Em 2016, o Brasil recebeu uma certificação da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e da OMS de eliminação do sarampo, após a interrupção da transmissão endêmica da doença no país. Contudo, o título foi perdido em 2019, com uma queda na cobertura vacinal e importação da doença.
O título foi novamente restabelecido em 2024, mas, em 2026, uma nova onda da doença registrou, até agora, 23 casos na cidade de São Paulo e região. Os primeiros casos do período foram importados de outro país, mas a transmissão local preocupa os habitantes.
O que explica a queda da cobertura vacinal no Brasil?
A principal explicação para o ressurgimento dessa doença vem do crescimento de discursos anti vacina e pela falta de senso de urgência propagados, principalmente, pelas redes sociais.
Grupos antivacina, ao contrário do que muitos acreditam, não são novidade. No Brasil, eles já se fazem presentes há mais de um século, na Revolta da Vacina, no Rio de Janeiro, em 1904. Na época, além da resistência à obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, circulavam boatos de que a aplicação da vacina poderia fazer com que as pessoas adquirissem feições bovinas.
A revolta, porém, não pode ser reduzida à rejeição à vacina: a população também reagia à forma autoritária como as medidas sanitárias eram implementadas pelo governo. No começo dos anos 2000, surgiu o famoso discurso de que vacinas tornavam os pacientes em jacarés, que tomou espaço, principalmente, na época da pandemia de Covid-19.
A circulação da desinformação ganha força a partir do momento em que esses grupos passam a representar a população em cargos políticos e a influenciar o algoritmo dos usuários de internet. Durante a pandemia, a OMS cunhou um termo chamado “infodemia”, que apontava a desinformação como um fenômeno quase tão perigoso quanto a própria doença.
A avalanche de informações falsas ou meia-verdadeiras vinha de toda parte: correntes de Whatsapp, vídeos no Tiktok de influenciadores relevantes, posts de pessoas queridas, políticos, formadores de opinião, familiares e amigos. Era difícil filtrar o que era comprovado do que era teoria, o que era opinião do que era fato, o que devíamos ou não acreditar e, por isso, a hesitação quanto às vacinas aumentou.
Outra razão para a queda da vacinação é a falta de percepção de risco em relação às doenças. Quando se tem uma doença tida como erradicada, ou que possui um pequeno número de casos registrados, a necessidade da vacina não se faz urgente. Um bom exemplo do aumento na vacinação foi a alta de casos de poliomielite no Brasil na década de 70.
Na mídia, a população via crianças com paralisia, em respiradores, e ficava clara a necessidade da vacinação em massa. Hoje em dia, a doença é tida como erradicada, e não alarma mais as pessoas como antigamente. Portanto, quem não viveu essa época tende a pensar que a poliomielite não é tão alarmante e não enxerga a importância da vacinação.
Essa perda da noção de perigo abre espaço para que os discursos antivacina tomem conta do coletivo, e isso acontecia mesmo antes da existência das redes sociais. Em 1998, o pesquisador britânico, Andrew Wakefield publicou um artigo intitulado “Ileal-lymphoid-nodular hyperplasia, non-specific colitis, and pervasive developmental disorder in children (Hiperplasia ileal-linfoide-nodular, colite inespecífica e transtorno generalizado do desenvolvimento em crianças)”, na revista The Lancet, no qual estabelecia uma suposta relação entre a vacina tríplice viral e o autismo.
O artigo foi alvo de investigações que, pouco tempo depois, o classificaram como fraudulento. Contudo, até hoje, grupos utilizam esse estudo como argumento para articular um movimento contra a vacinação e, consequentemente, contra a ciência.
O convencimento
Atualmente, as palavras negacionismo, fake news e desinformação são usualmente usadas e conhecidas pela maioria dos usuários de redes sociais, por estarem sempre em discussão. Tendo isso em vista, um questionamento a se fazer é: Por que informações falsas sobre vacinas conseguem ser tão convincentes para algumas pessoas, mesmo quando existem tantas evidências científicas disponíveis?
