It is a illustration of a girl.

Opinião | Descobertas da Quarentena

Você provavelmente deve ter lido título desta coluna e pensado: “Ah não, vai ser mais um daqueles discursos sobre como a pandemia veio para nos mostrar o valor de estarmos com outras pessoas, a ser mais gentis e valorizar o momento, etc…”.

Caro leitor, sinto muito, mas o que vem a seguir não tem nada a ver com isso. É quase um desabafo, um relato de uma jovem comunicativa e hiperativa que já está a mais de 60 dias dentro de um pequeno apartamento.

Lembram de março? O começo de tudo? 

Pois bem, na semana em que descobri que ficaria 24 horas em casa por tempo indeterminado, sem poder sair para nada, eu dei uma leve surtada. Todo bom surtado sabe que, quando você está neste estado disfórico de surto, todas as suas energias são voltadas para nutrir os pensamentos desastrosos de seu cérebro e deixá-los fortes o suficiente para correrem uma maratona pelo seu inconsciente, te deixando acordado a noite toda e paranoico. Assim, seu corpo não tem energia para nada e você fica frequentemente cansado.

Por consequência, tudo o que eu queria e conseguia fazer neste primeiro momento era assistir séries que eu havia deixado pela metade, comer besteira e chorar. Logo, isso se tornou insuficiente. As séries acabaram, comecei a me culpar por estar muito parada e fiquei entediada com tudo.

Foi então que decidi tentar me maquiar. Ninguém ia ver mesmo, então não tinha com o que me preocupar se desse errado... Logo, comecei a treinar estilos que nunca pensei que realmente faria. Agora eu tinha coragem de fazer maquiagens mais conceituais, artísticas e estava gostando do resultado delas. Esse mesmo pensamento de "ninguém vai ver" me motivou a cortar meu próprio cabelo quando se tornou difícil enxergar devido ao tamanho da minha franja. Afinal, ninguém ia ver… Deu - parcialmente - certo e acabei até divulgando o resultado. 

O passo seguinte foi me permitir a escrever mais e divulgar meus textos em revistas literárias, sem medo de críticas. Dessa vez o pensamento foi: talvez, se não for agora, nunca será! Neste quesito, devo agradecer à duas pessoas: ao meu professor de Língua Portuguesa, Heitor Ferraz, que mandou uma atividade para escrevermos poesias no estilo Oswaldiano - algo que me tirou da trava criativa; e à minha amiga Laura Navarro, que me incentivou a mostrar meus textos para o mundo.

Mais uma de minhas auto-permissões foi reservar um tempo para aprender coisas alheias à faculdade. Descobri um interesse enorme em estudar Wicca, algo que gerou alguns desentendimentos aqui em casa, mas que eu queria tanto entender, que não liguei para o resto. Decidi aprender a bordar também, comprei bastidores e ganhei todo o resto dos materiais da dona Márcia Guilge, minha orgulhosa avó.

Passei a conversar com diversas pessoas pelas redes sociais e elas também me contavam suas descobertas: alguns tinham aprendido a cozinhar, outros terminado de ler aquele livro que sempre procrastinavam, meus pais e avós, por exemplo, começaram a montar quebra-cabeças. Acho que todo mundo se permitiu a fazer coisas novas para não pirar com todo o contexto enlouquecedor de nosso país e aprender a viver de uma maneira diferente, pelo menos por um tempo. 

Então, talvez uma herança boa deste período em que vivemos seja, justamente, esse pensamento do fazer agora, pois pode ser que nunca mais faça. Por que se restringir ao que os outros pensam e julgam? Por que se restringir a uma mesmice? Por que não experimentar de tudo um pouco e ampliar o seus horizontes?  Por que não quebrar preconceitos e primeiras impressões sem medo de ser julgado volátil?

Nossa vida é efêmera, frágil como um copo de cristal, por que não aproveitar ao máximo ? Claro, temos nossas responsabilidades e deveres, mas não se pode viver só disso. 

Bem, encerro este texto falando da minha mais recente permissão: assistir doramas coreanos, que eu sempre criticava e menosprezava, mas, não é que eles tem umas histórias interessantes? Fiquei impressionada! Obrigada Milena de Mazzi pelas indicações, estão valendo a pena.

E você? O que se permitiu fazer nessa quarentena?

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Esta matéria foi editada por Laura Ferrazzano

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