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Para Além Dos Palcos: Atores Revelam O Impacto Da Falta De Teatro Na Pandemia

Em março de 2020, o estado de São Paulo e logo todo o Brasil entrou em quarentena, buscando conter o avanço da pandemia da Covid-19. Um ano depois, essa doença teria ceifado cerca de 490 mil vidas.

O teatro, assim como outras artes, foi extremamente afetado  – com os ensaios interrompidos e os espetáculos, quando possível, transportados para o online. Pandemia e lives, tudo à distância, fez com que o universo teatral se despedisse dos palcos, sem data para voltar.

Pedro Cantelli, de 19 anos, é ator na Escola de Teatro Musical Teen Broadway, desde os onze. Com passagens na Cultura Inglesa, Pedro, que também é estudante de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, foi idealizador do projeto “Despertar” –  grupo de teatro musical da instituição. Na área há muitos anos, já foi ator e diretor de peças.  Por isso, comentou como se adaptou à condição imposta pelo isolamento social.

“Teatro, cinema, todas essas áreas foram muito afetadas durante a pandemia. E acho que teatro, principalmente, porque é vivo, né? Cinema a gente filma uma cena, uma hora ou outra e em algum momento cê precisa ter um filme. Mas o teatro é um trabalho com pessoas. Então acho que no início foi muito difícil principalmente ver tantos profissionais desempregados, né? Porque o teatro não envolve só os atores: envolve toda a produção, parte técnica, de luz, de som, camareiros…”, comentou sobre o impacto inicial da quarentena.



Além dos ensaios, o ator estava fazendo um curso complementar sobre o assunto, que teve que ser completamente adaptado ao contexto virtual. Para ele, foi muito mais complicado fazer tudo atrás de uma tela e de uma câmera, principalmente no que se diz respeito a repassar os textos e as falas propostas. Além dos ensaios, algumas peças tiveram que ser apresentadas por meio de plataformas de vídeo. Pedro considera ensaiar online mais tranquilo do que apresentar em si. 

“Vi algumas peças online também e nunca é a mesma coisa do que  ver ao vivo, né? Porque, obviamente, tem toda uma questão de luz, cenário, o palco em si, o espaço onde você está. Os ensaios  acabam sendo mais fáceis do que as peças, pelo menos pra mim”, opina.

Além de Pedro, Giulia Zerbinato, de 18 anos, é atriz desde os nove e está desde os 13 anos em uma academia especializada na área, a Allegresse Dança&Arte – estrelando peças como “O rei do show”, “A Bela e a Fera” e “Mean Girls”. Agora, está ensaiando para o papel principal de “Glee”, que de acordo com ela, será apresentado de forma presencial. “Em março de 2020, quando a quarentena de fato começou, todo mundo acabou ficando meio perdido. A minha escola de teatro musical optou por continuar as aulas on-line, em encontros no zoom. Foi uma loucura, pois estávamos ensaiando uma apresentação que estrearia em julho e mal sabíamos que isso não ia ser possível de fazer presencialmente. As aulas de canto aconteciam com todos de microfone fechado e só a professora falando.  No teatro às vezes rolavam umas dinâmicas mais legais e nas aulas de dança também”, explica, sobre a adaptação dos ensaios.

Os dois atores sentiram muito a adaptação. O teatro é, além de tudo, emoção e  arte. A falta de olhar e de contato humano é um dos maiores pilares de tudo, desde a preparação até o produto final. “A maior dificuldade é que você não está  interagindo fisicamente com alguém, você está falando com uma câmera. Acho que é tudo mais difícil, não tem tanta troca e uma das coisas que sou mais apaixonado no teatro são essas trocas. Poder olhar no olho, sentir o clima da cena, presencialmente é mais intenso, mais bonito”, relata Pedro.


Coronavirus
Unsplash

Giulia, que ficou grande parte da sua vida nos palcos, divide o mesmo sentimento. “O teatro é uma arte muito viva, depende muito do toque e da interação cara a cara: fazer teatro sem poder encostar em alguém me parecia ser impossível. No final, acabamos por fazer uma Live Show On Broadway online mesmo, que foi uma grande live reunindo o trabalho daquele semestre. O resultado foi incrível e conseguimos sentir um pouco a falta que um palco faz”, diz.

A arte foi afetada na pandemia de todas as formas. Quanto aos investimentos governamentais, cerca de R$10 milhões de gastos deixaram de ser destinados ao ramo, de acordo com informações divulgadas pelo G1. Essas academias, se garantem, em grande parte, com o auxílio do público – por isso, toda essa transição afeta de forma total. Mas, como os dois atores afirmam, o impacto maior é principalmente para quem está envolvido de forma direta. 

Na pandemia, com pessoas mais reclusas e sem tanto contato com o mundo exterior, doenças psicológicas, como a ansiedade e depressão, tiveram um grande pico. Estima-se que cerca de 30% dos brasileiros foram acometidos pelos transtornos nos últimos dez anos, de acordo com o Hospital Santa Mônica, em São Paulo, com um agravamento maior pela situação enfrentada em 2020 .  

Além disso, pesquisas divulgadas pela Revista Medicina Integrativa comprovam que a arte, seja na música, dança ou teatro é uma grande inibidora de problemas como esse. Há processos de tratamentos psicológicos que adotam, inclusive, métodos de arteterapia. O teatro se inclui nisso, uma vez que ele busca trazer uma nova perspectiva, tanto para quem atua quanto para quem assiste.

“O teatro é uma fuga da realidade absurda. Eu conheço pessoas na minha escola que querem ficar o dia inteiro ensaiando para poderem esquecer os problemas que tem em casa, na escola etc. Acho que principalmente agora, nesse cenário pandêmico, a arte ajuda a gente a continuar, a ter esperança e poder fazer algo diferente da rotina comum. E para quem assiste, é mágico: uma peça, quando bem feita, também é um escape e permite que a pessoa experiencie sensações fora do cotidiano dela”, explica Giulia, de acordo com um ponto de vista de vivência com situações como essa.


Ivan Samkov via Pexels

“O teatro consegue passar uma mensagem de diferentes formas. O que acho lindo é que conseguimos manter essa arte viva, mesmo que não seja da melhor forma”, opina Pedro. “As mensagens continuam sendo passadas. No teatro, você coloca o que quiser. É tudo muito livre. É uma revolução, uma manifestação, é gente gritando, passa todas as mensagens, descontentamentos com a política e o governo. É arte e acho que toda forma de arte comunica, questiona, critica, seja teatro, pintura, escultura, cinema, dança…Tudo tem um significado e nesse momento que estamos sem perspectiva e o governo não ajuda, ter isso forte ainda dentro da gente é de extrema importância”, conclui, associando a capacidade do teatro ir além das pessoas e sim para causas sociais, tão ascendentes no momento.

   Assim, a arte é uma grande aliada para lidar com o acúmulo de informações e debates sobre temas muitas vezes geradores de gatilhos, principalmente ao tratar de doenças psicológicas. Por causa disso, o teatro surge nesse meio: como um grande apoio para lidar com o lado mais complicado da realidade.

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The article above was edited by Luíza Fernandes.

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Izabella Giannola

Casper Libero '23

Izabella is a student of journalism at Cásper Libero. She is passionate about sports, fashion, literature and life. She dreams of representing the power of women in journalism by doing what she loves most.
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