Natural de São Paulo, O Grilo estreou no mundo musical em 2017 com o lançamento do EP Herói do Futuro. O grupo marcava presença em muitos shows e ainda era como um sonho quase remoto de mentes universitárias – até que em 2019, um tempo após a primeira gravação, a banda sofreu algumas reestruturações internas que alteraram a formação do grupo, seguindo com os integrantes que permanecem até hoje: Felipe Martins (guitarra), Gabriel Cavallari (baixo), Lucas Teixeira (bateria) e Pedro Martins (vocal). Tudo parecia mais do que certo para o início de uma nova era d’O Grilo – isso se o mundo não fosse acometido pela pandemia do COVID-19.
Durante o período de quarentena que ficaram isolados em suas casas, os integrantes da banda decidiram escrever algumas músicas de forma quase terapêutica e sem muitas pretensões comerciais. E assim surge a ideia – por que não abandonar suas introspecções e começar a trabalhar em um projeto mais extenso? Essa foi a abertura para dar seu primeiro grande passo: a produção e o lançamento do álbum de estúdio Você Não Sabe de Nada, consolidando a carreira do que se tornaria um dos maiores nomes da cena alternativa no Brasil.
O Despertar da Banda
A banda lançou três singles em 2020 para promover a produção: Trela, Meu Amore Contramão– três músicas completamente diferentes uma da outra, representando muito bem o futuro d’O Grilo. Alguns videoclipes também foram lançados, tão autênticos quanto as canções que os inspiraram: o de Guitarradafoi o único oficial, feito com uma produção profissional e lançado em agosto de 2021; e daí, eu sei lá ¯\_(ツ)/¯ teve um vídeo feito “caseiramente”, com cenas gravadas pelo fundador da gravadora Selo Rockambole e editadas pelo Teixeira. Malabarista de Granadas ganhou uma versão acústica em vídeo feita logo após a gravação do álbum, e Onde Flor teve um clipe animado na comemoração de um ano de Você Não Sabe de Nada.
Idealizado como uma viagem musical, o álbum é uma verdadeira mistura de culturas, indo do rock ao samba, passando pela MPB e com influências do axé e do forró. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Teixeira definiu esse projeto como “um momento da adolescência; existe a fase em que achamos saber de tudo –tudo o que ouvimos é novidade, a gente não sabia de nada daquilo até então. Então, pensamos como isso pode ser a chave de tudo, e temos o segredo”. O projeto é uma representação leve –mas cheia de personalidade –do que é ser jovem e transbordar de emoções.
Para anunciar esse momento completamente novo, criou-se um eu-lírico que serviu de arquétipo visual e narrativo para todas as faixas do álbum. Lauro, como foi chamado, é um personagem idealizado pelo cartunista Pietro Soldi como uma mistura da personalidade e da aparência de todos os membros da banda. Ele é o típico cara comum, que passa pela eterna jornada do autoconhecimento e busca pela leveza sentimental, assim como todos que ouviram e ainda ouvem o Você Não Sabe de Nada. Antes de ser uma combinação unicamente dos integrantes d’O Grilo, Lauro é uma junção de todos que já pensaram que sabiam de tudo – e que logo perceberam que, na verdade, não sabiam de nada.
um mergulho nos últimos cinco anos
Para comemorar o aniversário do álbum, O Grilo anunciou em fevereiro uma turnê pelo país – denominada Você (Ainda) Não Sabe de Nada – que celebra não só os cinco anos do lançamento, mas também a trajetória do grupo. Com direito a prensagem inédita em CD e shows de maio a agosto de 2026, a celebração tem tudo para honrar um dos trabalhos mais memoráveis da banda.
Em entrevista à Her Campus Cásper Líbero, o grupo refletiu sobre a sensação de reviver, anos depois, o primeiro álbum profissional que produziram. Segundo o baterista, Teixeira, além de revisitar momentos que os próprios integrantes vivenciaram enquanto faziam e pensavam nas letras desse projeto, “tem um outro lado bem legal, em que a gente vê o carinho que os fãs têm por esse álbum, e isso é algo que surpreende a gente sempre”. Ingressos para a turnê de aniversário voando, CDs de comemoração esgotando e mensagens de fãs, novos e antigos, mostram que o Você Não Sabe de Nada ainda é muito presente na vida de tantas pessoas.
