A tão esperada sétima temporada de Black Mirror chegou à Netflix com seis novos episódios. A proposta da nova temporada é clara: refletir sobre os usos das Inteligências Artificiais (IAs) e trazer de volta histórias e personagens de outras temporadas e do filme Black Mirror: Bandersnatch.
O elenco da temporada conta com atores inéditos para a trama como Issa Rae, Awkwafina, Peter Capaldi, Emma Corin, Rashida Jones e o indicado ao Oscar Paul Giamatti. Além de nomes já conhecidos para os amantes da série: Will Poulter, Cristin Milioti e Jesse Pleamons retornam aos seus papéis nessa temporada, trazendo aquele tom de nostalgia para os novos episódios.
O FUTURO CUSTA CARO
Em Pessoas Comuns, episódio que abre a nova temporada, somos apresentados ao Rivermind – um serviço que promete restaurar a consciência para as pessoas que a perderam. O funcionamento? Planos de assinatura. Quanto mais barato, menos benefícios. Te lembra alguma coisa?
Não é a primeira vez que Black Mirror faz essa reflexão. Em “Joan É Péssima”, primeiro episódio da sexta temporada, tivemos uma abordagem parecida, voltada para os próprios serviços de streaming, e fazendo uma referência direta à Netflix. Mas, além das críticas aos streamings, o episódio nos leva a refletir sobre o futuro da medicina e sua distribuição em uma sociedade cada vez mais desigual.
Quem merece continuar vivo? Quanto vale uma vida? Até onde você estaria disposto a ir para salvar alguém que ama? São questionamentos que o episódio traz ao público – e podemos concordar que esse futuro distópico não está tão distante assim.
Como de costume, Black Mirror sempre têm uma trilha sonora marcante, e neste episódio não foi diferente. “Anyone Who Knows What Love Is (Will Understand)”, de Irma Thomas – que já havia sido usada no episódio “Quinze Milhões de Mérito”, da primeira temporada, volta a emocionar. “Lovin’ You”, de Minnie Riperton, também é outra música icônica que aparece no episódio.
A experiência já não é tão agradável com o segundo episódio, Betê Noire. O título – uma expressão francesa que pode ser entendida como algo para se referir a uma pessoa que irrita profundamente ou que você desgosta muito – é perfeito para descrever as protagonistas Maria (Siena Kelly) e Verity (Rose McEwen).
Temas como bullying, vingança, tecnologia avançada e multiverso são abordados, em um paralelo com temporadas anteriores e, especialmente, no filme Black Mirror: Bandersnatch. O problema é que os temas não são profundamente explorados e a narrativa se transforma em um ciclo de “oprimido que vira opressor” sem sentido, oscilando entre as duas personagens. O episódio é raso e pouco inovador, mas a execução das personagens foi eficaz para causar irritação no espectador.
JOGOS QUE SEPARAM, AMORES QUE UNEM
Brinquedo é um dos episódios mais dinâmicos e nostálgicos da temporada. A trama se passa no mesmo universo do filme Black Mirror: Bandersnatch, intercalando entre o presente dos personagens, em 2034, e flashbacks de 1984.
Colin Ritman (Will Pulter) retorna a série – com pouco tempo de tela – e apresenta ao personagem principal Cameron Walker (Lewis Gribben/Peter Capaldi), um novo jogo de vida online, e ele fica completamente obcecado pelas formas de vida no jogo. A dinâmica e visual do episódio combinam com o bombardeio de informações que recebemos. Assim como no filme, a narrativa como um todo é eletrizante, mas um pouco confusa. Vale a pena manter os olhos grudados na tela para acompanhar o ritmo.
Com um começo tímido e tranquilo e um final lindo e emocionante, Hotel Reverie consegue ser um dos melhores episódios da criação de Charlie Brooker. À primeira vista, parece que o tema de IAs em filmes seria o foco, mas o que realmente encanta o espectador é a história de amor entre as personagens.
Aqui, temos uma espécie de “remontagem” de um filme clássico, recriado dentro do episódio com o uso de uma IA. O esperado seria uma crítica negativa em relação ao uso da tecnologia, mas, ao contrário, a inteligência artificial permite que Dorothy Chambers (Emma Corin) viva uma história feliz. Black Mirror fez de novo e fez muito bem. Não é a primeira vez que a série emociona ao contar a história de duas mulheres que se amam, como já vimos em San Junipero, o quarto episódio da terceira temporada – aliás, fãs atentos vão encontrar easter eggs desse episódio em Hotel Reverie. Será que você percebeu?
DE VOLTA AO PASSADO
Mais um acerto de Black Mirror foi o episódio Eulogy. É devastador, emocionante, e o tipo de episódio que quando acaba você fica olhando os créditos rolarem, com os olhos cheios de lágrimas e um lencinho por perto.
A série nos convida a refletir sobre culpa e arrependimento de uma maneira muito profunda – e claro, tecnológica. Philiph Connarty (Declan Mason/Paul Giamatti) consegue revisitar e dar sentido ao seu passado conturbado por meio da tecnologia Eulogy. Embora não consiga reparar os erros, ele entende onde errou e o que lhe custou: uma vida com a mulher que amava.
Assistimos Kelly Royce (Patsy Ferran) guiar Philiph em uma jornada de luto, não só pela morte de Carol Royce (Hazel Monaghan/Rebecca Ozer), mas pelo que poderiam ter vivido, se ele tivesse prestado mais atenção antes de perdê-la. É um episódio lindo e, mais uma vez, Black Mirror surpreende ao entregar uma história emocionante graças à tecnologia avançada.
E finalmente chegamos ao episódio mais esperado pelos fãs: USS Callister – Infinity. Os acontecimentos derivam perfeitamente do primeiro episódio da quarta temporada, USS Callister, e a nostalgia é garantida. O retorno da maioria dos personagens só reforça isso.
O desenrolar é divertido e não se torna cansativo, o que é muito bom para um episódio com uma hora e meia de duração. As perguntas deixadas no episódio “original” são respondidas, sem que se perca a essência da série como um todo.
O retorno de Robert Daly (Jesse Pleamons) é muito interessante e revela que a sua maldade, agora mais explicada, está nele em qualquer dimensão. O final pode dividir opiniões, mas ainda sim carrega aquele sentimento típico de Black Mirror, deixando os fãs nostálgicos e à espera de uma nova temporada.
Em geral, a série ainda consegue ser surpreendente, mesmo com alguns panes no sistema pelo caminho. A nostalgia é o coração da temporada: diversos easter eggs podem ser encontrados, evocando um déjà vu nos admiradores da série. Sendo assim, seria a sétima temporada uma tentativa de voltar à essência das primeiras temporadas e chamar os fãs de volta? Talvez, mas Black Mirror acertou dessa vez.
O artigo acima foi editado por Beatriz Martins.
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