Alexandre Borin, biólogo pela Unicamp, mestre e doutorando em Genética e Biologia Molecular e pesquisador no CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), explicou, em entrevista para a Her Campus:
“Uma das coisas mais discutidas no meio científico é a ausência de financiamento. Grupos voltados para certos discursos políticos e anticiência possuem um financiamento muito maior do que pesquisadores, doutores e especialistas em ciência. […] Divulgadores científicos, principalmente no meio online, geralmente não trabalham apenas com isso. Muitos acadêmicos e pesquisadores usam do seu tempo livre para fazer divulgação científica. Esse trabalho requer muita apuração e tempo para ser feito cuidadosamente, para comunicar de forma precisa e simples o que está acontecendo para o público. […] Principalmente na pandemia, tinha o problema da falta de financiamento, falta de tempo, enquanto outros grupos antivacina disparavam informações a todo momento”.
Uma ferramenta muito utilizada por quem propaga esse tipo de discurso é a apelação para o lado emocional, ou seja, casos, verdadeiros ou não, de relações próximas. Amigos, avós, tias e vizinhos são frequentemente usados como exemplo de efeitos colaterais da vacina, o que aproxima o espectador de uma narrativa, muitas vezes, deturpada e enganosa.
O viés religioso e político também foi usado como embasamento para esses relatos, aumentando o alcance desses conteúdos. Enquanto isso, pesquisas teóricas desenvolvidas em laboratórios por cientistas não são igualmente acessíveis e compreendidas pela massa da população.
Como comunicar
Para divulgadores científicos e profissionais de saúde que defendem as vacinas, o apelo emocional não é uma opção. Sendo assim, como aumentar o alcance da campanha de vacinação sem abandonar a carga teórica e se fazendo compreensível ao público? Alexandre traz, como ferramenta essencial para a campanha, o uso do rádio, que é acessível para todos na maioria dos cantos do país, no caminho para o trabalho, na estrada, para pessoas que não assinam streamings ou navegam em plataformas de notícias de saúde.
“Divulgar ciência é entender as diferentes relações que as pessoas têm com a informação. Não adianta alguém como eu, que trabalha em um laboratório super tecnológico, tentar explicar apenas pelo meu ponto de vista, precisamos aproximar isso das pessoas. […] É importante resgatar a memória coletiva sobre as doenças, falar sobre como era e como está sendo agora. Por exemplo: a epidemia de HIV e Aids que ocorreu nos anos 80, 90, hoje em dia, é distante das gerações mais novas. Como resgatamos essa memória de forma assertiva? Criando essa relação, explicando nosso dia a dia, nossas relações, tirar o cientista desse posto de pessoas ultra inteligentes trancadas em um laboratório, sabe?”.
“Por que eu deveria me vacinar?”
A tríplice viral, vacina contra o sarampo, é estabelecida e utilizada há anos na população brasileira. Além da eliminação do sarampo, ela contribuiu para a diminuição de casos de rubéola e caxumba. É um tratamento acessível, está sendo distribuída não apenas em AMAs e UBSs, mas também em Guarulhos, São Bernardo do Campo e São Paulo, em metrôs, igrejas, mercados e escolas.
Mesmo não estando no grupo de risco, é essencial que haja uma imunidade em rebanho que atinja, no mínimo, 95% da população vacinada, o que garante uma cobertura vacinal eficiente e uma proteção daqueles que não se vacinaram.
O paradoxo é que o sucesso da vacinação pode tornar a própria doença invisível: quanto menos casos existem, menor parece ser o risco. É justamente nesse espaço que a desinformação encontra terreno para crescer. Em um cenário de retorno do sarampo no país, manter a memória sobre os riscos da doença e garantir o acesso à informação científica se torna tão importante quanto garantir o acesso à própria vacina.
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O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann.
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