Na última sexta-feira (30), Senna estreou na Netflix como uma minissérie de seis episódios que busca retratar a vida de um dos maiores pilotos da história do automobilismo, Ayrton Senna da Silva. A série foi filmada em diversos países como Brasil, Irlanda do Norte, Argentina e Uruguai e traz a história do piloto desde sua infância no kart até o fatídico acidente em Ímola, na Itália, que levou a sua morte em 1994.
Tricampeão brasileiro e ídolo da Fórmula 1, Ayrton Senna é interpretado por Gabriel Leone. O elenco ainda conta com Alice Wegman como Lilian de Vasconcelos, Kaya Scodelario como a fictícia jornalista Laura Harrison, Arnaud Viard como Jean-Marie Balestre, Camila Márdila como Viviane Senna, Gabriel Louchard como Galvão Bueno, entre outros nomes de sucesso.
Uma vida como a de Senna, com tanta história, tantos detalhes e tão amada pelo povo brasileiro, seria mesmo difícil ser contada. Com direção de Vicente Amorim e Julia Rezende, Senna é uma série que faz qualquer um chorar, tenha ou não vivido os anos de ouro de Ayrton. Mas com apenas seis curtos episódios, acaba pecando pela falta de detalhes e pela rapidez com que passa por momentos da vida do piloto.
A CARREIRA
Todo mundo se lembra do que estava fazendo no dia 01 de maio de 1994. E é assim, de forma forte e rápida, que o primeiro episódio, Vocação, começa. De volta ao Brasil, mais especificamente à São Paulo dos anos 1960, a série retrata, brevemente, mas bem, a infância de Ayrton Senna. O atleta sempre amou correr e, ainda criança, ganhou o primeiro kart de seu pai, Miltão (Marco Ricca). E, aos 19 anos, já estava em Estoril, em Portugal, para disputar a final do campeonato mundial de kart – que acabou perdendo devido a uma mudança no regulamento.
Já o episódio 2, Determinação, vem para mostrar os passos de Ayrton até sua chegada na Fórmula 1. A série acerta em passar com detalhes um momento pouco conhecido da história do piloto, quando cogitou se aposentar após o título da Fórmula Ford na Inglaterra, em 1981.
Na época, Senna havia prometido aos seus pais e a sua então esposa que voltaria ao Brasil após o fim da temporada. Voltou, mas o amor pelas corridas o fez mudar de ideia e retornar à Europa, onde conquistou os títulos da Fórmula 2000 e da Fórmula 3. Ali, já se mostrava diferente e chamava a atenção dos chefes das equipes da Fórmula 1.
Senna finalmente chega à Fórmula 1 em 1984, correndo pela Toleman, onde faz uma grande corrida na chuva em Mônaco, que só não venceu por um favorecimento da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) ao francês Alain Prost (Matt Mella). Esse episódio foi muito bem retratado pela série.
Um ano depois, é contratado pela Lotus. No episódio 3, Ambição, é interessante ver o início da parceria de sucesso entre Senna, Honda e McLaren, que o fez conquistar seus três títulos mundiais. Agora parceiros de equipe, Senna e Prost se estranhavam e travavam disputas dentro e fora das pistas em todas as corridas. A rivalidade entre eles também é muito bem construída na série, sendo um dos principais pontos altos.
Em relação a enorme e vitoriosa carreira de Senna, a série peca, passando rápido até demais por muitos dos anos de Ayrton na Fórmula 1 e, assim, deixando detalhes importantes de lado. A temporada de 1993, por exemplo, foi completamente deixada de fora, sendo que foi nela onde Senna realizou um de seus maiores feitos na carreira e deu a, considerada por muitos, “volta mais perfeita” de toda a história de Fórmula 1, no Grande Prêmio da Europa, realizado na Inglaterra.
