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Beyonce at the 2021 Grammy Awards
Beyonce at the 2021 Grammy Awards
Photo by Cliff Lipson / CBS
Casper Libero | Culture > Entertainment

10 anos de “Formation” e a importância de divas pop se politizarem

Fernanda Pegorelli Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Em fevereiro de 2016, sem anúncio prévio, Beyoncé lançava “Formation”, primeiro single do premiado álbum Lemonade, denunciando a violência policial contra pessoas negras nos Estados Unidos e enaltecendo a rica cultura de seus antepassados. 

O single foi o pontapé inicial da era mais artística e  pessoal da carreira da cantora. Durante os quase cinco minutos do videoclipe, ela une aspectos da cultura negra do sul dos Estados Unidos e faz referências diretas a violência policial e ao racismo estrutural do país. 

Por trás do Clipe

A primeira cena do vídeo já é carregada de simbolismo. A artista aparece no teto de uma viatura policial imersa em água após um desastre natural, referenciando a destruição que o Furacão Katrina causou na cidade de Nova Orleans, em 2005. 

Até os dias de hoje a cidade sofre com consequências do furacão, que atingiu principalmente comunidades negras e pobres. 

A cidade de Louisiana é o principal cenário do clipe, por ter sido um dos principais portos do tráfico de pessoas escravizadas no período colonial e, ao longo dos séculos, tornou-se um importante centro de cultura afro-americana. Em Nova Orleans, tradições africanas se misturaram com influências francesas e espanholas, dando origem a manifestações culturais marcantes, como o jazz

No final do clipe voltamos ao início, porém Beyoncé e a viatura afundam na água, a cena tem diversas interpretações. A mais famosa é o simbolismo de abandono do Estado diante da população preta, e ao permanecer firme na viatura Beyoncé transmite a mensagem de resiliência da comunidade. 

Por trás da Letra 

Antes do primeiro verso cantado, ouvimos uma citação de Messy Mya, um youtuber negro que foi brutalmente assassinado após sair de seu chá de bebê em 2010. 

Beyoncé dá voz à história do homem quando acredita no diálogo. Na época, diversas matérias utilizaram o caso para destacar a importância da manifestação contra a violência policial. Em menos de um minuto, a cantora denúncia inúmeros descasos com sua comunidade, destacando que a arte e a política andam lado a lado. 

Durante alguns trechos cantados, a cantora performa dentro de uma casa grande ao lado de outras mulheres negras, colocando a figura de uma mulher negra na hierarquia mais alta da época, o que não acontecia. 

Ao tirar a imagem de uma mulher preta da senzala e da escravidão e realocar suas dançarinas na sala da casa grande, Beyoncé visualiza a maior mensagem por trás da letra de “Formation”: o empoderamento precisa ser coletivo. 

No refrão da canção, Knowles repete a frase “ Ok, senhoras, agora vamos entrar em formação( Okay, ladies, now let ‘s get in formation)  simbolizando um chamado de empoderamento feminino.

A frase faz um trocadilho com a pronúncia das palavras, utilizando entrar em formação (in formation) e informação (information). O trecho ressalta a importância da busca por informação e estudo. 

No vídeo, a cantora ainda referência Martin Luther King, Malcom X e Dorothy Dandridge.

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Recepção Midiática 

O impacto foi imediato. Parte do público celebrou o posicionamento como um gesto poderoso em meio ao fortalecimento do movimento Black Lives Matter, enquanto setores conservadores reagiram com críticas.

Associações de policiais organizaram protestos e pediram boicote à artista, acusando o clipe de ser “anti-polícia”. Em cidades como Nova York e Miami, sindicatos criticaram abertamente a cantora, transformando um lançamento musical em debate nacional sobre liberdade de expressão, racismo estrutural e o papel das celebridades na política. 

Na mídia, o clipe foi tratado como divisor de águas. Veículos culturais e políticos analisaram cada frame, discutindo desde a estética até as referências históricas ao furacão Katrina e à resistência negra no sul. Para parte da imprensa conservadora, tratava-se de provocação e para críticos culturais, era um dos gestos mais ousados da música pop recente. A narrativa deixou claro que Beyoncé havia decidido ocupar um espaço mais explícito no debate público.

Uma semana depois, a artista levou essa postura ao palco do Super Bowl 50. Vestida com figurinos que remetiam aos Panteras Negras, ela apresentou “Formation” diante de milhões de espectadores, ampliando ainda mais a repercussão. O gesto consolidou a performance como ato político televisionado, reafirmando que o palco também pode ser tribuna.

Para o universo das divas pop, o episódio marcou uma virada. Beyoncé transformou sua própria carreira ao assumir riscos calculados e alinhar arte e posicionamento político de forma direta. A partir dali, deixou de ser apenas uma estrela global para se tornar referência de engajamento cultural. “Formation” mostrou que, quando uma mulher no topo da indústria decide falar, o eco ultrapassa as paradas musicais e alcança o coração do debate social norte-americano.

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O texto acima foi editado por Maria Eduarda Barreira.

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Fernanda Pegorelli

Casper Libero '27

A journalism student writting about pop culture.