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O que as madrastas das princesas da Disney nos ensinam sobre a maternidade não biológica?

Gabriela Tortora Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Quem nunca teve medo da madrasta da Branca de Neve? De cabelo negro impecável, olhar penetrante e uma voz sempre carregada de desprezo, ela foi por anos o arquétipo da vilã absoluta. Ao longo das décadas, a Disney nos apresentou uma galeria de madrastas que parecem sair de um manual de perversidade: manipuladoras, invejosas e até assassinas.

Mas, e se olharmos por outro ângulo? O que essas figuras, tradicionalmente detestáveis, revelam sobre o olhar da sociedade para as mulheres que maternam sem laço sanguíneo?

Nesta matéria, mergulhamos no universo das madrastas das princesas Disney para desconstruir clichês e explorar o impacto dessas narrativas na formação do imaginário coletivo.

POR TRÁS DA MAÇÃ: POR QUE AINDA TEMOS MEDO DAS MADRASTAS?

A palavra “madrasta” ainda carrega um peso que outras poucas carregam. Ao dizê-la em voz alta, parece que evocamos algo sombrio, como se fosse sinônimo de frieza, rivalidade e ameaça. E, na cultura pop, ninguém reforçou mais essa imagem do que a empresa do Mickey. Desde sua primeira princesa, a Branca de Neve, até reinvenções mais modernas, como em Encantada, a figura da madrasta foi consolidada como a principal antagonista da infância de milhares de meninas.

Mas e se, por trás da capa preta, da torre escura e do espelho que tudo vê, existissem pistas sobre a experiência invisível e profundamente humana de mulheres que tentaram exercer a maternidade à sua maneira, mesmo que sem acertos ou redenção?

Este texto não é uma defesa da vilania. É um convite ao olhar mais atento. Porque, se a arte imita a vida, talvez essas personagens da Disney não sejam apenas o que parecem. Possivelmente elas sejam espelhos distorcidos de algo real: a solidão, o medo e a complexidade da relação com madrastas, em um mundo que ainda insiste em vê-las como intrusas.

A MADRASTA COMO FIGURA SIMBÓLICA: O QUE ELA REPRESENTA?

Se olharmos com atenção, a figura da madrasta na Disney não é apenas uma personagem: ela é um símbolo. Uma metáfora viva para tudo aquilo que desafia a maternidade tradicional. A madrasta é o que foge da norma, o que incomoda, o que não se encaixa. Ela carrega em si a tensão entre o afeto e o lugar social que lhe é negado e, por isso, tantas vezes transforma essa dor em rigidez, controle ou até crueldade.

Mas o que é mais interessante é perceber como elas quase nunca são construídas como “más” por natureza. Elas são maléficas por contexto. São mulheres que perderam, que foram preteridas, que vivem à sombra de algo que não podem controlar, seja o amor de um marido por uma filha, o fantasma de uma mulher morta, até mesmo a sensação de que nunca serão “suficientes” para ocupar um lugar de mãe.

E o mais inquietante: não são poucas as mulheres reais que se sentem assim, mesmo dentro de lares onde tentam dar o seu melhor.

LADY TREMAINE: O PESO DE NÃO SER A ESCOLHIDA

A madrasta da princesa Cinderela, Lady Tremaine, não precisa de feitiços para ferir. Seu maior poder é o desprezo. Ela observa em silêncio, fala baixo, impõe com o olhar. Mas, por trás da frieza, há algo que costuma passar despercebido: ela também está em luto.

A mulher casa-se com um homem viúvo, coloca suas duas filhas em uma nova família e, de repente, vê-se competindo com a memória de uma mulher idealizada, a mãe morta de Cinderela. Não importa o quanto tente reorganizar aquela casa: ela sempre será “a outra”. E Cinderela, com sua doçura quase irreal, parece lembrar o tempo inteiro do que não se pode mais ter.

Sim, Tremaine é cruel. Mas talvez sua crueldade seja uma forma de dizer: “ninguém me escolheu”. O que podemos aprender com ela é, justamente, a importância do reconhecimento: nenhuma mulher tem espaço para cuidar se é tratada como sombra. Nenhuma relação pode florescer se uma das partes é invisibilizada.

GOTHEL: O INSTINTO QUE VIRA CÁRCERE

Enrolados é uma animação sobre liberdade. Mas também é, de forma desconcertante, sobre o tipo de maternidade que aprisiona. Gothel, que rouba Rapunzel e a cria como filha em uma torre isolada, é possivelmente a personagem que mais se aproxima da complexidade real de muitas relações familiares.

Ela não quer a jovem morta. Quer seu poder, sim, mas também seu afeto. Em muitos momentos, parece ser uma mãe comum, exceto pelo fato de que sequestrou sua filha e mente para ela todos os dias.

