Her Campus Logo Her Campus Logo
Casper Libero | Culture > News

A mulher no palanque da extrema direita.

Maria Guidorzi Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Nas eleições de 2026, o Brasil registrou o maior número de mulheres eleitas para a Câmara dos Deputados desde a redemocratização. A bancada feminina passou de 90 para 109 parlamentares, um crescimento de 21%. No Senado, 12 mulheres conquistaram cadeiras entre as 54 em disputa. O avanço numérico, entretanto, não responde a uma questão fundamental: até que ponto a ampliação dos espaços ocupados por mulheres se traduz em políticas públicas voltadas à garantia de seus direitos?

Das 109 deputadas federais eleitas, 44 são classificadas, segundo levantamento do portal Alma Preta, como representantes da direita ou da extrema direita. No Senado, cinco das 12 eleitas integram esse campo político. A composição revela uma dimensão pouco explorada do crescimento da representação feminina: parte significativa dessas mulheres chega ao Congresso defendendo projetos que entram em conflito com reivindicações históricas dos movimentos feministas.

Em entrevista à Agência Brasil, a cientista política Flávia Biroli, professora da Universidade de Brasília (UnB), chamou atenção para essa distinção entre representação numérica e representação de interesses. “Você pode ter mulheres eleitas representando visões econômicas que são prejudiciais para grande maioria das mulheres”, afirmou. Como exemplo, citou a senadora Bia Kicis, que votou contra o projeto de lei da igualdade salarial entre homens e mulheres, aprovado pela Câmara em 2023.

A contradição não está em mulheres conservadoras ocuparem cargos públicos, mas na ideia de que a presença feminina, por si só, representa um avanço na garantia de direitos. A eleição de uma mulher não significa necessariamente compromisso com políticas de igualdade de gênero. Tampouco o gênero determina uma posição ideológica. O que importa é investigar quais projetos essas parlamentares defendem, como votam e a quem suas decisões beneficiam.

É nesse cenário que o Partido Liberal (PL), principal legenda do bolsonarismo, ganha relevância. O partido projeta mulheres capazes de mobilizar eleitoras, disputar a atenção nas redes sociais e dar rosto feminino a um movimento historicamente associado a lideranças masculinas. Michelle Bolsonaro, Bia Kicis, Caroline de Toni, Júlia Zanatta e Eduarda Campopiano foram a grande aposta para aumentar o número de votos femininos na ala da extrema direita brasileira.

Eduarda Campopiano: quase dois milhões de votos contra o feminismo

Aos 23 anos, Eduarda Campopiano transformou a atuação nas redes sociais em uma das votações mais expressivas das eleições de 2026. Eleita deputada estadual pelo PL em São Paulo, recebeu 1.956.238 votos, equivalentes a 8,39% dos votos válidos para a Assembleia Legislativa. Foi a candidata mais votada do estado e alcançou a segunda maior votação da história da Alesp, atrás apenas de Janaína Paschoal, que ultrapassou dois milhões de votos em 2018.

A projeção de Eduarda foi construída, em grande parte, em torno de uma identidade antifeminista. Campopiano já se apresentou como “a maior inimiga das feministas de São Paulo” e afirmou que pretende combater propostas relacionadas ao movimento feminista durante seu mandato. Em entrevista à Folha de S.Paulo após a eleição, declarou que pretende atuar para que mulheres desistam do aborto e se posicionou contra a criminalização da misoginia.

Uma de suas declarações mais controversas ocorreu durante um debate sobre violência de gênero, quando afirmou: “Eu não acho que feminicídio seja algo que exista”. A declaração contrasta com a legislação brasileira, que reconhece o feminicídio como crime autônomo desde 2024, definido por circunstâncias relacionadas à violência doméstica e familiar ou ao menosprezo e à discriminação contra mulheres.

O discurso não é apenas uma provocação nas redes. Ao colocar em dúvida a própria existência do feminicídio, Campopiano questiona uma categoria jurídica criada para reconhecer a dimensão de gênero de determinados assassinatos. Em um país que enfrenta índices elevados de violência contra mulheres, a declaração tem implicações para o debate público sobre prevenção, responsabilização e políticas de proteção.

Campopiano também se posiciona contra o aborto, inclusive em situações de gravidez decorrente de estupro, e critica políticas de cotas raciais. Suas posições fazem parte de uma agenda conservadora mais ampla, que associa a defesa da família tradicional à oposição a políticas de igualdade e a reivindicações de movimentos sociais.

A votação de Campopiano não significa que seus quase dois milhões de eleitores compartilhem de todas essas posições. Mas mostra a força eleitoral de uma candidatura que fez do confronto com o feminismo uma marca pública. O fenômeno interessa ao PL porque combina uma linguagem facilmente reconhecível, circulação digital e uma base de apoio capaz de converter engajamento em votos.

Bia Kicis: uma mulher contra a igualdade salarial

A trajetória de Bia Kicis representa outra dimensão do fenômeno. Advogada e deputada federal pelo Distrito Federal, ela consolidou sua presença no Congresso a partir do alinhamento ao bolsonarismo e da defesa de pautas conservadoras. Sua atuação permite observar como a representação feminina pode coexistir com posições contrárias a medidas destinadas a enfrentar desigualdades de gênero.