OS AMORES
Aqui, talvez seja um dos lugares onde a série mais erra. Seu primeiro casamento, que durou de 1981 a 1983 com Lilian de Vasconcellos, é bem retratado e a personagem ganha destaque nos primeiros episódios. Já Xuxa Meneghel (Pâmela Tomé), namorada de Senna entre 1988 e 1990, ganha um episódio inteiro dedicado a si, intitulado Paixão, sendo interpretada como o grande amor da vida de Ayrton.
Adriane Galisteu (Julia Foti), namorada de Senna entre 1993 e 1994 que estava com ele no momento da morte, foi deixada de lado, sendo que, na vida real, teve muito mais importância do que os pouco mais de dois minutos de tela dados a ela na série.
Adriane é, inclusive, trocada por Xuxa em alguns momentos icônicos que viveu com o piloto, como, por exemplo, quando andaram juntos de jet ski em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, e quando ela anda na garupa da moto dele em Mônaco. Isso se deve à relação da família Senna, que participou da produção da série, com as namoradas; uma relação boa até hoje com Xuxa e sempre ruim com Galisteu.
JEITO SENNA DE SER
Outro ponto em que a série acerta é ao mostrar o tipo “esquentadinho” de Senna, que nunca foi calmo, dentro ou fora das pistas. O atleta se envolvia constantemente em polêmicas com Prost e com o alto escalão do automobilismo, principalmente com Jean-Marie Balestre, dirigente da FIA entre 1986 e 1993. Além disso, travava inúmeras brigas com a imprensa britânica e perdia a cabeça. Senna não deixava barato e estava disposto a arriscar tudo por uma vitória, fatos que a série, com a brilhante atuação de Gabriel Leone, consegue retratar muito bem.
Por outro lado, Senna era um cara “família”. A produção também acerta ao retratar como Ayrton, ou “Beco”, como era carinhosamente apelidado, gostava de passar tempo com seus pais, sua irmã e seus sobrinhos, sempre se divertindo com a família em Angra. Senna amava crianças e tinha o sonho de ser pai.
Um ponto alto da série também é como ela retrata o amor de Senna pelo Brasil. É impossível não se emocionar com a cena de quando ele conquista finalmente a tão sonhada vitória em casa, no GP de Interlagos em 1991, depois de um problema no câmbio que o deixou apenas com a sexta marcha.
1994
O último episódio da série, Tempo, é focado no ano 1994, mais especificamente no fim de semana do Grande Prêmio de Ímola. Senna havia saído da McLaren e transferido para a equipe Williams no início do ano. A série retrata bem toda a preocupação de Ayrton com a segurança da pista naqueles dias, principalmente após a morte do austríaco Roland Ratzenberger (Lucca Messer) no sábado.
No domingo, 01 de maio de 1994, a vontade de Senna era não correr, mas decidiu ir para a pista para homenagear Roland, tendo conseguido até uma bandeira da Áustria com ajuda de Niki Lauda (Johannes Heinrichs) para balançar após a corrida.
O ponto baixo do episódio é que Rubens Barrichello (João Maestri) e Michael Schumacher, grande rival de Senna na temporada de 1994, são praticamente ignorados.
A série termina com imagens da imensidão na rua para o velório de Senna e fotos reais da vida do piloto ao som de “The Best”, de Tina Turner. Difícil não se emocionar.
O balanço geral da série é muito bom, emocionante e consegue retratar bem o herói brasileiro. A atuação excelente de Gabriel Leone, que imita até os mínimos trejeitos de Senna e a caracterização dos personagens são os pontos altos. Já o ponto baixo é a rapidez da história, que acaba deixando detalhes importantes da vida do piloto de fora.
A série, quem sabe, pode ajudar a trazer de volta o brilho que o automobilismo e a Fórmula 1 traziam para os brasileiros. Isso pois, Ayrton Senna era o melhor e continua sendo um herói, um ídolo e uma inspiração que viverá para sempre em nossos corações. Senna Sempre!
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O texto acima foi editado por Eduarda Lessa.
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