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Crises humanitárias esquecidas: o que a mídia não te conta sobre o Sudão

Júlia Festagallo Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Desde o início da Guerra Civil, em abril de 2023, mais de 4 milhões de sudaneses fugiram do Sudão para países vizinhos em busca de uma vida digna, com comida, abrigo e segurança garantidos. Você provavelmente não ouviu falar disso. Por que algumas crises mobilizam o mundo e a mídia fecha os olhos para outras?

O que está acontecendo no Sudão?

Para compreendermos o desenrolar deste conflito, voltamos 30 anos na história, na ascensão de Omar al-Bashir ao poder, através de um golpe de estado.  Autoritariamente, ele governou até 2019, quando uma onda de protestos da população sudanesa culminou na sua deposição.

Foi em abril de 2023 que, em meio a instabilidades, as Forças Armadas Sudanesas, lideradas por Abdel Fattah al-Burhan e o grupo paramilitar das Forças de Apoio Rápido (RSF), comandadas por Mohamed Hamdan Dagalo entraram em um embate pelo controle do país.

Cartum, a capital do Sudão, se tornou o centro do conflito, um verdadeiro campo de batalha, mas isso não poupou o resto do país da destruição e das mortes. Majoritariamente os conflitos ocorrem em áreas urbanas de forma violenta com ataques aéreos e tiroteios nas ruas e avenidas das principais cidades. Em Darfur, região oeste do país, a guerra se adapta para uma versão ainda mais agressiva, na qual os ataques das RSF e de milícias árabes são um adicional à condição de vida precária.

Além disso, há envolvimento internacional de diversos países e até embate entre nações. A atenção se volta ao conflito entre a Arábia Saudita, que fornece apoio às Forças Armadas Sudanesas, e os Emirados Árabes Unidos que suporta o grupo paramilitar RSF. “A gente vê esse papel das potências médias, até mesmo do Oriente Médio, buscando se posicionar na questão do Sudão, muito relacionado aos interesses de alguns países na Rota da Seda, quanto aos recursos minerais do país.” Afirma Natália Fingermann, professora de relações internacionais na ESPM e coordenadora do Núcleo de Estudos e Negócios Africanos. Ela ainda explica que o Sudão é um grande fornecedor de petróleo, além de ser um território rico em ouro. “É uma guerra que está sendo liderada por dois grupos com objetivos de saber quem vai ter controle sobre esses recursos e por isso tem tanto apoio das entidades internacionais para dar continuidade neste conflito, que é um dos conflitos que tem gerado maior número de mortos na África pelo menos de crianças e civis.”

Devido ao colapso no sistema de saúde não é possível concluir ao certo o número de mortes, mas estima-se um número próximo à 150.000 vidas perdidas. A Unifec, Fundo das Nações Unidas para a Infância, contabiliza mais de 2.500 crianças mortas ou mutiladas entre 2023 e 2024, cerca de 16 vezes mais do que no ano que antecedeu os combates. 

A saúde dos civis além dos perigos da guerra

Neste cenário a vida passou a ser uma sobrevivência. Uma crise humanitária se alastra no país, uma vez que a guerra compromete por completo a infraestrutura local. Além das mais de 4 milhões de pessoas que se deslocaram para países vizinhos, sendo a maioria mulheres e crianças, outras 13 milhões se deslocaram dentro do território.

Em adição, uma intensa onda de chuvas em 2024 colaborou para um novo surto de cólera. A situação se agrava ao ver que o sistema de saúde não chega perto de comportar sua demanda. O Sudão carece de profissionais da área da saúde, suprimentos médicos e financiamento, além dos constantes ataques e ocupações de instalações médicas que comprometem tratamentos. O que antes era visto como uma condição tratável, hoje se instaura uma doença mortal e, assim, a taxa de mortalidade por cólera no país passa a ser o triplo do que era antes.

