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Novelinhas de frutas com violência e estereótipos de gênero ocupam espaço de conteúdos infantis adequados

Updated Published
Maria Eduarda Toti Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Os meses de março, abril e maio de 2026 trouxeram consigo uma grande surpresa para a internet que logo se tornou queridinha entre os usuários — principalmente no Instagram e TikTok: os vídeos de IA que contam histórias de frutinhas falantes. Não levou muito tempo para essas ‘narrativas’ se tornarem um grande fenômeno entre todas as idades, principalmente entre as crianças. 

Tudo começou com uma conta britânica que refez um famoso reality show, o Love Island, em formato de frutas de IA. Não demorou muito para essa trend chegar ao Brasil, a resposta? Milhares de visualizações e curtidas. Os vídeos se tornaram uma verdadeira febre entre as gerações mais novas, com pessoas até se fantasiando dos personagens. 

O que era um verdadeiro sucesso, logo se tornou um verdadeiro pesadelo. Com conteúdos cada vez mais pesados e carregados de objetificação da mulher, misoginia, romantização da traição e gravidez na adolescência, masculinidade agressiva e romantização de relacionamentos tóxicos. As novelinhas abriram um olho de preocupação e atenção sobre o que as crianças estão consumindo na internet e como isso afeta em seus comportamentos  e de como as redes sociais permitem que a romantização de conteúdos duvidosos circule na internet. 

O brain-rot já mudou a cognição das crianças?

Para o Prof. Dr. Antônio Fernando G. Alves, formado em Filosofia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino e em Pedagogia (Bacharelado e Licenciatura) pela Universidade São Caetano do Sul – com doutorado em Psicologia Social pela PUC/SP e especialização em Psicanálise pela ESPE/PR -, a parte cognitiva das crianças ao consumirem esse tipo de conteúdo hiperestimulante acaba afetando seu desenvolvimento como adulto. “A criança, ao assistir esses conteúdos, acelera e incorpora outros ritmos na sua vida. Ela introjeta formas relacionais entre a fantasia e realidade.”, declara. A infância não é vista somente como uma etapa a ser construída pelo adulto, mas um momento em que se faz uma estruturação para se tornar um adulto cognitivo. 

Um crescimento com horas de telas com desenhos superestimulados distorce a forma como a criança vê o mundo ao seu redor.  “Esses vídeos exploram justamente essa repetição musical, com uma recompensa imediata e ela entra em um circuito de rápida satisfação que, por exemplo, pode trazer baixa tolerância à frustração e tem uma necessidade constante de excitação”, explica.

Vídeos desse tipo, não reforçam a criatividade e o senso crítico da criança, o que acaba prejudicando seu crescimento.  

As crianças moldam suas personalidades, pensamentos e jeito por experiências cotidianas  ou copiando o estilo de vida dos pais, amigos da escola, entre outras figuras. Ao assistirem constantemente esse tipo de conteúdo, a criança acaba se moldando a ele e agindo da mesma maneira que os personagens dos vídeos. “Nessa contemporaneidade que há esse apelo digital muito grande, a cópia vira a internet. Elas alteram modos de falar, porque como aquela inteligência é artificial e modelada de linguagem, ela muda a sua forma de falar. Ela pode até copiar expressões emocionais, isso é interessante na estrutura psíquica que a criança vai moldando dentro da sua subjetividade”, reflete.

Misoginia e masculinidade tóxica disfarçadas com cores chamativas

Além da superestimulação que essas novelinhas trazem, existe outro problema, mas mais enraizado e perigoso: a romantização e normalização da misoginia, masculinidade tóxica, traição, entre outros.

A história das novelinhas são constantemente as mesmas – mas sempre conseguem prender a atenção dos espectadores – a trama gira em torno de uma frutinha trair a outra, “homens” com caráter extremamente agressivos e misóginos e a objetificação da mulher; isso traz um questionamento, como a mente das crianças reage ao se depararem com comportamentos tão estereotipados e preconceituosos? 

