que o jornalismo de moda talvez não seja tão necessário e essencial quanto as demais áreas da profissão. Muitas vezes, existe uma associação inadequada do mundo da moda com o que é considerado “fútil” pela maioria das pessoas, como roupas e o interesse pela beleza e bem-estar.
“Eu acho que essa questão de pensarmos que o jornalismo de moda é menos importante, pelo menos no meu círculo, veio muito mais de uma auto sabotagem minha”, diz Clarissa. “Existe muito a ideia de que tudo que é mais feminino é fútil, mas a gente nunca parou pra pensar se o jornalismo esportivo, por exemplo, é menos importante”, conclui.
O que talvez algumas pessoas não saibam, porém, é que o jornalismo de moda não explora apenas roupas e acessórios em si mesmos. Ele também pode estar ligado à política, cultura, entretenimento e até à economia.
“A moda é uma construção social. A gente vê a moda ditando tendências, costumes, refletindo a política da sociedade e as relações sociais”, ela comenta, citando como exemplo sua matéria sobre moda sustentável, publicada na Forbes em 2024. “Acho que as pessoas têm a impressão de que moda é só uma roupinha bonita, quando na verdade o jornalismo de moda fala sobre um ambiente muito extenso, que é a construção, a produção, o que vem por trás”, enfatiza Clarissa.
A ROMANTIZAÇÃO DA PROFISSÃO: FATO OU MITO?
Com a ascensão de produções audiovisuais como Sex and the City, o interesse de jovens e adultos sobre o mundo fashion tornou-se cada vez mais evidente, crescendo proporcionalmente ao consumo de vídeos em redes sociais como o TikTok sobre o mesmo assunto.
O trabalho perfeito, o consumo desenfreado por sapatos e roupas como visto no comportamento da personagem Carrie Bradshaw, a ida a Paris para a semana de moda como ocorrido com Andrea Sachs, entre outras narrativas contadas por filmes e séries, são incentivos à imaginação do público e podem ser prejudiciais e responsáveis pela glamourização exacerbada do jornalismo de moda.
Clarissa comenta que, devido a uma representação irreal da realidade, a percepção de que não existem dificuldades na profissão pode ser muito comum:
“[A dificuldade] Não era para estar acontecendo porque não acontece com a protagonista de O Diabo Veste Prada, sabe? Então sim, eu acho que romantiza um pouco.”
“Quando a gente vê no cinema e na televisão, nunca vai existir a parte chata e ruim. E é sempre uma ascensão completa. Você começa lá embaixo e vai subindo, subindo, até que a menina que ontem que era estagiária, hoje, é a ‘top um’ da empresa. E não é assim, a vida não é assim. Você vai crescendo, dá três passinhos para trás, ganha um projeto e, às vezes, ele é roubado de você.”
Por outro lado, a estudante também fala sobre a sua experiência com o jornalismo de moda ser leve e tranquila. “Eu fiz amizade com as meninas da Steal The Look, da Capricho, da Marie Claire, e estamos no mesmo espaço e fazendo um trabalho muito similar, mas sem guerra”, acrescenta Clarissa, problematizando ainda a rivalidade feminina popularizada em produções famosas do cinema.
Giulia atribui a democratização do acesso à moda às produções como as citadas anteriormente. “A gente vê muitas pessoas que começaram a trabalhar com moda por conta desses filmes e séries, eu sou uma delas. Então sim, romantiza, mas ao mesmo tempo, abriu e democratizou muito o mercado da moda para uma massa que não teria contato com ele”, finaliza.
PRÓS E CONTRAS DO JORNALISMO DE MODA
A frase “trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida” é um fato na rotina de Clarissa. Ela conta para a equipe da Her Campus que sua paixão pela moda a acompanha desde criança, quando sonhava em trabalhar na revista Capricho.
