Manter um ambiente pacífico, mediar conflitos e oferecer suporte emocional são algumas das formas mais sutis e, ao mesmo tempo, violentas de opressão de gênero. Na sociedade atual, a pressão misógina revela como esse conceito de harmonia é aplicado na prática, revelando o silêncio forçado das mulheres para manter a harmonia em seus lares. Mas, o questionamento que surge gira em torno de: até que ponto a mente feminina aguenta suportar essa “harmonia”?
A Orquestra do Silêncio
Quando falamos em misoginia estrutural, estamos pensando em uma via de mão dupla que, de um lado exige que a mulher seja a guardiã da moral, do afeto e da calma; e do outro lado, que ela puna severamente qualquer desvio desse roteiro. Segundo os dados mais recentes do IBGE (Pnad Contínua), as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. A exigência de ser o suporte emocional e moral do lar faz com que mais de 30% das mulheres reduzam sua jornada de trabalho remunerado ou abandonem o mercado de trabalho para exercer funções de cuidado.
Essa punição por desvio de rota recai, em casos extremos, em episódios de violência doméstica e feminicídio e, em outros casos, na autocobrança ligada à sobrecarga do cuidado somada à culpa social de “falhar” como mãe, esposa ou profissional. Essa pressão silencia a mulher para além da força física, pelo peso de uma partitura social que a obriga a reger a vida alheia enquanto sua própria vida é anulada.
A normalização do “instinto feminino”
Kate Manne, filósofa e professora norte-americana redefine o conceito de misoginia para além do ódio extremo às mulheres. Ela explica que a sociedade espera que as mulheres deem aos seus companheiros e filhos bens morais (como atenção, admiração, conforto doméstico, validação e harmonia). Quando uma mulher recusa esse papel ou prioriza a si mesma, o sistema reage com hostilidade para forçá-la a voltar a “manter a harmonia”. Mas a grande questão por trás disso é a carga mental que essas mulheres carregam.
Planejar e organizar todas as tarefas de casa e da família vão além de executar tarefas físicas como varrer, limpar e lavar. Trata-se de prever conflitos e cuidar do bem-estar emocional de todos ao redor. Observar isso como um instinto natural, transforma o trabalho exaustivo e contínuo em uma obrigação inata, que passa a fazer parte da rotina no dia a dia de uma mulher. Como resultado, elas passam a enfrentar altos níveis de esgotamento físico e mental, pois raramente recebem o mesmo suporte ou encontram espaço para priorizar a si mesmas.
Quando a existência se torna um fardo pesado até demais: “Estou cansada de morrer um pouco todos os dias”
“Estou cansada de morrer um pouco todos os dias”. Isso é o que argumenta Bruna Camilo, pesquisadora em gênero e assessora do Ministério da Saúde, ao propor, em uma matéria divulgada pela Revista Cult, que a humanidade da mulher não deve ser questionável.
Na sociedade atual pensar nesse tipo de violência é também pensar em memes, vídeos curtos, comentários irônicos e conteúdos aparentemente inofensivos. A hostilidade desses conteúdos que circulam nas redes prova que hostilidade diante a violência de gênero existe e só passa despercebida porque, hoje, alimentamos as redes sociais pela lógica do engajamento.
Ao converter a imagem de uma mulher doméstica em piada, estamos, enquanto sociedade, reduzindo a gravidade da violência e enfraquecendo a empatia coletiva a favor do entretenimento.
A harmonia que a sociedade exalta nos lares não é natural, pelo contrário, o resultado é fruto do esgotamento invisível das mulheres.
O primeiro passo para que essa realidade seja mudada é a escuta. Ouvir como essas mulheres se sentem, como elas se veem obrigadas a ser o pilar emocional e como essa pressão misógina as prendem em quatro paredes.
Este é o primeiro de muitos passos que ainda precisam ser dados dentro das nossas relações para que assim, o discurso da romantização da exaustão da mulher dê lugar à saúde mental.
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The article above was edited and translated by Ana Beatriz Carvalho Sapata.
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