Mas e se pensarmos em Gothel como um espelho de relações em que o amor é confundido com posse? Mães que controlam, sufocam, impedem o crescimento. Mulheres que se sentem ameaçadas pelo amadurecimento das filhas. No fundo, Gothel revela um medo primitivo: o de ser deixada para trás.

Ela não mostra a maternidade não biológica como algo errado, mas como algo que merece atenção. Porque maternar não é manter perto a qualquer custo. É criar asas, não grades. E o que aprendemos com ela é que não basta assumir um papel: é preciso entender a responsabilidade emocional que ele implica.

A RAINHA MÁ: QUANDO A BELEZA VIRA MOEDA DE AFETO

Ela é talvez a vilã mais icônica da Disney. A Rainha Má de Branca de Neve tem nome apenas nos bastidores (Grimhilde), e seu maior terror é uma pergunta: “Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais bela do que eu?”.

“O que isso tem a ver com maternidade não biológica?” Tudo.

A Rainha não odeia Branca porque ela é má. Ela a odeia porque a moça representa juventude, pureza e uma ameaça direta ao seu posto de mulher admirada. O afeto, nesse caso, está diretamente ligado à aparência — e à posição que ocupam em relação ao olhar do rei e da corte.

Ela pode ser pensada em uma mulher que, ao se casar com um homem viúvo, viu-se obrigada a disputar espaço com uma filha que não deu à luz. Que teve que se encaixar em uma estrutura que não a acolheu como cuidadora, mas como intrusa.

O que ela nos mostra, ainda que pelos caminhos tortos, é que o medo de não ser suficiente é real. Que o amor, quando condicionado à perfeição, torna-se perigoso. E que não ser a mãe biológica exige uma segurança emocional que nem toda mulher recebeu em sua história.

A madrasta do LIVE-ACTION: REPENSANDO ARQUÉTIPOS

Em adaptações mais recentes dos estúdios Disney, como os live-actions e releituras contemporâneas, há uma tentativa sutil de humanizar essas figuras. O próprio remake de Branca de Neve, estreado com uma nova abordagem, tem levantado debates sobre como tratar a madrasta sem reforçar a rivalidade feminina.

Afinal, por que a madrasta sempre precisa ser contra a enteada? Por que toda adulta precisa ser uma ameaça as jovens? Essas perguntas revelam que o que está em jogo não é só a relação madrasta-filha, mas o modo como a cultura nos ensinou a temer o envelhecimento feminino, o poder e a presença feminina fora dos padrões biológicos.

REESCREVENDO O CONTO DE FADAS: O FUTURO É DAS MADRASTAS REAIS

Segundo dados do IBGE, o número de famílias reconstituídas no Brasil só cresce. E junto com ele, aumenta a quantidade de mulheres que ocupam o papel de madrasta, muitas vezes, sem sequer serem chamadas assim. São mulheres que buscam um equilíbrio quase impossível: cuidar sem ultrapassar, amar sem invadir, existir sem competir.

Esse amor que só existe nos bastidores é uma forma de maternidade não reconhecida e é exatamente por isso que vale a pena olhar para essas mulheres com mais empatia. A Disney nos mostrou suas sombras. A vida real nos mostra sua luz.

Hoje, novas narrativas vêm sendo construídas. Em filmes como Malévola, por exemplo, vemos uma tentativa clara de reverter esse estigma: uma personagem que começa como vilã, mas encontra redenção justamente na experiência de cuidar de Aurora, uma menina que não é sua filha, mas que ela aprende a amar com uma intensidade visceral.

Malévola não é uma madrasta formal, mas é uma madrinha com potência materna. E isso diz muito sobre o novo lugar que a maternidade não biológica pode ocupar: uma possibilidade legítima, em que o amor não nasce do útero, mas da convivência, do tempo e do afeto que não precisa ser perfeito, apenas honesto.

Talvez o maior ensinamento das madrastas da Disney seja este: que o amor, quando negado, pode se tornar dor. Mas que, mesmo nas histórias mais distorcidas, há uma verdade que espera ser resgatada. Que toda mulher que ousa amar um filho que não é seu desafia o conto de fadas e pode escrever, na vida real, um final muito mais bonito.

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O artigo acima foi editado por Mariana Garcia.

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I’m Gabriela Tortora, a 19-year-old Journalism student at Cásper Líbero. I’m passionate about books and sports, and I truly believe that words have the power to transform, inspire and connect people. As Victoria Schwab writes in The Invisible Life of Addie LaRue, I believe in living countless lives through stories — and in sharing those stories with the world. ♡