A fome e a dependência da ajuda humanitária

Além de seus próprios conflitos internos, o Sudão é um dos principais destinos para refugiados na África, mas isso não indica capacidade de proporcionar uma vida digna a todos aqueles que abriga. Com um amplo cenário de conflitos e instabilidade, o país que já era carente de ajuda humanitária antes da guerra, soma hoje cerca de 30,4 milhões de pessoas dependentes deste auxílio. São pessoas que precisam de abrigos, suprimentos básicos como medicamentos e principalmente alimentos.

“Os campos de refugiados do Sudão, que eram aqueles que recebiam ajuda e os campos de refugiados próximos ao Sudão, têm carecido do abastecimento de alimentos e recursos básicos, devido ao próprio enfraquecimento da ONU e o corte feito na assistência norte-americana, que em certa medida auxiliava esses campos.” explica Natália. Ao completar dois anos do início do conflito, metade da população, cerca de 25 milhões de civis, enfrenta uma situação de insegurança alimentar aguda  e cerca de oito milhões enfrentam a fome diariamente. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a questão humanitária do Sudão se tornou a mais grave do mundo e carece de atenção. 

por que ninguém está falando disso?

Ao mesmo tempo que vemos a mídia reportar diariamente atualizações sobre conflitos, como a Guerra na Ucrânia e o conflito Israelo-palestino, a Guerra Civil do Sudão permanece oculta das notícias, se perpetuando dois anos de silêncio total. 

Ao compartilhar desta indignação, Melissa Fleming, subsecretária-geral para comunicações globais da ONU, discorreu em um artigo as possíveis explicações para este cenário.

O termo “amortecimento psíquico” é um dos primeiros que surge dentre as possibilidades.  “O termo se refere ao triste fato de que as pessoas se sentem mais apáticas em relação à tragédia, enquanto aumenta o número de vítimas”, diz Melissa. Em adição, ao analisar padrões anteriores, há menor atenção dada a guerras civis se comparadas a conflitos no qual uma nação ataca outra. Isso ocorreria devido a complexidade da situação, não sendo possível situar o lado “bom” e o lado “mal” da guerra.

Outro fator significativo é o racismo ou a visão eurocentrista enraizada no mundo. Para quem é de fora, conflitos no continente africano são potencialmente vistos como problemas de atraso, algo “não civilizado”, ignorando questões políticas, históricas e econômicas. 

Por que isso importa (ou ao menos deveria importar) para você?

Mesmo longe, somos parte do mundo e é nosso dever questionar o que consumimos de informação. O esquecimento de crises humanitárias fala sobre privilégio, desigualdade e o tipo de mundo que queremos construir. Se você estuda, consome conteúdo ou se importa com direitos humanos, é necessário olhar além daquilo que lhe é reportado. 

“Não é um conflito que aparece na mídia internacional, no mainstream, no Brasil muito menos…a gente acaba não tendo relatos sobre isso, o que é um problema, porque enfraquece esse tema no cenário internacional e enfraquece a capacidade da comunidade internacional de fazer algo, exercer pressão para a paz no Sudão.” Explica Natália, enfatizando a influência que a mídia tem e o papel que deixa de cumprir ao anular o conflito sudanês.

Se informar, apoiar ONGs, cobrar dos veículos de comunicação e falar sobre esses temas são atitudes que podem ajudar a romper o ciclo de invisibilidade. Assim, entidades humanitárias que atuam em conflitos brutais como o do Sudão, podem encontrar apoio para continuar seus trabalhos. Assim, organizações internacionais serão forçadas a tomar medidas imediatas para conter crises. Assim, o silêncio que permite que o desastre continue será quebrado: a informação é o primeiro passo para contê-lo. 

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O artigo acima foi editado por Beatriz Tomagnini.

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Júlia Festagallo

Casper Libero '29

I'm a journalism student at Cásper Líbero university that believes in power of communication to connect and inspire. Passionate about culture, travel and lifestyle, I'm always eager for a challenge.