Se encerra mais uma edição da São Paulo Fashion Week (SPFW 2026), refletindo uma virada profunda nas narrativas visuais da moda nacional. Em uma organização que se recusa cada vez mais a obedecer ao calendário comercial demarcado, a temporada idealiza o desfile não apenas como uma vitrine de peças, mas como um manifesto. Entre a provocação da atemporalidade, a cenografia imersiva e o resgate da memória afetiva, a semana de moda provou que o design brasileiro encontrou na diversidade a sua maior força.
A nova face do boho nas mãos de Herchcovitch
A abertura da temporada deu início, sob o comando de Alexandre Herchcovitch, com uma coleção que rompeu com a distinção tradicional de estações, apostando em uma utilidade versátil que ignora a dicotomia entre verão e inverno. Mas, a grande virada esteve na desconstrução de uma das maiores tendências do ano: o estilo boho. Distante da zona de conforto, Herchcovitch apresentou uma alfaiataria urbana, gótica-romântica e fetichista, onde rendas encorpadas, transparências e drapeados dramáticos deram uma pegada sensual e estruturada à estética.
Essa mesma redefinição do boho surgiu no desfile da Hisha, que revelou a tendência com uma óptica sofisticada e contemporânea. A marca trabalhou com fluidez, contrastando com cristais e pedrarias, provando que o estilo desfez com o imaginário hippie chic.
A moda como espetáculo: Forca Studio e Lilly Sarti
A cenografia assumiu o papel de transformar a passarela em um manifesto visual. O contraponto mais intrigante da semana de moda esteve entre Forca Studio e Lilly Sarti — dois extremos que desenharam a pluralidade do espetáculo nesta edição.
A Forca Studio trouxe a crítica visual ao colocar carros integrados à passarela, criando uma atmosfera acelerada e de forte apelo ao punk. A estética automotiva e industrial serviu como cenário para uma coleção de recortes afiados, couro e a atitude transgressora, retratando o espírito de contracultura e a velocidade da metrópole. Em contraste, a Lilly Sarti apostou no luxo sutil e na elegância: ao som de um piano ao vivo na sala de desfile, a marca conduziu o público por um momento de puro intimismo.
A identidade brasileira na passarela
Em um momento de valorização do patrimônio cultural do país, a moda brasileira olhou para a própria história com preciosismo e afeto. A exaltação dos ícones nacionais encontrou espaço nas narrativas de Dário Mittmann e Amir Slama, mostrando como a brasilidade pode fugir do caricato para ganhar contornos de alta criatividade.
Dário Mittmann comoveu ao transmitir os 60 anos da Turma da Mônica em uma coleção ultrapop, punk e clubber. O estilista incorporou os traços dos quadrinhos de Maurício de Sousa a modelagens arrojadas, provando que a cultura pop nacional possui um potencial acervo e poder de narrativa fashion. Já Amir Slama prestou uma homenagem a Carmen Miranda e retoma sua estreia na semana de moda de Nova York, resgatando o tropicalismo e a potência do beachwear brasileiro, através de estampas sofisticadas, babados dramáticos e a pele como expressão. O resultado foi uma exaltação ao legado criativo e vibrante da identidade visual brasileira.
Cristais, gravatas e óculos: as tendências de styling que dominaram a edição
Para além das grandes narrativas, a atenção minuciosa aos detalhes também se revelou na escolha das microtendências de acabamento e beleza. Através do uso de texturas, acessórios e intervenções pontuais, marcas e estilistas demonstraram como os acabamentos são capazes de transformar o tom de uma coleção.
O brilho tecnológico da Artemisi
Referência em design futurista, a marca impressiona pelo trabalho detalhista em aplicação de cristais e pedrarias. As peças ganharam contornos esculturais e tridimensionais, pensadas para o impacto visual, com muitas horas de trabalho manual e ajuda também de impressão 3D.
As gravatas por João Pimenta
Mestre na desconstrução da alfaiataria masculina, o estilista transformou a gravata no elemento central do seu styling, multiplicando o acessório em sobreposições, amarrações e criações inéditas.
Os óculos da Sou de Algodão + Ronaldo Fraga
A marca destacou a força dos acessórios de rosto ao colocar como complemento indispensável dos looks, provando que o styling de acessórios é parte integrante da escultura do corpo na passarela.
O legado da temporada
A SPFW 2026 se encerra deixando uma lição — o design criativo brasileiro não precisa se encaixar em fórmulas internacionais ou limitações sazonais. Entre a provocação da coleção sem estação de Herchcovitch, as manifestações visuais de impacto e o resgate afetuoso da memória cultural do nosso país, a edição consagra uma moda lúdica, plural e plenamente revolucionária.
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The article above was edited and translated by Ana Beatriz Carvalho Sapata.
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