Ao pesquisar no YouTube a palavra “produtividade” títulos como esses são encontrados: “10 hábitos para ser mais produtivo”, “Como mudar sua vida em seis meses”, “A rotina perfeita para alcançar o sucesso” ou “Como fazer trabalho, academia, hobbies e vida social caberem no mesmo dia”.
O que chama atenção não é apenas a quantidade desses conteúdos, e sim a ausência de qualquer pergunta sobre seu oposto. Nenhum vídeo parecia interessado em investigar por que estamos tão cansados, nenhum considerava a hipótese de que talvez já estejamos fazendo demais. A única preocupação compartilhada, era descobrir como encaixar ainda mais atividades dentro das mesmas vinte e quatro horas. Talvez a produtividade tenha deixado de ser uma ferramenta, para se tornar uma visão de mundo e um traço de personalidade.
Há algo particularmente interessante na forma como a sociedade contemporânea fala sobre o trabalho. Produzir não aparece mais apenas como necessidade econômica, mas como realização pessoal, desenvolvimento individual e construção de propósito. O trabalho já não é aquilo que fazemos para viver, mas aquilo que confere sentido à vida. Quando isso acontece, a improdutividade deixa de ser apenas um estado passageiro e passa a assumir a forma de falha moral.
Estamos expostos atualmente à ideia de que sentimentos e pensamentos são características pessoais e intrínsecas à individualidade. Entretanto, alguns filósofos como o sul-coreano Byung-Chul-Han, vão em outra direção, pensando que o mal-estar possivelmente seja mais um fenômeno coletivo do que uma questão individual. Ou seja, e se o problema não estiver nos indivíduos, mas na própria cultura que produziu essa culpa?
Para entender como nos tornamos aquilo que somos, é importante sempre olhar para trás. Voltando ao século XVIII e a tão emblemática Revolução Industrial: uma das narrativas mais difundidas sobre o progresso moderno é a de que, os avanços tecnológicos libertariam os seres humanos do trabalho excessivo. Se máquinas fossem capazes de produzir mais em menos tempo, seria razoável imaginar que as pessoas trabalhariam menos.
No entanto, a história seguiu por outro caminho, as transformações inauguradas pela Revolução Industrial não alteraram apenas os meios de produção mas também a própria relação entre tempo e trabalho. Ao invés de existir uma otimização desta produção que geraria um melhor aproveitamento do tempo humano, a sociedade se voltou à lógica das máquinas e não o inverso.
Antes da industrialização, o trabalho estava diretamente vinculado aos ritmos naturais, às estações do ano e às necessidades locais. Com o surgimento das fábricas, o tempo passa a ser reorganizado segundo outra lógica: a da eficiência. O relógio deixa de ser um instrumento de orientação e se torna um mecanismo de controle, fazendo com que a produtividade passe a ser medida, calculada e comparada. Mais do que uma revolução econômica, uma revolução cultural. É aqui que nasce o sujeito moderno.
Não por acaso, o século XIX é o período em que se consolidam diversas instituições dedicadas à disciplina dos corpos: fábricas, escolas, quartéis, prisões. Como observou o filósofo Michel Foucault em sua obra “Vigiar e Punir”, trata-se de uma sociedade fundada na vigilância, na normatização e na obediência. Produzir era uma obrigação imposta de fora para dentro.
Mas talvez, a contribuição mais interessante de Foucault para esta discussão esteja em outro lugar: a disciplina não produz apenas comportamentos, ela produz subjetividades. Em outras palavras, as instituições modernas citadas não ensinavam apenas as pessoas a como trabalhar, ensinavam também a como perceberem a si mesmas. A figura do trabalhador disciplinado não era somente uma exigência econômica, mas um ideal moral.
É justamente nesse ponto que a análise de Byung-Chul Han pode ser lida como uma continuação da reflexão foucaultiana. Se a sociedade industrial descrita por Foucault precisava de mecanismos externos de vigilância para garantir a produtividade, a sociedade contemporânea parece ter encontrado uma forma muito mais eficiente de controle: fazer com que os próprios indivíduos assumam espontaneamente essa função. A fábrica não desapareceu, ela foi internalizada. Segundo Han, já não vivemos sob o paradigma da disciplina, mas sob o paradigma do desempenho. Pode parecer sutil, mas existe um abismo entre os dois substantivos.
Para Han, a sociedade disciplinar operava através da proibição, seu verbo fundamental era “dever”, devemos obedecer, cumprir horários, respeitar regras. Já a sociedade do desempenho opera através da positividade, seu verbo é sempre “poder”. Podemos produzir mais, podemos aprender mais, podemos otimizar nossa rotina, podemos transformar nossa personalidade em marca e podemos transformar nossa vida em projeto.
À primeira vista, essa lógica parece libertadora, afinal, quem seria contra a possibilidade de realizar seu potencial? Mas, quando tudo se apresenta como possibilidade, o fracasso passa a ser interpretado como responsabilidade individual. Se todos podem, então quem não consegue, simplesmente não se esforçou o suficiente, ou seja, o mito da meritocracia e da coerção desaparece da superfície para reaparecer no interior do sujeito. A exploração deixa de ser externa e se torna autoexploração.
Han descreve o indivíduo contemporâneo como alguém que ocupa simultaneamente a posição de senhor e escravo, ele explora a si mesmo acreditando estar exercendo sua liberdade. Trabalha mais não porque alguém o obriga, mas porque aprendeu a associar desempenho à própria identidade. Nesse contexto, descansar não significa apenas interromper uma atividade, mas suspender temporariamente a própria lógica através da qual aprendemos a atribuir valor a nós mesmos.
Dessa maneira, a própria ideia de existência passa a ser colonizada pela lógica da performance. O paradoxo é que vivemos em uma época que dispõe de mais tecnologia, mais automação e mais ferramentas de otimização do que qualquer outra geração anterior. Ainda assim, a sensação dominante não é a de liberdade, mas a de insuficiência permanente.
Talvez a maior vitória da lógica do capital tenha sido justamente o conceito de desempenho individual máximo, fazendo com que a exploração deixe de parecer uma imposição externa e passe a ser confundida com desejo pessoal. E sua consequência mais profunda não seja o esgotamento físico, mas a dificuldade crescente de imaginar uma vida que não precise justificar continuamente a própria existência através da produção. Uma sociedade incapaz de atribuir valor ao ócio não produz apenas indivíduos cansados, produz indivíduos que já não conseguem conceber o descanso como um direito, apenas como uma recompensa temporária por terem sido suficientemente úteis e, como afirma o sábio da vida Ailton Krenak: a vida não é útil.
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O artigo acima foi editado por Gabriela Belchior.
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