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Vitória de Milei e Crise Econômica: Entenda o que está acontecendo na Argentina

Giovanna Zanetti Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Javier Milei e seu tango político colocou a economia argentina colapsada, uma moeda desvalorizada e diversos escândalos, em vitória eleitoral. O presidente autointitulado ultraliberal, venceu as eleições legislativas há algumas semanas com pouco mais de 40% dos votos: o que ampliou sua bancada, mas ainda não obteve a maioria na câmara de deputados. 

Graças ao financiamento de Donald Trump e elogios da Casa Branca, o argentino se consolida como o novo rosto da extrema direita latino-americana. Tendo como pilares um discurso antipolítica e uma agenda que corta direitos sociais e trabalhistas, mas que garante grandes lucros a bancos e investidores. A vitória nas urnas dá um respiro para que Milei siga com o programa de austeridade fiscal e teste os limites do experimento ultraliberalista argentino. 

A situação econômica da Argentina é delicada: o país só não “quebrou” nos últimos meses, em razão do dinheiro enviado pelos Estados Unidos, já que existe um problema de supervalorização cambial. Para resolver esta questão, não há uma maneira que não gere inflação, consequentemente, desorganizando a economia. 

Um curto histórico

O cenário político argentino é polarizado e disputado há décadas pelo Peronismo – um movimento de esquerda visto como atrasado e corrupto pelos liberais – e o Anti-Peronismo; além de também ser marcado por diversos problemas de corrupção – como a maioria dos países latino-americanos. 

O doutor em Ciência Política pela UFRGS e professor de História das Relações Internacionais da UFSC, Márcio Voigt, analisa a maneira utilizada para definir o projeto de Milei. Ele entende que a origem das ideias está no anarcocapitalismo, uma proposta que tem Murray Rothbard, um estudioso estadunidense, como seu principal formulador.

A ascensão de Milei e sua trajetória presidencial, é nítidamente muito mais extremista em comparação aos seus antecessores. Em uma trajetória que dá continuidade a uma tradição liberal, e principalmente anti-peronista, resulta no produto mais extremista do conhecido fundamentalismo de mercado.

De forma geral, e principalmente na imprensa argentina se utiliza a expressão “libertarianismo” ou “libertário”, que traz um grande teor de legitimação, já que se apropria de uma expressão que tem forte conotação positiva.

“Ser libertário parece ser a posição de um revolucionário e transformador, o que obviamente não é o caso. Milei tem clara simpatia e aproximação com várias figuras que são vistas como parte da extrema direita atual global, que por sua vez tem sido clara ligação com o fenômeno clássico ocorrido na primeira metade do século XX.”

Márcio Voigt

Apesar da abstenção recorde nessa eleição, que indica que provavelmente a população está em um impasse entre não votar no ultraliberal, mas, não querer voltar a votar nos peronistas, o movimento peronista ainda é a principal oposição ao governo de Milei, principalmente diante da decaída de popularidade do atual presidente. 

E o futuro?

O professor acrescenta que, para Milei, a integração regional no sentido que é defendido por alguns esquerdistas latinoamericanos, não é um projeto desejável, porque o sul global é frequentado por países que o presidente argentino classifica como “esquerdistas e comunistas”. Já a aliança com os EUA não é novidade, mas a forte dependência em Trump sim, pois o estadunidense não parece ser um republicano comum, tendo vários traços de rompimento com o que seria básico em um governo conservador dos Estados Unidos. 

O alinhamento com Trump é para Milei a grande cartada para mudar a posição da Argentina, na região e no mundo, porém me parece uma proposta exagerada, extremista e muito arriscada. Num mundo em transição, fazer apostas tão centradas em um país e estar tão dependente me parecem um risco enorme.” constata o doutor.

Uma das razões da impopularidade do presidente argentino são as medidas políticas externas, alinhadas aos Estados Unidos e Israel, realizando ataques contra qualquer governo ou liderança que possa ser vista como esquerdista ou “comunista”. A segunda razão são as medidas políticas internas, vistas como um ataque aos sindicatos e instituições que defendem os trabalhadores, já que envolvem a contração dos investimentos públicos (ou seja, o investimento de recursos financeiros em projetos infraestruturais, e em áreas como saúde e educação), resultando na demissão de milhares de funcionários públicos contratados, e na abertura e desregulamentação de vários setores do mercado.  

Um mundo em transição e com muitas dificuldades precisa de bom senso, algo que parece cada vez mais em falta. Outsiders oportunistas se multiplicam, e como historiador, muitas vezes me parece que o mundo do século XXI nessa década se assemelha aos conturbados anos 20 do século XX. Espero que o final não seja semelhante ao que foi no século anterior” salienta Márcio.

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O texto acima foi editado por Maria Eduarda Barreira.

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Giovanna Zanetti

Casper Libero '29

Journalism undergraduate, passionate about politics, culture and entertainment