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Tempos líquidos, onde o casamento não é mais o objetivo final 

Mariane Ambrosio Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A cultura do casamento mudou, se adaptou e evolui, acompanhando as mudanças e evoluções da sociedade com o passar dos séculos. As adaptações se moldam fe formas diferentes dentro de cada religião, onde as mais convencionais como cristianismo e islamismo, ainda seguem com suas tradições. Apesar disso, a união entre duas pessoas se tornou uma escolha de ambos atualmente. 

Casamentos nem sempre foram o estágio final e a concretização de um grande amor, no passado até a forma de se declarar era diferente, como no Século XVIII, por exemplo, em que não havia foco no amor romântico, então as uniões aconteciam por interesses, fossem eles econômicos, familiares ou sociais, tudo isso enquanto os cortejos aconteciam formalmente e supervisionado pelos pais da moça. Isso se deu até o início do Século XIX.

A próxima fase, que se inicia no meio do Século XIX, foi chamada de Périplo Amoroso e acontecia paralelamente ao Trovadorismo na literatura. Essa época é marcada pelo início da busca pelo amor e a exploração da paixão, ainda seguindo de maneira formal, mas já sem a necessidade da supervisão dos pais. 

As mudanças passaram a ser significativas no Século XX com a Urbanização e a Revolução Industrial. Com a mudança do campo para a cidade, os jovens começam a criar mais independência e a se libertar do controle direto da família sobre com quem deveriam se casar. Junto a isso, as mulheres foram inseridas nos trabalhos industriais, ainda de forma precária, mas lhes oferecendo uma nova autonomia e dando início a independência financeira, impactando como se relacionavam. 

Ambas características deslocaram o casamento de um contrato de interesses convencionais para uma escolha baseada no afeto e afinidade. “Depois que as mulheres foram inseridas no mercado de trabalho passou a existir uma liberdade financeira, e até sexual. Elas não viam mais o homem como o dono da casa, detentor do poder e do dinheiro.” comenta Victoria Kimmelmann, psicóloga clínica. 


O termo “namoro” surgiu nessa época, em inglês a palavra “dating” expressava a ideia de sair de casa em busca de entretenimento. A partir desse momento o casório não precisava acontecer através de cortejos e encontros convencionais. Até os anos 1990, onde se popularizou a cultura do “ficar”, isso é: se relacionar sem compromisso, essa expressão vem da vontade dos jovens de se relacionar sem querer assumir um relacionamento.

Amor sem roteiro

O Censo de 2022, divulgado em 2025 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostra que o número de casais que vivem em “união consensual” e moram juntos superou, pela primeira vez, o número de casamentos civis e religiosos, chegando a 38.9% de todas as uniões conjugais do país. Dividir a casa já foi considerado um passo importante na vida de um casal que pensa em passar a vida junto, contudo, esses passos não têm recebido a mesma relevância nas gerações mais novas. 

É possível perceber que os Millennials e a Geração Z não se apressam e se pressionam para consolidar um casamento igual as gerações anteriores. Com a cultura de apenas “ficar” com pessoas, como algo passageiro e sem compromisso, percebesse um padrão onde os jovens estão mais preocupados em aproveitar a vida, se formar e estabelecer uma carreira, ao invés de perseguir uma grande história de amor. Mesmo que isso signifique aproveitar a vida solteiro, “ficando” ou namorando por tempo indeterminado. 

Aos olhos da psicóloga Victoria, é interessante ver o namoro para além de algo indeterminado, e sim como uma etapa, um trampolim para passar a vida juntos ou até casar efetivamente. “Acredito  que as gerações mais novas veem essa situação diferente, mas eu diria que é interessante enxergá-la dessa maneira”.   

“Eu tenho vontade de casar em algum momento da minha vida, mas não acho que o objetivo de começar a namorar com alguém deva necessariamente chegar no casamento. Para mim o objetivo de ter um relacionamento é evoluir juntos, então tudo o que aquela pessoa pode agregar na minha vida e o que eu posso agregar para aquela pessoa. Acredito que o casamento é o resultado de um relacionamento bem cultivado. Eventualmente, se o relacionamento não der certo, entendo que a pessoa cumpriu o seu papel na minha vida e eu cumpri o meu papel na dela.” explica Julia Abellan, estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, de 19 anos. 

Amor líquido 

No mundo Pós Moderno, isto é: após a Revolução Industrial e da comunicação, com a internet, o ritmo da vida se tornou frenético. Os meios de transporte se tornaram mais rápidos, o tempo de descanso se tornou mais curto e a informação pode chegar do outro lado do mundo em apenas um segundo. Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, nomeou essa fase de modernidade líquida, correlacionando a incapacidade das coisas e situações se solidificarem na velocidade em que se atualizam, fazendo com que não seja possível segurá-las, deixando as escorrer pelas mãos. 

Tudo acelerou, assim como a maneira que se consome produtos e conteúdos. Vídeos postados nas redes sociais não podem ter mais do que 15 segundos, ou então não prendem a sua atenção, um produto comprado online precisa chegar em no máximo 1 semana e suprir todas as expectativas do consumidor, senão será devolvido. Para Bauman os relacionamentos interpessoais também passaram a ser tratados dessa maneira, rápida, prática e descartável.  

“As coisas são muito mais descartáveis hoje em dia, e acho que as redes sociais nos deixou mais impulsivo. É muito fácil acabar relacionamentos, jogar coisas fora, comprar novas, isso vem de um sistema capitalista de consumo. Eu diria que os relacionamentos também se tornaram consumo”, concorda Victoria Kimmelmann. A rotina tem, cada vez mais exigido praticidade, logo o que não cabe nela pode ser facilmente descartado, mesmo que seja um relacionamento amoroso com alguém. 

O sujeito pós-moderno encara o compromisso como perda de oportunidades e portas se fechando ao seu redor, e não consegue lidar com essa situação. O sociólogo polonês diz que as pessoas podem se apaixonar e desapaixonar pelos mesmos processos com que compramos mercadorias. Isso causa uma sensação de que nenhuma relação tem a garantia de permanência, fazendo com que os jovens, ainda que queiram namorar, não levem a sério seus relacionamentos por não acreditar em sua durabilidade. 

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O artigo acima foi editado por Leticia Carmo.

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Mariane Ambrosio

Casper Libero '28

A journalism student who wants to change the world with words