Para ela, a parte mais marcante de trabalhar com jornalismo de moda é a rede de contatos que a área proporciona. “Eu acho que é muito difícil não se apaixonar por esse mundo, porque, se você gosta e já entra nesse mercado gostando do que você faz, gostando de desfiles, moda, estilistas, você vai criar contatos, conhecer pessoas… Quando você percebe, está indo para o desfile de uma marca que você adora porque é seu trabalho”, diz.
“Às vezes, eu caio em mim mesma e falo ‘cara, eu estou assistindo a Ivete Sangalo desfilar pela Misci”.
O mesmo acontece com Giulia, que admite sua paixão por moda e afirma o prazer que é poder trabalhar com “pessoas extremamente criativas e marcas inspiradoras”, como ela observou.
Por outro lado, existem contras ao exercer qualquer ofício. De acordo com Clarissa, assistir ao seu trabalho sendo realizado por pessoas sem formação e conhecimento prévio tornou-se a preocupação mais recente dos jornalistas.
A estudante de jornalismo conta sobre uma situação vivida em 2024, em um desfile: “É um combinado velado de que os jornalistas estão lá para fazer uma cobertura do evento, então, você precisa ver o desfile direito. Às vezes, você precisa fazer fotos do desfile ao vivo, precisa entrevistar pessoas.
E essa marca em específico colocou todos os jornalistas na segunda fileira e deixou os influenciadores na primeira”, relatou. “É uma coisa que você vê em todo lugar, os ‘influencers’ virando o foco da marca e deixando os jornalistas em segundo plano”.
Ela descreve seu desespero no momento, por estar à mercê de pessoas sem uma orientação devida.
O mesmo exemplo pode ser percebido nas passarelas. Durante os dias seis a 11 de abril deste ano, a São Paulo Fashion Week comemorou o aniversário de 30 anos com a edição N59. Ao longo da semana de moda, polêmicas envolvendo a substituição de modelos profissionais por influenciadores invadiram as redes e geraram uma forte comoção nos espectadores.
Nomes conhecidos como Gkay, Juliano Floss e Luisa Perisse foram alvos de críticas por estarem ocupando espaços já desvalorizados pela indústria da moda.
COMO LIDAR COM AS PRESSÕES?
“Eu acho que estar sempre atualizada não é uma pressão para mim, e sim, muito mais um desafio de não poder parar de pesquisar, estudar, acompanhar. É claro que é desgastante, principalmente quando falamos de redes sociais”, comenta Giulia sobre o seu cargo como chefe de mídias sociais no STL.
“Aos finais de semana, por exemplo, eu abro o meu Instagram e vou salvar uma referência, então é cansativo não conseguir separar. Quando estou em uma rede social, estou trabalhando”.
Clarissa não segue uma linha de raciocínio muito diferente da abordada por Giulia: “Às vezes, dá um nervoso, sim. É muita coisa acontecendo, muitas ideias que surgem a partir de uma tendência. É um pouco desesperador”, expõe.
A moda é um campo social que está em constante transformação. Então, sempre surgem novas tendências, novos designers, coleções inovadoras, entre outros.
O jornalismo de moda se molda paralelamente à contemporaneidade. Para funcionar, ele depende do produto da análise de interações sociais.
Mas, não ser especialista em um determinado assunto pode ocasionar a descredibilização do seu trabalho? Sim, e Clarissa fala sobre: “É uma certa pressão você precisar saber de tudo e o tempo todo, até porque parece que as pessoas medem o seu valor de acordo com o volume de informações que você possui. Às vezes, eu não sei, mas tenho medo e vergonha de expor e ser considerada menos competente. É muito agoniante, precisar decorar todos os nomes, rostos e pessoas”, completa.
QUAIS HABILIDADES SÃO INDISPENSÁVEIS PARA A CARREIRA?
Giulia lista duas habilidades que ela considera mais do que necessárias para trabalhar na área: conhecer sobre a história da moda e “treinar o seu olho” em busca de detalhes. De acordo com ela, um dos maiores erros dos profissionais que estão começando na carreira é não estudar sobre a história de seu próprio trabalho.
