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Resenha: Saiba tudo o que pensamos sobre a adaptação de “A Hipótese do Amor”

Isabela Degaspare Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A história que nasceu como uma fanfic dos personagens da franquia de Star Warse, Rey (Daisy Ridley) e Kylo Ren (Adam Driver), se transformou no romance mais amado de Ali Hazelwood. Recém estreada nesta quarta-feira (23), a adaptação de “A Hipótese do Amor” acompanha a protagonista Olive Smith (Lili Reinhart), doutoranda de Biologia em Stanford. Para convencer a sua amiga de que seguiu em frente após uma paixonite por um colega, ela inventa um namoro falso com o temido Adam Carlsen (Tom Bateman), professor de Biologia em Stanford.

trama

A história gira em torno de Olive Smith, uma estudante focada em achar financiamento para seu projeto de diagnóstico precoce do câncer de pâncreas, acaba decidindo fingir estar em encontros para convencer sua melhor amiga Anh Pham (Rachel Marsh) que superou uma paixonite por seu amigo Jeremy Langley (Nicholas Duvernay), e deixá-la livre para sair com ele. 

Em um momento de puro pânico nos corredores escuros do departamento, ela decide beijar o primeiro homem que cruza seu caminho. ​O problema é que o estranho é ninguém menos que o Dr. Adam Carlsen: um jovem professor brilhante, conhecido e temido por todo o campus por sua postura rígida, sarcástica e implacável com os orientandos.

​Para a surpresa de Olive, em vez de denunciá-la por conduta inadequada, Carlsen concorda em manter a farsa e assinar um pacto de namoro de mentira. Ele tem seus próprios interesses: a diretoria da universidade congelou suas verbas de pesquisa por suspeitar que ele deixará a instituição rumo a Boston, e por isso, utilizar do namoro como prova que ele tem vínculos pessoais no campus ajudará a desbloquear seus fundos.

​O plano inclui aparições públicas regulares, encontros semanais em cafeterias e regras bem definidas para que ninguém descubra a fraude. Contudo, entre reuniões acadêmicas tensas, olhares compenetrados e os desafios reais da pesquisa de Olive, a fronteira entre a encenação e a atração mútua começa a ruir, transformando uma hipótese controlada em um experimento imprevisível.

o trio de stanford: a cumplicidade que sobrevive ao caos acadêmico

Longe de cair no clichê da rivalidade feminina, a amizade de Olive e Anh é o verdadeiro motor afetivo que coloca o enredo em movimento. O filme começa mostrando ao público como Anh se tornou a pessoa favorita de Olive,. e aA dinâmica do fake dating ocorre justamente pelo excesso de zelo que Olive tem pela melhor amiga.

​O brilho dessa dinâmica reside no contraste evidente entre as duas: enquanto Anh é expansiva, combativa e politicamente ativa na luta por mulheres na ciência, Olive é retraída, avessa ao centro das atenções e sempre sabotada pela sensação de não ser boa o suficiente para o meio acadêmico. Anh acredita piamente no romance e incentiva a amiga a se impor diante dos figurões do departamento; Olive trata o amor como uma anomalia estatística e prefere o silêncio seguro das bancadas de ensaio.

 Em vez de criar atrito, essa diferença transforma Anh na âncora de segurança de Olive: a voz assertiva que a protagonista precisa ouvir quando o medo de falhar ameaça paralisá-la.

​Para completar o ecossistema afetivo da protagonista, entra em cena Malcolm Browne (Jaboukie Young-White), seu melhor amigo e colega de apartamento. Se Anh é o motor ativista e a defensora feroz, Malcolm funciona como um refúgio leve e sem julgamentos nos momentos de crise. É no espaço seguro do apartamento que dividem que Olive encontra acolhimento para o cansaço da rotina.

No meio do caos da faculdade, Olive Anh e Malcom encontram um no outro uma cumplicidade — que divide angústias de bancada com a mesma naturalidade com que troca fofocas de corredor. 

para além do jaleco: os desafios reais das mulheres na ciência

​Um dos maiores méritos de “A hipótese do amor” é não tratar a universidade apenas como um cenário estético e deslumbrante. O filme faz questão de retratar as dores e os dilemas cotidianos vividos por mulheres nas áreas STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), um espaço historicamente dominado por figuras masculinas e marcado por relações de poder assimétricas.

​O projeto de Olive, centrado na detecção precoce do câncer de pâncreas, não é mero pretexto narrativo: ele carrega uma motivação pessoal profunda e sintetiza a árdua corrida por financiamento, espaço físico e reagentes básicos enfrentada por pesquisadoras em início de carreira. A protagonista lida com a constante necessidade de provar sua competência e legitimidade acadêmica  — reflexo de um ambiente que frequentemente descredencia vozes femininas ou minimiza sua autonomia intelectual.