Em maio de 2023, Kicis votou contra o projeto que deu origem à Lei nº 14.611, responsável por estabelecer mecanismos de transparência e fiscalização para promover a igualdade salarial entre mulheres e homens que exercem trabalho de igual valor ou a mesma função. Na ocasião, a proposta foi aprovada pela Câmara por 325 votos a favor e 36 contrários. Kicis esteve entre as dez deputadas que votaram contra, evidenciando o que a professora Flávia Biroli já havia comentado.

O caso de Kicis mostra, novamente, como a atuação parlamentar precisa ser examinada para além dos discursos sobre representatividade. O que está em jogo não é apenas quem ocupa a cadeira, mas como o mandato é utilizado e quais interesses são priorizados nas decisões legislativas.

Caroline de Toni: do conservadorismo catarinense ao Senado

Caroline de Toni construiu sua carreira política em Santa Catarina, onde se elegeu deputada federal em 2018 e consolidou sua identificação com o bolsonarismo. Advogada, tornou-se uma das vozes conservadoras do Congresso e chegou a presidir a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, um dos espaços mais relevantes para a tramitação de propostas legislativas.

Em 2026, foi eleita senadora por Santa Catarina com 2.694.918 votos, segundo levantamento de seu histórico eleitoral. A votação expressiva ampliou sua posição institucional: de deputada federal, passou a disputar espaço em uma Casa que participa diretamente da aprovação de leis, da fiscalização do Executivo e de decisões sobre a composição de tribunais superiores.

Sua atuação se destaca pela oposição à descriminalização do aborto e pela defesa de propostas que buscam ampliar a proteção jurídica da vida desde a concepção. De Toni apoiou o Projeto de Lei 1.904/2024, que previa equiparar a homicídio o aborto realizado após 22 semanas de gestação, inclusive em situações de gravidez decorrente de estupro. A proposta provocou críticas de organizações de direitos humanos e de entidades feministas por prever penas que poderiam ser superiores às aplicáveis ao crime de estupro.

A controvérsia não se resume à oposição ao aborto. O projeto colocava em discussão os limites da punição estatal sobre mulheres e meninas que recorrem à interrupção da gravidez, inclusive nos casos em que a legislação brasileira já permite o procedimento. Para as organizações contrárias à proposta, a equiparação poderia agravar a vulnerabilidade de vítimas de violência sexual.

Júlia Zanatta: a disputa em torno do gênero

Também eleita por Santa Catarina, Júlia Zanatta consolidou sua presença na Câmara dos Deputados a partir da defesa de pautas conservadoras e da oposição ao que denomina “ideologia de gênero”. Sua atuação combina críticas ao feminismo, defesa de uma concepção tradicional de família e propostas que procuram restringir o reconhecimento institucional de identidades de gênero. Tudo isso usando uma coroa de flores na cabeça e um “traje tradicional” alemão.

Zanatta também votou contra o projeto da igualdade salarial em 2023. Na ocasião, afirmou que a legislação já previa a igualdade entre homens e mulheres e criticou aspectos da proposta que, em sua avaliação, poderiam prejudicar empreendedores.

Sua atuação, contudo, vai além das relações de trabalho. Zanatta é coautora do PL 1.904/2024, que previa punições mais severas para abortos realizados após 22 semanas de gestação, e defende medidas que restringem políticas públicas voltadas a pessoas trans. Em seu material de divulgação parlamentar, apresenta essas posições como parte da defesa da vida, da família e dos direitos das mulheres.

A disputa em torno do gênero é central para sua identidade política. Ao apresentar políticas de reconhecimento de pessoas trans como ameaças aos direitos de mulheres e meninas, Zanatta mobiliza uma narrativa na qual a proteção de um grupo é colocada em oposição à garantia de direitos de outro.

Para a mulher de extrema direita, parte de sua força política está na capacidade de apresentar posições conservadoras como uma forma de defesa da condição feminina, mesmo quando essas posições entram em conflito com reivindicações feministas ou com políticas de ampliação de direitos.

Michelle Bolsonaro: mobilização feminina sem autonomia garantida

Michelle Bolsonaro ocupa um lugar diferente nessa estrutura. Ex-primeira-dama, ela construiu sua projeção pública articulando religião, família, assistência social e mobilização de eleitoras conservadoras. À frente do PL Mulher, transformou sua popularidade em um instrumento de aproximação entre o partido e mulheres que se identificam com o bolsonarismo.

A estratégia é importante para um movimento cuja imagem pública foi construída, em grande medida, a partir de lideranças masculinas. Michelle oferece outra forma de identificação: sua comunicação recorre à fé, à maternidade e à experiência familiar, elementos que permitem ampliar o alcance do partido sem abandonar sua agenda conservadora.