Ao relembrar a produção, os integrantes também comentam sobre o processo de trabalhar na pandemia: “era um cenário em que não tinha um plano B; o plano B em questão seria não fazer o álbum. Mas a gente queria fazer, a gente tinha feito o crowdfunding da banda então não tinha muito porque não fazer”, diz Fepa, o guitarrista. Com um individualismo maior na elaboração de cada música, aparece o aspecto camaleônico que marcou o álbum – a identidade de cada um constrói a narrativa como uma colcha de retalhos, dando mais personalidade e presença para o projeto. Cavallari, o baixista, comenta sobre a experiência de trabalhar em cima dessa mistura e singularidade que cada membro trazia: “acho que até o nome do álbum, Você Não Sabe de Nada, foi justamente o que aconteceu, o não saber e o deixar explorar”.
A mistura de gêneros que influenciam cada um dos integrantes também é uma característica que persegue O Grilo em todos os seus projetos desde então. Ao falar sobre as referências musicais que ajudaram na realização do Você Não Sabe de Nada, Pedro, o vocalista, diz que “O Grilo nunca se colocou como uma banda que toca esses gêneros realmente, a gente flerta com eles e toca da maneira O Grilo de fazer”.
Essa identidade única também é representada pelo eu-lírico, Lauro, que por si só já é uma mistura de todos os membros do grupo. Personagem do cotidiano, ele é a personificação do álbum: nas palavras de Fepa, “ao mesmo tempo que ele é cabeçudo, como Meu Pior Amigo e Infinito (-1), ele também é desleixado e mais energético, como Trela, Contramão e Guitarrada”.
Olhando para o presente, a temporalidade do Você Não Sabe de Nada também é um dos aspectos mais importantes para a banda. Em 2021, o contexto d’O Grilo era de juventude, vida de adolescente. Cavallari diz que “esses últimos cinco anos foram anos de muito crescimento profissional, de maturidade, tudo acompanhado pelo Você Não Sabe de Nada”, demonstrando que, mesmo depois de tantas mudanças, o primeiro álbum foi essencial para a consolidação da carreira e da vida de artista que o grupo enfrentaria.
Como uma foto eternizada, todos mostraram olhar com muito carinho para o passado, principalmente ao falar sobre o crescimento não só profissional mas também na quantidade de gente que os acompanha. Teixeira relata que a banda está “vivendo algo que é muito especial, e muita gente nova tá chegando” – além dos antigos amantes do Você Não Sabe de Nada, muitos recém-chegados aproveitam para viver as músicas do álbum no ao vivo. Para Pedro, a aceitação da passagem de tempo é fundamental quando se pensa na celebração de um álbum antigo: “a gente vai cantar aquelas músicas, mas somos pessoas diferentes; a gente mudou, vocês (fãs) mudaram, e a gente vai revisitar uma coisa que é preciosa pra ambas as partes”.
Afinal, admitir que na verdade não sabemos de nada é uma das maiores intenções desse projeto. Não só em um contexto de juventude, já que a passagem de tempo nem sempre é sinônimo de aprendizado, e a maturidade não dá todas as respostas. Ser faixa branca no mundo pode ser uma das experiências mais prazerosas na vida: “tem sempre algo novo pra aprender, pra estudar, pra viver, algum erro pra admitir. Eu acho que é isso que dá graça pra vida”, diz Cavallari.
Nós (ainda) não sabemos de nada
Durante esses cinco anos, muita coisa aconteceu: o lançamento de novos projetos, produções pequenas e outras bem grandes; turnês pelo Brasil inteiro, especialmente em cidades e regiões que a banda nunca tinha explorado; novas identidades visuais e estilos musicais, libertando a criatividade dos artistas e os levando aos lugares mais improváveis. Mas, mesmo assim, a essência autêntica e espirituosa do Você Não Sabe de Nada ainda acompanha O Grilo como uma velha amiga.
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O artigo acima foi editado por Malu Alcântara.
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