Para o professor doutor Antônio, o impacto simbólico que as meninas sofrem devido a rivalidade estética, futilidade e submissão emocional apresentadas nas novelas, elas passam a “povoar” o inconsciente da criança e começar a se organizar no modo de como ela seria no modo adulto. “Na psicanálise nós analisamos muito é a questão da constituição narcísica, que é como eu vejo e como o outro me vê. Principalmente nas obras de Jacques Lacan, o que nós percebemos nessas animações é que o feminino aparece como uma forma de sedução, uma forma de aprovação pelo outro ou uma forma de aparência corporal.”, reflete. Quando um personagem é estereotipado desta maneira, não só em um mas em vários episódios, ela começa a achar que é assim que ela deve  se portar para ser aceita na sociedade. 

Com a aceitação dos vídeos e comentários com humor ácido, a criança passa a acreditar que é assim que sua personalidade deve ser daqui para frente. “Isso pode reverberar em uma construção narcísica, como a busca de ser bonita o tempo todo, ser desejada e como essas questões nunca são 100%, ela pode gerar uma insegurança corporal muito grande ou uma comparação constante entre suas coleguinhas”, constata o professor

Os meninos também são ensinados pelas novelas sobre como eles devem ser, como devem agir, pensar e falar. Eles são colocados em uma machosfera e são ensinados a como odiar uma mulher e de que está tudo bem traí-la, batê-la e não ter nenhuma responsabilidade sobre seus atos e serem indiferentes com seus próprios pensamentos. 

A machosfera é uma comunidade online que promove visões rígidas, agressivas e estereotipadas sobre o que é ser homem. A série documental Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera explora sobre como é a vida dos grandes influenciadores dessa comunidade que vem ganhando cada vez mais força. 

Uma pesquisa levantada pela Universidade federal do Rio de Janeiro aponta que 90% dos canais do YouTube foram identificados com conteúdo misóginos em 2024 permanecem ativos na plataforma, os meninos são ensinados que o poder vem através da violência e bloqueio emocional. Essas novelas acabam reproduzindo a competitividade da raiva, e isso o inibe de pedir ajuda quando for necessário. 

A marca registrada das novelinhas: a violência

O grande marco das novelinhas das frutinhas é como a violência se tornou o personagem principal da trama, as historinhas nunca foram educativas ou com certa conscientização social, ela gira em torno de como a “vingança é um prato que se come frio”.

A presença constante de gritos, punições, humilhações e conflitos é o essencial das novelas, essa exposição hostil acaba banalizando a violência na vida real da criança e perdendo o seu verdadeiro significado, “Uma criança que é submetida a essa violência e humilhação acaba reproduzindo esse elemento, ela tem um efeito na criança psíquico como a normalização e ela acaba reproduzindo isso na linguagem e na forma de como age”, conforme explica.

O problema das novelas é a repetição das atitudes. Se a vida da criança gira em torno dessas histórias, ela vive rodeada por essa repetição e começa a agir daquela maneira. O que pode diminuir a empatia das crianças, e fazer com que elas não entendam suas atitudes agressivas como algo ruim e façam bullying por aquilo ser “normal” em sua vida.

O que causa a grande problemática, é que são atitudes causadas no dia a dia e não apenas uma fase. Essas novelas acabam distorcendo a forma como a criança se vê e acaba influenciando sua identidade como pessoa. “Precisa ter uma desconstrução de alguns elementos, se os pais estão ali e desconstroem esses elementos, e não aceitam essas atitudes como os únicos, aquilo pode passar a ser construtivo no sentido de trazer uma reflexão.”, de acordo com o Professor.

Segundo a perspectiva psicanalítica, é fundamental que crianças e adolescentes aprendam, desde cedo, a desacelerar os estímulos constantes aos quais estão expostos no ambiente digital, desenvolvendo senso crítico para compreender que nem tudo o que veem na internet corresponde à realidade ou exerce uma influência positiva. Nesse contexto, torna-se indispensável que pais e responsáveis acompanhem de forma mais atenta os conteúdos consumidos pelos filhos, orientando-os sobre os impactos emocionais, sociais e cognitivos do uso excessivo das redes sociais. Esse cuidado é essencial para promover um desenvolvimento saudável e prevenir consequências que, futuramente, podem se tornar mais difíceis de reverter.

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O artigo acima foi editado por Luiza Kellmann

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Maria Eduarda Toti

Casper Libero '28

Journalism student at Casper Libero university, sports lover, books, lifestyle, movies and communication :)