Mas sua trajetória também expõe os limites dessa participação. Em junho de 2026, Michelle pediu afastamento da presidência do PL Mulher e relatou não estar sendo ouvida pela cúpula partidária durante as articulações eleitorais. A ex-primeira-dama chegou a ameaçar colocar sua pré-candidatura ao Senado à disposição. Na sequência, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, anunciou uma reorganização do setor feminino da legenda.

O episódio mostra que nem mesmo uma das figuras femininas mais populares do bolsonarismo está imune às disputas por influência dentro do partido. Michelle construiu uma base eleitoral própria e ajudou a mobilizar mulheres para o projeto político de Jair Bolsonaro, mas sua presença na estrutura partidária não eliminou os conflitos com dirigentes homens.

Sua atuação permite formular uma questão central: o PL deseja ampliar a autonomia política das mulheres ou mobilizá-las principalmente como base eleitoral? O partido pode reconhecer a importância de lideranças femininas para conquistar votos sem necessariamente compartilhar com elas o mesmo poder de decisão.

Quem aparece no palanque — e quem decide?

A manifestação bolsonarista realizada na Avenida Paulista em 18 de outubro de 2026, em apoio a Flávio Bolsonaro, oferece uma cena importante para essa investigação. O ato teve o senador como protagonista e reuniu apoiadores e aliados políticos em torno de sua candidatura. Nenhuma das cinco personagens centrais desta reportagem aparece como protagonista do palanque nas imagens e na cobertura consultadas.

Apesar de Michelle Bolsonaro e Bia Kicis estarem em outra mobilização bolsonarista em Brasília, se coloca em cheque a hierarquia política estabelecida pela cúpula do poder.

A imagem feminina como força eleitoral

As trajetórias de Michelle Bolsonaro, Bia Kicis, Caroline de Toni, Júlia Zanatta e Eduarda Campopiano mostram que a extrema direita brasileira não precisa abrir mão do conservadorismo para ampliar a presença feminina. Ao contrário, o movimento incorpora mulheres que ajudam a difundir sua agenda por meio de linguagens e experiências distintas.

Essa diversidade amplia os recursos políticos do bolsonarismo. A presença feminina permite que o movimento alcance públicos distintos, responde a críticas sobre a predominância masculina e apresente suas pautas conservadoras por meio de mulheres que reivindicam legitimidade para falar sobre os interesses femininos.

A questão de fato é que o crescimento eleitoral dessas lideranças não deve ser confundido com a ampliação automática dos direitos das mulheres. As votações sobre igualdade salarial, as propostas de restrição ao aborto e as disputas em torno das políticas de gênero mostram que a representação feminina pode coexistir com agendas que limitam direitos reivindicados por movimentos feministas. Mulheres que atacam mulheres.

Em O conto da aia, de Margaret Atwood, a construção de Gilead, uma ditadura teocrática que transforma o controle dos corpos femininos em política de Estado, não depende apenas dos homens que ocupam o poder. Mulheres como Serena Joy, a esposa do homem que idealiza a teocracia, também ajudam a legitimar o regime, defendendo valores tradicionais em nome da família, da religião e da moral. Quando a nova ordem se consolida, porém, Serena descobre que ter participado de sua construção não lhe garante autonomia para decidir suas regras. A personagem expõe uma contradição: mulheres podem conquistar influência política ao defender um projeto que restringe os direitos de outras mulheres, sem perceber, ou sem admitir, os limites que esse mesmo projeto pode impor à sua própria liberdade.

O Brasil não é Gilead, mas a ficção de Atwood oferece uma lente para observar as contradições apresentadas. Quando parlamentares questionam a existência do feminicídio, votam contra medidas de igualdade salarial ou defendem o endurecimento das punições ao aborto, a presença feminina no poder se assemelha muito ao modelo descrito por Atwood. Michelle Bolsonaro, Bia Kicis, Caroline de Toni, Júlia Zanatta e Eduarda Campopiano mostram como mulheres também podem se tornar rostos de um projeto político que mantém desigualdades e restringe liberdades. A questão, portanto, não é apenas quantas mulheres chegam ao palanque, mas que sociedade ajudam a construir, e se de fato a estão construindo ou  sendo apenas utilizadas como estratégia política. Mais do que isso resta saber:  quem estará disposto a protegê-las quando as regras que ajudaram a legitimar passarem a limitar sua própria autonomia?

———————————————————————————————————————————————-

O artigo acima foi editado por Julia Galoro.  

Gosta desse tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!

Maria Guidorzi

Casper Libero '30

Leonina com ascendente em sagitário, a comunicação sempre fez parte de quem sou, desde palestrinhas em almoços de domingo, até finalmente mergulhar em minha escrita e levar isso como profissão. Familiarizada com o campo das Ciências Sociais por ter sido minha primeira passagem no ensino superior, e mochileira por vocação, tento enxergar o diferente em tudo que faço. Agora, cursando Relações Públicas a intenção reside na maneira de me colocar no mundo, expondo ideias, argumentos e opiniões que antes ficavam restritas à academia e aos hostels! Amo cinema, teatro, fotografia e especialmente a gastronomia, amo as pequenas paixões da vida e os intervalos vazios entre um acontecimento e outro, e procuro colocar devoção em tudo que faço! Um cherô!