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Casper Libero | Culture > Entertainment

O fenômeno cultural, afetivo e massivo das telenovelas no território latino-americano

Luiza Kellmann Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Com o sucesso recente e estrondoso de Beleza Fatal, – produção da MAX que atingiu o top 1 em 15 países, majoritariamente da América Latina – o saudosismo com a cultura de consumo de telenovelas foi trazido à tona. Inclusive, a própria vice-presidente de Conteúdo e Head de Talentos da Warner Bros, Monica Pimentel, ponderou que “as pessoas sentiam falta de um novelão”. Mas por que isso? Por que tanto apego com as novelas, principalmente os povos latinos? 

A influência das telenovelas no repertório popular é inegável. Elas moldam tendências e comportamentos, tornando-se parte integrante da cultura de massa. 

A forma como as narrativas são construídas, com enredos que, muitas vezes, espelham a realidade latino-americana, permite que o público se identifique e se conecte emocionalmente com as tramas, solidificando ainda mais o papel das telenovelas como um elemento fundamental da cultura de massa no país.

Essa cultura de massa é, no entanto, perigosa. Ao mesmo tempo que comove o corpo social, pode interferir negativamente na nossa percepção sobre nós mesmos.

As raízes das telenovelas 

Quando alguém fala “novelas”, é natural pensar em cenas dramáticas ou personagens específicas materializadas em uma imagem. No entanto, por muito tempo, as vozes na rádio e a imaginação dos espectadores eram os recursos usados para dar vida a elas – sem imagens fixas. 

A radionovela foi o primeiro grande fenômeno de entretenimento em massa na América Latina – e sua herança vive até hoje nas telenovelas que conquistam o público. Tudo começou nos anos 1920 e 1930, quando a rádio não só inventou e popularizou o formato apelativo, mas criou o hábito de acompanhar histórias dia após dia.

Embora esse formato tenha estreado nos Estados Unidos, vale ressaltar que, segundo a roteirista Ana Paula Guedes, as telenovelas originaram-se na América Latina, assim como as radionovelas: “É um produto genuinamente latino-americano, entretanto foi influenciado por uma teia de distintas narrativas e linguagens: o romance europeu do século XIX; o romance folhetim, por jornal, também do século XIX; o romance em folhetim, por entregas, da mesma época, aproximadamente; a radionovela; a fita-em-série norte americana; a dramatização radiofônica de fatos reais; a fotonovela e as histórias em quadrinhos e o melodrama teatral”, afirmou ela.

O formato começou de fato a se consolidar em Cuba, Segundo publicação intitulada “Muito Além do Final Feliz: A Trajetória e a Consolidação da Telenovela como Produto Cultural” de Phillipe Xavier, para a ANAIS, as emissoras cubanas começaram a transmitir os primeiros esboços do que mais tarde seria reconhecido como o “estilo latino-americano de dramaturgia”. 

Mas foi no México que o gênero bombou. As produções do México eram tão impressionantes que conquistaram o público e foram alvos de interesse de adaptações em diversos países da América Latina, na Espanha e nos Estados Unidos.

Em 1935, Félix Caignet, o criador das crônicas radiofônicas de Chan Li Po, lançou El Derecho de Nacer (O Direito de Nascer), que se tornou um verdadeiro fenômeno de audiência. Essa obra não apenas cativou o público, mas também ajudou a definir o que viria a ser a radionovela na América Latina.

Esses impactos internacionais eclodiram no Brasil a partir da década de 40. Em 1941, a primeira radionovela brasileira, “Em Busca da Felicidade”, foi lançada pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

Novidade televisiva

Ainda segundo “Muito Além do Final Feliz: A Trajetória e a Consolidação da Telenovela como Produto Cultural”, com o crescimento da televisão no final da década de 40 e com as primeiras transmissões na novidade que foi a TV, ficou claro que, assim como as rádios, as emissoras começariam a procurar novos meios e materiais para suas programações. Assim, a reconfiguração de radionovelas para o novo formato, telenovelas, tornou-se fato e um marco histórico.

No México, a telenovela inaugural a ser veiculada foi Senda prohibida (Caminho Proibido), lançada em 1958, escrita por Fernanda Villeli e baseada em uma radionovela. A essa obra pioneira, juntaram-se as produções Más allá de la angustia (Além da angústia) e Un paso al abismo (Um passo para o abismo), que ampliaram ainda mais a presença desse gênero na televisão mexicana.