​Ao equilibrar a leveza do romance com as tensões da bancada, o longa evidencia que os obstáculos de Olive vão muito além das indecisões do coração. Fazer ciência de ponta sendo uma jovem pesquisadora exige negociar autoridade, enfrentar desconfianças veladas e resistir ao esgotamento mental. Esse recorte adiciona densidade dramática à trama, transformando a vitória de Olive no laboratório em um dos pontos mais recompensadores da história.

a química dos personagens

​Se o enredo de fake dating fornece o pretexto, é a fagulha entre Lili Reinhart e Tom Bateman que dita o pulso emocional do filme. Traduzir para a tela a dinâmica literária clássica de “grumpy x sunshine” — o homem mal humorado e fechado contraposto à mulher espontânea e solar — exigia uma sintonia fina entre os atores para que a diferença de posturas não soasse artificial ou forçada.

​Lili Reinhart empresta a Olive um misto muito preciso de vulnerabilidade, inteligência afiada e charme desajeitado, fugindo da armadilha de torná-la puramente ingênua. Por sua vez, Tom Bateman constrói um Adam que equilibra a arrogância temida pelo campus com sutilezas corporais: o olhar que suaviza nos detalhes, a hesitação antes de quebrar o protocolo e a seriedade com que leva a encenação a sério.

​A química se constrói no ritmo do slow burn: nos toques acidentais durante encontros calculados em cafeterias, nos silêncios compartilhados e nas quebras graduais de espaço pessoal. Quando a encenação pública começa a se misturar com o interesse genuíno, a tela ganha uma tensão magnética palpável, entregando aos fãs exatamente o magnetismo contido que transformou os personagens em fenômeno literário.

o que mudou do livro?

Toda adaptação exige escolhas de montagem, e condensar um livro de mais de 350 páginas em cerca de duas horas de projeção inevitavelmente deixa algumas arestas de fora. A primeira mudança sensível está no ritmo: o slow burn meticuloso e quase torturante de Ali Hazelwood, onde semanas de cafés açucarados e silêncios constrangedores construíam a intimidade do casal milímetro a milímetro, precisou dar lugar à agilidade do cinema comercial. Algumas passagens temporais viram montagens dinâmicas ao som de trilha pop, acelerando a queda das defesas emocionais de Adam.

​Outra alteração marcante está nos círculos de cumplicidade. Ao optar por não incluir Malcolm no segredo do namoro falso desde o início, o roteiro sacrifica parte daquele alívio cômico sarcástico dos bastidores domésticos, para ganhar reações de surpresa e preocupação genuína por parte dos amigos.

​Por fim, a densidade dos debates científicos sofreu uma simplificação compreensível: minúcias de protocolos de bancada, detalhes de biologia celular e longas conversas de comitê deram espaço a um foco mais direto nas reviravoltas emocionais. O clímax na conferência em Boston — que no livro, funciona como uma panela de pressão de disputas acadêmicas e machismo velado — chega de forma mais enxuta e cinematográfica, concentrando-se no conflito ético central e na coragem de Olive em denunciar o assédio moral e institucional que quase enterrou sua carreira.

​No balanço entre as expectativas da comunidade do BookTok e as exigências de uma comédia romântica moderna, a adaptação de “A Hipótese do Amor” atinge um equilíbrio louvável. O filme não apenas entrega o fan service essencial com fidelidade e charme, como acerta em cheio ao preservar a essência que tornou a história tão marcante: a celebração da amizade leal, a química magnética de um casal improvável e o retrato honesto das dores invisíveis de ser mulher nos corredores da ciência.

​Se algumas simplificações de roteiro deixam os leitores com saudades de detalhes da rotina de laboratório, a atuação carismática de Lili Reinhart e a intensidade contida de Tom Bateman compensam qualquer concessão rítmica. A produção prova que comédias românticas contemporâneas ainda têm muito fôlego quando tratam o intelecto de suas protagonistas com o mesmo respeito que dedicam ao romance. 

Para quem devorou as páginas ou só quer se apaixonar por uma boa história de amor acadêmico, o experimento foi um sucesso — com hipótese comprovada e nota máxima na bancada.

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O artigo acima foi editado por Mariana Camargo Aguiar.

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Isabela Degaspare

Casper Libero '29

Estudante da Cásper Líbero, escreve sobre política, entretenimento e temas atuais, acredita no jornalismo como ferramenta de reflexão, informação e dialógo.