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O que aprendi com a minha mãe (e só entendi depois dos 20)

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Giovanna Rodrigues Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Nunca esqueço do dia em que li minha primeira palavra sozinha. Entre todas as pessoas presentes, foi a minha mãe quem vibrou mais alto. Emocionada e alegre, ela repetia: “Ela leu! Ela leu sozinha pela primeira vez!”. O sorriso no rosto era o de quem sabia que estava fazendo um bom trabalho.

Não sou muito boa de memória quando o assunto é infância — essa fase tão gostosa da vida, mas que passa rápido diante da mulher que nos carregou no ventre por nove meses. Ainda assim, quando me perguntam sobre essa época, a maioria das lembranças envolve ela. Nossas idas ao cinema. A primeira Barbie que ela lutou para me dar. As tardes tomando café. O primeiro livro que recebi dela — e que até hoje é o meu favorito. As vezes em que eu a acompanhava à faculdade, enquanto ela estudava e, mesmo cansada, me acolhia com tanto amor.

Mãe jovem, mulher forte

Minha mãe foi mãe cedo — o que, longe de torná-la menos mãe, fez dela ainda mais sábia. Aos 20 anos, com uma faculdade para terminar e uma filha pequena no colo, ela carregou o mundo nas costas. Hoje, formada em Biomedicina e cursando sua segunda graduação, em Odontologia, me convidou para ser sua madrinha na cerimônia do jaleco. Foi aí que eu entendi: nunca é tarde para correr atrás daquilo que faz nossos olhos brilharem.

Falar dela é falar sobre amor, amizade e alegria. Claro que tivemos nossos altos e baixos, como toda relação. Mas nada se compara à segurança de confiar, de olhos fechados, naquela que sempre esteve ao meu lado. A verdade é que minha mãe nunca foi aquela figura mandona ou brava que muita gente descreve. Comigo, ela sempre foi apoio, foi ensino, foi exemplo. Nunca duvidei do seu amor.

Livros, músicas e outras heranças afetivas

Lembro bem do dia em que ela apareceu com O Pequeno Príncipe no meio de vários romances adolescentes da Paula Pimenta. Torci o nariz. Achei que seria chato. Naquela época, não tinha muito interesse por livros. Mesmo assim, ela insistiu: “Tenta, só um pouquinho.”


Anos depois, aos 17, já na faculdade de Comunicação, eu era apaixonada por literatura e movida por um amor inexplicável pela arte de comunicar. Hoje, aos quase 21 anos, escrevendo meu TCC e enfrentando uma pilha de dez leituras obrigatórias, agradeço todos os dias por ela ter me inserido tão cedo nesse universo. Aquela leitura “chata” que seria Minha Vida Fora de Série virou o meu maior box na estante, todos autografados pela própria Paula Pimenta, numa sessão em que, claro, minha mãe estava comigo. Ironia? Eu chamo de destino.

Também foi com ela que aprendi a gostar de MPB — hoje, meu estilo musical favorito. Não me canso de dedicar “Exagerado”, do Cazuza, a ela. A trilha sonora da minha vida, desde sempre, tem um pouco da nossa história. Porque amar minha mãe é isso, sentir tudo em dobro, em triplo, sem medida.

Foram muitos os momentos simples que se tornaram especiais. Fazer bolinho de chuva nas tardes frias, sentadas juntas com um café passado na hora e hoje eu entendo — são essas pequenas doçuras da rotina que viram memória afetiva. Cozinhar pra ela, hoje, é o meu jeito de retribuir tanto cuidado.

O dia em que virei adulta

Hoje, morando sozinha há dois anos, entendo muita coisa que a Dona Talita tentou me ensinar e eu não compreendia. Economizar? Pra quê? Ler? Que preguiça. Cozinhar? Que chato. Foi só depois de sair da casa dela que comecei a entender. Entre os conselhos insistentes, tinha aquele clássico: “Você precisa saber fazer mais do que só doce, minha filha.” E eu, teimosa, pensava: “Pra que aprender, se a sua comida já é maravilhosa?”

Saí de casa sabendo fazer arroz, macarrão e estrogonofe. Um pouco além do básico, vai. Mas quando ela voltou pra casa e eu fiquei sozinha… entendi. Não era só sobre arroz, macarrão e estrogonofe. Era sobre saber me virar. Era sobre cuidado. Era sobre amor.

E sobre lavar roupa branca também. Ela sempre reclamava quando eu manchava uma camiseta, e eu nunca entendia o drama. Hoje, lavando minhas próprias roupas, entendo cada bronca e cada “não mistura as cores!”. Mãe avisa — e o tempo ensina.

Foi no dia em que paguei meu primeiro boleto e ainda precisei sorrir no trabalho que entendi: minha mãe nunca foi fria. Ela era forte. Não podia desmoronar. Carregava firmeza no olhar, mesmo nos dias em que o mundo parecia pesado demais. E eu, agora, entendo, e carrego comigo essa força disfarçada de calma. Me ensinou a ser gentil com os outros, mas, principalmente, a ser gentil comigo mesma.

Amor é cuidado silencioso

Minha mãe sempre foi séria e gentil ao mesmo tempo, e eu nunca entendia como ela conseguia ser assim. Porém, nos dias atuais, me olho no espelho e enxergo ela, ou muitas vezes, escuto: “Você é igual a sua mãe, o mesmo jeitinho.” E meu coração se alegra, porque é uma dádiva ser como alguém que tanto admiro.

Foi com ela que aprendi o valor de ser mulher. No ensino médio, ela já me preparava para o mundo real — aquele que não espera a gente crescer. E tudo o que ela ensinou me trouxe até aqui. No último ano do curso de Jornalismo, escrevendo meu TCC sobre a representação das mulheres na mídia, minha mãe é parte essencial dessa construção. Ela sempre esteve lá, apoiando, incentivando, iluminando caminhos.

A mulher que me criou é dessas que acordam cedo, mesmo nos dias de chuva, e saem para fazer outras mulheres se sentirem bonitas. No seu consultório de estética, ela não entrega só procedimentos, ela entrega autoestima. Quando criança, eu a via sorrir para cada paciente, mesmo cansada, e achava aquilo mágico. Hoje, sei o esforço que há por trás. E, principalmente, entendo a beleza de seguir em frente mesmo quando tudo cansa.

Uma inspiração que atravessa o mundo

Foi também com ela que aprendi a amar o mundo e seus caminhos. Juntas, fizemos três viagens para fora do Brasil e muitas outras pelo país. Cada roteiro que ela cria é um capítulo novo da nossa história. A gente se diverte em qualquer lugar, até na fila do aeroporto. É uma das minhas maiores paixões e é algo que compartilho no meu Instagram com orgulho, porque sei de onde veio esse amor por desbravar o novo.

Hoje, perto de fazer 21, o que aprendi com a minha mãe não cabe só num texto. Mas se eu pudesse resumir tudo em uma frase, seria essa: ela me ensinou a ser mulher – e eu só comecei a entender tudo isso depois dos 20.

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O artigo acima foi editado por Gabriela Belchior.

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Giovanna Rodrigues

Casper Libero '22

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