Além disso, a telenovela Los ricos también lloran (Os ricos também choram) – que inspirou a telenovela María la del barrio (Maria do Bairro) -, criada pela Televisa em 1979, representou o início da disseminação das narrativas mexicanas globalmente, chegando até lugares antes considerados difíceis de acessar, como a Europa, Ásia e Oriente Médio.

Em contrapartida, no Brasil, embora tenha começado em 1951 com Sua vida me pertence de Walter Foster – com a Rede Globo como emissora -, e feito sucessos nacionalmente, tal como foi  o caso de Beto Rockfeller (1968),  esse tipo de produção só vingou, globalmente, em 1977 com Escrava Isaura – uma reinterpretação da obra de Bernardo Guimarães feita pelo autor Gilberto Braga. Ela abriu as portas internacionais para o mercado brasileiro.

Nas décadas seguintes, o Brasil se consolidou ainda mais como produtor de novelas, criando histórias icônicas que atraem o público e conseguem sucesso ao redor do mundo. 

Também, destacam-se narrativas como Roque Santeiro (1985), Vale Tudo (1988), Tieta (1989), O Clone (2001) e Avenida Brasil (2012), que exemplificam o potencial do mercado brasileiro para o público externo, visto que a venda dessas produções resultou em novelas brasileiras sendo vistas por espectadores de mais de 100 nações. 

Paralelamente, enquanto a TV Globo ganhava destaque no mercado pelas produções originais, o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT)  apostava em adaptações de novelas argentinas famosas, como Chiquititas (1995), e mexicanas, como La Usurpadora (A Usurpadora, 1999), Carrossel (1989) e Rebelde (2013).

A partir desse momento, as telenovelas foram se moldando às novas tecnologias digitais e alcançaram o formato que vemos atualmente. A televisão por assinatura e as plataformas de streaming, por exemplo, apareceram nos anos 2000, “dominando” o espaço das novelas e promovendo um novo estilo de dramaturgia em forma de séries, mais contemporâneo e digital. 

Assim, progressivamente, em uma guerra cultural, cada país colocou sua “marca” no gênero. Embora a essência tenha continuado a mesma – histórias emocionantes, marcantes e que deixam o público querendo mais – essas produções são moldadas a partir dos valores e ideologias do território produtor e consumidor.

Dessa forma, esse tipo de narrativa audiovisual – que mistura drama, romance e cotidiano – transcende o papel de entretenimento e se tornou, ainda mais, parte da identidade do público.

Culturalização afetiva das telenovelas

Com a intensificação desse fenômeno sociocultural e político, as novelas tornam-se parte de uma cultura afetiva de pertencimento em que há, muitas vezes, a coletivização da experiência: famílias se reúnem para acompanhar as tramas, discutir personagens e reproduzir expressões populares.

De acordo com Jesús Martín-Barbero, antropólogo e filósofo colombiano, parte do motivo pelo qual essas obras se configuram tão sentimentalmente na cultura latino-americana, principalmente, deve-se ao fato de que as telenovelas são agentes no processo de significação e integração de valores afetivos e culturais dos territórios. 

Em outras palavras, as telenovelas têm o poder de influenciar comportamentos e valores. Elas moldam a percepção do público sobre relacionamentos, laços sociais e até mesmo questões políticas. Dessa forma, desenvolve-se a manutenção do que a Sociologia chama de coesão social – o compartilhamento de rituais, símbolos e valores que manifestam a noção de “significação e integração de valores” trazida por Barbero. 

Massificação, clichês e estereótipos

Apesar da contribuição sociocultural das telenovelas, é preciso que a herança cultural negativa seja abordada também: o gênero se expandiu como um produto de massa, moldando percepções internacionais e reforçando estereótipos sociais – principalmente contra latinos. Irônico, já que muitas das produções que contribuíram para isso são latino-americanas.

Segundo o artigo apresentado no congresso da ABRALIC (A Associação Brasileira de Literatura Comparada) em 2016, por Thais Maria Holanda Jerke Sevilla Palomares, foi inevitável que, com as exportações das novelas, muitos dos consumidores globais passassem a “conhecer” a América Latina. O que não é, necessariamente, algo negativo.

