Quem nunca teve medo da madrasta da Branca de Neve? De cabelo negro impecável, olhar penetrante e uma voz sempre carregada de desprezo, ela foi por anos o arquétipo da vilã absoluta. Ao longo das décadas, a Disney nos apresentou uma galeria de madrastas que parecem sair de um manual de perversidade: manipuladoras, invejosas e até assassinas.
Mas, e se olharmos por outro ângulo? O que essas figuras, tradicionalmente detestáveis, revelam sobre o olhar da sociedade para as mulheres que maternam sem laço sanguíneo?
Nesta matéria, mergulhamos no universo das madrastas das princesas Disney para desconstruir clichês e explorar o impacto dessas narrativas na formação do imaginário coletivo.
POR TRÁS DA MAÇÃ: POR QUE AINDA TEMOS MEDO DAS MADRASTAS?
A palavra “madrasta” ainda carrega um peso que outras poucas carregam. Ao dizê-la em voz alta, parece que evocamos algo sombrio, como se fosse sinônimo de frieza, rivalidade e ameaça. E, na cultura pop, ninguém reforçou mais essa imagem do que a empresa do Mickey. Desde sua primeira princesa, a Branca de Neve, até reinvenções mais modernas, como em Encantada, a figura da madrasta foi consolidada como a principal antagonista da infância de milhares de meninas.
Mas e se, por trás da capa preta, da torre escura e do espelho que tudo vê, existissem pistas sobre a experiência invisível e profundamente humana de mulheres que tentaram exercer a maternidade à sua maneira, mesmo que sem acertos ou redenção?
Este texto não é uma defesa da vilania. É um convite ao olhar mais atento. Porque, se a arte imita a vida, talvez essas personagens da Disney não sejam apenas o que parecem. Possivelmente elas sejam espelhos distorcidos de algo real: a solidão, o medo e a complexidade da relação com madrastas, em um mundo que ainda insiste em vê-las como intrusas.
A MADRASTA COMO FIGURA SIMBÓLICA: O QUE ELA REPRESENTA?
Se olharmos com atenção, a figura da madrasta na Disney não é apenas uma personagem: ela é um símbolo. Uma metáfora viva para tudo aquilo que desafia a maternidade tradicional. A madrasta é o que foge da norma, o que incomoda, o que não se encaixa. Ela carrega em si a tensão entre o afeto e o lugar social que lhe é negado e, por isso, tantas vezes transforma essa dor em rigidez, controle ou até crueldade.
Mas o que é mais interessante é perceber como elas quase nunca são construídas como “más” por natureza. Elas são maléficas por contexto. São mulheres que perderam, que foram preteridas, que vivem à sombra de algo que não podem controlar, seja o amor de um marido por uma filha, o fantasma de uma mulher morta, até mesmo a sensação de que nunca serão “suficientes” para ocupar um lugar de mãe.
E o mais inquietante: não são poucas as mulheres reais que se sentem assim, mesmo dentro de lares onde tentam dar o seu melhor.
LADY TREMAINE: O PESO DE NÃO SER A ESCOLHIDA
A madrasta da princesa Cinderela, Lady Tremaine, não precisa de feitiços para ferir. Seu maior poder é o desprezo. Ela observa em silêncio, fala baixo, impõe com o olhar. Mas, por trás da frieza, há algo que costuma passar despercebido: ela também está em luto.
A mulher casa-se com um homem viúvo, coloca suas duas filhas em uma nova família e, de repente, vê-se competindo com a memória de uma mulher idealizada, a mãe morta de Cinderela. Não importa o quanto tente reorganizar aquela casa: ela sempre será “a outra”. E Cinderela, com sua doçura quase irreal, parece lembrar o tempo inteiro do que não se pode mais ter.
Sim, Tremaine é cruel. Mas talvez sua crueldade seja uma forma de dizer: “ninguém me escolheu”. O que podemos aprender com ela é, justamente, a importância do reconhecimento: nenhuma mulher tem espaço para cuidar se é tratada como sombra. Nenhuma relação pode florescer se uma das partes é invisibilizada.
GOTHEL: O INSTINTO QUE VIRA CÁRCERE
Enrolados é uma animação sobre liberdade. Mas também é, de forma desconcertante, sobre o tipo de maternidade que aprisiona. Gothel, que rouba Rapunzel e a cria como filha em uma torre isolada, é possivelmente a personagem que mais se aproxima da complexidade real de muitas relações familiares.