“As pessoas acham que, para você trabalhar com moda, é só gostar de comprar roupas. E não é assim, sabe?”, observa. Ela ainda compartilha uma frase muito utilizada pela equipe da revista de moda digital Steal The Look, que é “o diabo mora nos detalhes”, empregada sempre para enfatizar a importância de estar atenta às especificidades da moda.
Clarissa também compartilha seu pensamento: “Eu acho que a habilidade indispensável é você ser curioso. É necessário ser muito curioso, querer saber o porquê de tudo. Às vezes, a boa matéria não está na coisa, e sim no porquê. Junto disso, você precisa ser muito observador”.
Em 2024, a jornalista em formação escreveu uma matéria para a revista Forbes sobre o “fashion hacking”, uma tendência que apareceu na SPFW do mesmo ano.
Curiosa com o que observou nas passarelas, Clarissa pesquisou sobre o significado do termo, sua origem e a intenção da grife de alta-costura ao apresentar peças consideradas “anormais”.
“É uma tendência. Ela pode até ter o mesmo nome, mas, ao mesmo tempo, ela vai se transformando. Até porque, a gente raramente vai usar na vida o que está na passarela. Como a tendência que estava na passarela chega nas pessoas, sabe?”
Além disso, também cita o famoso “jogo de cintura”: “Quando você está entrevistando uma pessoa, é muito importante que você já vá com tudo muito mastigado. Então, estudar bastante quem é aquela pessoa e o que ela faz”.
Ela recomenda não ter medo de perguntar sobre o que você ainda não sabe. Saber como fazer uma pergunta e como conversar com o entrevistado, a fim de chegar a resposta desejada.
“Eu acho que a grande questão do jornalismo de moda é você ser minucioso. É você enxergar pontos que ninguém viu ainda. Sair do raso, sabe? Ver o desfile e observar, ser observador, e pegar um ponto que talvez as pessoas não tenham percebido”, finaliza.
COMO TRABALHAR COM JORNALISMO DE MODA?
Para quem sonha em trabalhar com moda, mas não faz ideia de que maneira conquistar o seu próprio espaço e portfólio, as entrevistadas dão algumas dicas:
“Eu acho que a melhor coisa que você pode fazer é nunca ficar parada. Então, produza o seu conteúdo para um blog, para um Instagram, para a Her Campus, por que não?”, comenta Clarissa. “Você vai criar um TikTok para falar sobre. Nunca deixe de produzir, de se aprimorar, sempre fazendo isso com viés jornalístico. Se você for jornalista, principalmente, deixe muito claro que você faz suas pesquisas. Fazer todo o trabalho de apuração bem feito e ouvir fontes é muito importante. Crie contatos.”
Ela também caracteriza o jornalismo de moda como um jornalismo de QI. Reforça a importância da criação de uma forte rede de relacionamentos e de nunca deixar de sonhar, mesmo que pareça um cenário muito distante: “Parece um mundo intocável, mas é menos glamuroso do que a gente imagina e muito mais tranquilo de entrar do que se parece”.
“Não precisa ter vergonha de estar tentando. Todo mundo teve que tentar para conseguir. Quem conseguiu, tentou em algum momento. E ter confiança de não deixar o sonho morrer, sabe?
Porque, às vezes, você dá com a cara na porta três, quatro, cinco, seis vezes. Se você possui esses privilégios na sua mão, se dedique para correr atrás. Se você tem a chance, o tempo, a oportunidade e a capacidade de estar frequentando lugares, conhecendo pessoas e conversando, é meio caminho andado, sabe?”
Giulia também dá suas recomendações, com uma outra visão: “A primeira dica que eu daria é desapegar de todo o romantismo da indústria que você aprendeu com filmes e séries, porque é um trabalho muito difícil, demora para você chegar em uma posição legal e, às vezes, você não chega. Desapegue dos ideais que você traz na sua mochila, porque não é assim. Caso aconteça, talvez demore”.
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O texto acima foi editado por Anna Goudard
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