Contudo, por anos, as telenovelas refletiam uma imagem distorcida da América Latina, já que, ao mesmo tempo que refletiam aspectos culturais reais, também os simplificava em fórmulas prontas para consumo massivo. 

O resultado disso? A consolidação de estereótipos que atravessaram fronteiras, moldando a imagem dos latino-americanos como exóticos, passionais, essencialmente trabalhadores – ou até criminosos – e atrasados. Embora o gênero tenha evoluído, com produções contemporâneas buscando maior complexidade, o legado dessa massificação ainda pesa sobre como a região é percebida globalmente.

O artigo analisa, inclusive, como a indústria das telenovelas, impulsionada por demandas comerciais, priorizou narrativas que reforçavam clichês facilmente reconhecíveis. O “latinos e/ou pretos ardentes”, a “mulher sofrida e submissa” e o “homem violento e dominador” tornaram-se tão comuns que, em diversas situações, passaram a eclipsar representações mais complexas da realidade. 

A título de exemplo, é possível citar a novela Da Cor do Pecado (2004), que, embora tenha feito sucesso, o próprio título já representa um estereótipo acerca da mulher preta como objeto sexualizado. 

Além disso, as produções de Brasil, México e Venezuela, especialmente durante as décadas de 1980 e 1990, foram propagadas como expressões culturais que promoviam uma noção uniformizada da região — uma América Latina marcada por tonalidades vivas, intensos dramas familiares e moralidades simplificadas.

A pesquisa enfatiza que essa dinâmica estava alinhada a uma lógica mercadológica. Produções como Roque Santeiro (1985) e María la del Barrio (Maria do Bairro,1995) obtiveram êxito internacional precisamente por explorarem contrastes entre ”bem × mal”, reafirmando perspectivas binárias que se faziam presentes em diversas culturas. 

Contudo, ao fazê-lo, também consolidaram uma imagem da região como um espaço de excessos e irracionalidade, onde as questões sociais eram reduzidas a narrativas ao drama, amor e vingança.

Tentativa de redenção televisiva 

Nos últimos anos, entretanto, houveram tentativas de romper com esses padrões. 

Produções como El Señor de los Cielos (O Senhor dos Céus, 2013) ou Onde Nascem os Fortes (2018) trouxeram personagens mais complexos e tramas que dialogavam com questões políticas e históricas reais, ao invés do foco em melodrama.  

Também, há exemplos como Um Lugar ao Sol (2021) – e que a atriz Pathy Dejesus, que deu vida à Ruth, declarou que ficou feliz pois “ela [a personagem] não foi escrita para ser uma mulher preta” – ou a já citada Beleza Fatal (2025), em que não há um estereótipo de mocinha dócil e ingênua.

Ainda assim, como aponta a pesquisa supracitada de 2016, a indústria ainda enfrenta o desafio de equilibrar inovação com as expectativas de um público acostumado a certas convenções. O surgimento de plataformas de streaming, com narrativas mais ousadas e menos vinculadas a formatos tradicionais, pode ser um contraponto, mas a telenovela clássica — agora em declínio — já deixou sua marca na percepção global da identidade latina.

E, considerando a noção de Jesús Martín-Barbero em que as telenovelas são produções culturalmente moldadas para estimular ritual de pertencimento latino, é contundente questionar: como usar as novelas para se integrar em um meio social se o modo de reconhecimento da sociedade latina promovida por elas não contempla a pluralidade e complexidade social?

Há um paradoxo evidente. As telenovelas foram um dos veículos mais poderosos de difusão cultural da América Latina, mas também um dos principais responsáveis por sua caricaturização. A diversidade de enredos e personagens, que refletem a pluralidade da sociedade latino-americana, contribui para a construção de uma identidade cultural rica e multifacetada.

Se hoje assistimos a uma lenta desconstrução desses estereótipos, o caminho ainda é longo para reverter uma imagem que, durante anos, foi vendida como autêntica.

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O artigo acima foi editado por Ana Luiza Sanfilippo.

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Luiza Kellmann

Casper Libero '29

Journalism student at Cásper Líbero;
I like to work with a sociological, philosophical and/or psychological bias.