Ela não quer a jovem morta. Quer seu poder, sim, mas também seu afeto. Em muitos momentos, parece ser uma mãe comum, exceto pelo fato de que sequestrou sua filha e mente para ela todos os dias.
Mas e se pensarmos em Gothel como um espelho de relações em que o amor é confundido com posse? Mães que controlam, sufocam, impedem o crescimento. Mulheres que se sentem ameaçadas pelo amadurecimento das filhas. No fundo, Gothel revela um medo primitivo: o de ser deixada para trás.
Ela não mostra a maternidade não biológica como algo errado, mas como algo que merece atenção. Porque maternar não é manter perto a qualquer custo. É criar asas, não grades. E o que aprendemos com ela é que não basta assumir um papel: é preciso entender a responsabilidade emocional que ele implica.
A RAINHA MÁ: QUANDO A BELEZA VIRA MOEDA DE AFETO
Ela é talvez a vilã mais icônica da Disney. A Rainha Má de Branca de Neve tem nome apenas nos bastidores (Grimhilde), e seu maior terror é uma pergunta: “Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais bela do que eu?”.
“O que isso tem a ver com maternidade não biológica?” Tudo.
A Rainha não odeia Branca porque ela é má. Ela a odeia porque a moça representa juventude, pureza e uma ameaça direta ao seu posto de mulher admirada. O afeto, nesse caso, está diretamente ligado à aparência — e à posição que ocupam em relação ao olhar do rei e da corte.
Ela pode ser pensada em uma mulher que, ao se casar com um homem viúvo, viu-se obrigada a disputar espaço com uma filha que não deu à luz. Que teve que se encaixar em uma estrutura que não a acolheu como cuidadora, mas como intrusa.
O que ela nos mostra, ainda que pelos caminhos tortos, é que o medo de não ser suficiente é real. Que o amor, quando condicionado à perfeição, torna-se perigoso. E que não ser a mãe biológica exige uma segurança emocional que nem toda mulher recebeu em sua história.
A madrasta do LIVE-ACTION: REPENSANDO ARQUÉTIPOS
Em adaptações mais recentes dos estúdios Disney, como os live-actions e releituras contemporâneas, há uma tentativa sutil de humanizar essas figuras. O próprio remake de Branca de Neve, estreado com uma nova abordagem, tem levantado debates sobre como tratar a madrasta sem reforçar a rivalidade feminina.
Afinal, por que a madrasta sempre precisa ser contra a enteada? Por que toda adulta precisa ser uma ameaça as jovens? Essas perguntas revelam que o que está em jogo não é só a relação madrasta-filha, mas o modo como a cultura nos ensinou a temer o envelhecimento feminino, o poder e a presença feminina fora dos padrões biológicos.
REESCREVENDO O CONTO DE FADAS: O FUTURO É DAS MADRASTAS REAIS
Segundo dados do IBGE, o número de famílias reconstituídas no Brasil só cresce. E junto com ele, aumenta a quantidade de mulheres que ocupam o papel de madrasta, muitas vezes, sem sequer serem chamadas assim. São mulheres que buscam um equilíbrio quase impossível: cuidar sem ultrapassar, amar sem invadir, existir sem competir.
Esse amor que só existe nos bastidores é uma forma de maternidade não reconhecida e é exatamente por isso que vale a pena olhar para essas mulheres com mais empatia. A Disney nos mostrou suas sombras. A vida real nos mostra sua luz.
Hoje, novas narrativas vêm sendo construídas. Em filmes como Malévola, por exemplo, vemos uma tentativa clara de reverter esse estigma: uma personagem que começa como vilã, mas encontra redenção justamente na experiência de cuidar de Aurora, uma menina que não é sua filha, mas que ela aprende a amar com uma intensidade visceral.
Malévola não é uma madrasta formal, mas é uma madrinha com potência materna. E isso diz muito sobre o novo lugar que a maternidade não biológica pode ocupar: uma possibilidade legítima, em que o amor não nasce do útero, mas da convivência, do tempo e do afeto que não precisa ser perfeito, apenas honesto.
Talvez o maior ensinamento das madrastas da Disney seja este: que o amor, quando negado, pode se tornar dor. Mas que, mesmo nas histórias mais distorcidas, há uma verdade que espera ser resgatada. Que toda mulher que ousa amar um filho que não é seu desafia o conto de fadas e pode escrever, na vida real, um final muito mais bonito.
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O artigo acima foi editado por Mariana Garcia.
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