Um bom musical é aquele que, ao sair da plateia, o público não consegue parar de pensar sobre o que acabou de assistir. É aquele que faz esquecer que os atores são intérpretes, que o cenário é fictício e que as luzes são artificiais, mas, principalmente: um bom musical é capaz de fazer qualquer pessoa sair de lá diferente de quem era quando entrou.
“Meu Filho é Um Musical” cumpre todos esses requisitos. O espetáculo, com sessões de quinta-feira à domingo no Teatro Renault, conta a trajetória artística de Paulo Gustavo, que se tornou um dos principais nomes da comédia brasileira.
PIERRE BAITELLI E JOÃO PEDRO CHASELIOV INTERPRETAM PAULO GUSTAVO
Após seis meses de audições, os atores Pierre Baitelli e João Pedro Chaseliov foram os escolhidos para o papel de protagonista. Alternando entre sessões, eles representam a juventude e a fase adulta do humorista, enquanto Miguel Venerabile, Gabriel Gentil e Guilherme Baleixo o interpretam durante a infância.
O musical, produzido pela Touché Entretenimento, é dirigido por Ju Amaral e João Fonseca, mesmos diretores da trilogia “Minha Mãe é Uma Peça” e “Vai Que Cola”. O elenco ainda conta com Stella Maria Rodrigues sendo Déa Lúcia — mãe de Paulo Gustavo e inspiração da famosa personagem Dona Hermínia —, Castorine como sua irmã Juju, Marcelo Várzea como seu pai Júlio, Talita Castro como sua madrasta Penha, Josie Antello como sua tia Lesa, além de muitos outros nomes.
Os atores contam a história com tanta fluidez e naturalidade que causa a sensação de estar assistindo registros reais da vida do comediante. No desenrolar da peça, torna-se impossível achar Pierre ou João Pedro no palco. Encontra-se, apenas, Paulo Gustavo. O efeito não se limita ao protagonista, acontece em todos os papéis apresentados, o que evidencia a qualidade da seleção de elenco e do resultado do processo de produção.
DE NITERÓI ÀS TELAS DO CINEMA: O ATOR QUE REVOLUCIONOU A COMÉDIA BRASILEIRA
O sucesso de Paulo Gustavo teve início com na ideia do comediante de criar uma peça que espelhasse o dia a dia de sua família em Niterói. Mantendo a personalidade de todos os familiares, ele mudou os nomes e decidiu que representaria o papel da mãe num monólogo que nomeou como “Minha Mãe é Uma Peça”.
Estreado em 2006, no Teatro Cândido Mendes — uma pequena sala em Ipanema —, a personagem criada pelo humorista obteve tanta audiência que, com o tempo, passou por diversos palcos do Brasil, antes de virar sucesso de bilheteria nos cinemas. O plano surgiu quando ainda cursava teatro na CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), mesmo lugar que conheceu os amigos Fábio Porchat e Marcus Majella, interpretados fielmente no musical pelos atores Thiago Voltolini e Gaspar, respectivamente.
“Meu Filho é Um Musical” conta essa história com muito humor e leveza, do mesmo jeito que o comediante levava a vida. A ideia de colocar sua trajetória nos palcos veio da mãe e da irmã, como forma de homenageá-lo. É impossível assistir ao musical sem dar uma boa risada ou derramar ao menos uma lágrima, além de sair inspirado pelo bom humor e esperança que Paulo Gustavo disseminava por onde ia.
“AFEMINADO DEMAIS PARA SER ATOR”
A luta contra a homofobia é um dos temas principais da obra. “Afeminado demais para ser ator” saiu da boca de um de seus professores de teatro, logo no início de sua carreira. Mas, antes disso, o musical retrata diversas cenas onde o humorista tem que lidar com desafios associados à sua sexualidade. A tensão aumenta quando dá início ao seu primeiro relacionamento homoafetivo, decide assumir para o pai e, logo em seguida, buscar apoio da mãe.
A narrativa de sua vida deixa explícito o quanto o apoio familiar é importante, não só para autoaceitação, mas também para manter-se de pé diante dos comentários ofensivos. A frase citada anteriormente, que tinha o intuito de fazê-lo desistir do sonho de ator, tornou-se, na verdade, um impulso: ele quis mostrar para o Brasil inteiro que ser afeminado não era uma desvantagem, era um talento.
Ao final do espetáculo, a entrada emocionante de Déa Lúcia vem acompanhada da seguinte afirmação: “Amem seus filhos, sejam eles do jeito que for, porque nada é pior na vida do que a perda de um filho”.
O FIM QUE PODERIA TER SIDO DIFERENTE
O espetáculo termina com uma crítica ao atraso do governo para autorizar as vacinas da COVID-19 no Brasil. Paulo Gustavo, que foi vítima fatal da doença no dia 4 de maio de 2021, era saudável e tinha apenas 41 anos. Era esperançoso em relação à vacinação e tomava todas as medidas protetivas para garantir que não fosse contaminado pelo coronavírus.
O tão adorado ator foi apenas uma das mais de 716 mil mortes pelo vírus no Brasil. Além dele, 716 mil histórias também poderiam ter sido salvas pela vacina. O período da pandemia não deve ser esquecido e volta aos holofotes durante este ano eleitoral.
A VIDA É EXTRAORDINÁRIA
A plateia inteira aplaude de pé com lágrimas nos olhos durante os agradecimentos. “Meu Filho é Um Musical” não só homenageia a trajetória do humorista, mas nos inspira a mudar o olhar sobre a realidade e dar valor às pessoas que estão sempre do nosso lado, assim como ele fazia.
A cortina fecha ao som da música “A Vida é Extraordinária”, uma das canções originais da peça, escrita por Daniel Salve, que ressalta a importância de ser quem você realmente é, independente das opiniões dos outros. Afinal, essa é a principal lição deixada por Paulo Gustavo.
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O artigo acima foi editado por Beatriz Tomagnini.
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