“Enquanto meninos são incentivados a conquistar o mundo, meninas são ensinadas a conquistar pertencimento afetivo.” É assim que a psicóloga comportamental Mariane Marchetti explica como mulheres são estruturalmente programadas para sonhar com o romance.
Nos clássicos da Disney, a princesa é colocada à espera do príncipe destinado a salvá-la. Nas comédias românticas, a protagonista frustrada e perdida na vida encontra sentido ao assumir o papel de mediadora emocional de homens imaturos ou indisponíveis. Nos livros de romance, mocinhos sensíveis, prestativos e apaixonados surgem dispostos a atravessar qualquer obstáculo pela mulher amada.
Independente da narrativa, o final é sempre o mesmo: a felicidade mora onde o amor existe e tudo se acerta quando o casal fica junto. Ainda que de maneira subconsciente, mulheres crescem consumindo obras ficcionais construídas quase de forma pedagógica. Desde meninas, entendemos “estabilidade” e “realização pessoal” como a sorte de sermos escolhidas pelo par perfeito, aprendendo a sonhar com o matrimônio antes mesmo de sermos alfabetizadas. Como podemos ter certeza de que é realmente isso que desejamos, se a escolhe parece ter sido tomada antes mesmo de termos nascido?
Felizes para sempre?
Segundo a psicóloga, “quando uma menina cresce vendo histórias em que o amor resolve tudo e em que o final feliz depende de ser escolhida pela ‘pessoa certa’, isso inevitavelmente influencia a construção emocional dela”.
Ou seja, as narrativas em si não são necessariamente um problema, mas a idealização romântica estimulada desde tão cedo pode sim contribuir para a ideia de que o amor externo funciona como solução universal. Aos poucos, internaliza-se a crença do romance como medida de valor pessoal.
Essa situação se reflete na maneira como diversas mulheres agem ao se relacionarem com homens. A constante urgência para entender o psicológico masculino, a necessidade de se adequar ao “male gaze” e a tendência de interpretar até sinais de desinteresse como profundidade acabam atravessando inúmeras relações heterossexuais.
Muitos desses comportamentos, que geram desgaste, são inicialmente romantizados na ficção. A ideia de que o amor feminino possui capacidade transformadora é um grande exemplo disso: o homem fechado e frio inevitavelmente se torna vulnerável ao encontrar “a mulher certa”. Enquanto isso, fora das telas muitas mulheres acabam depositando tempo, cuidado e energia em relações unilaterais, sustentadas pela esperança de mudança.
A psicóloga explica: “Muitas mulheres chegam à vida adulta sabendo idealizar o amor, mas não necessariamente sabendo sustentar a realidade dele.” Talvez esse seja um dos principais motivos para tantas frustrações: a realidade entra em choque com tudo aquilo que aprendemos (e acreditamos saber) sobre amar.
A batalha dos sexos
Longe da ficção, o mundo real nos atinge como um balde de água fria. A vivência feminina é atravessada por demandas muito mais concretas do que “encontrar o amor verdadeiro”, com trabalho, estudos, carreira, autocuidado, amizades, responsabilidades domésticas e a tentativa constante de conciliar todas essas esferas da vida.
Para aquelas que escolhem adicionar um relacionamento nessa lista, o choque acontece quando o ideal romântico aprendido na ficção contrasta com a materialidade contemporânea, na qual os homens raramente correspondem às figuras construídas pela fantasia.
Hoje, vivemos em um cenário de crescente polarização ideológica entre homens e mulheres — relatos de abuso, manipulação e feminicídio já se tornaram parte do cotidiano. E à mesma medida que essa onda de misoginia ganha força, a postura feminina ao adentrar relacionamentos se torna cada vez mais cautelosa e defensiva.
Marchetti afirma: “A violência de gênero e os discursos redpill têm impactado diretamente a forma como se percebe a segurança emocional dentro dos relacionamentos”, acrescentando ainda que “quando uma mulher é constantemente exposta a discursos que a desumanizam, banalizam a violência ou tratam o afeto como um jogo de poder, isso naturalmente afeta sua confiança”.
A especialista também aponta ao fato de que esse cenário produz um impacto no psicológico coletivo: “Pode fazer com que o casamento deixe de ser visto apenas como um sonho romântico e passe também a ser percebido como um risco, ajudando a explicar por que tantas mulheres sentem pressão para ‘escolher certo’. Porque, para muitas, escolher errado não significa apenas sofrer, mas perder a identidade e, em casos extremos, a própria vida”.
Esse cenário é exemplificado pelo aumento significativo no número de feminicídios (assassinato de mulheres em contextos marcados por violência de gênero) no Brasil. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o número de mulheres assassinadas registrou recorde de casos em 2025: foram quatro mulheres mortas por dia.
Relacionar-se passa também a envolver insegurança e vigilância constante. O medo de não encontrar “o par ideal”, então, já não nasce apenas da solidão, mas também da angústia de se aprisionar em relações que não fazem sentido.
O amor na era da autopreservação
Se antes a imposição era vincular-se a um homem, hoje nasce a exigência para entregar-se ao homem certo. Já não há mais a necessidade de se casar para conquistar independência financeira ou reconhecimento, pois mulheres têm liberdade para alcançar tudo isso sozinhas. Ainda assim, para muitas, o sonho do casamento permanece — agora acompanhado pela ansiedade de encontrar alguém que acrescente, sem desestabilizar uma vida já construída.
Mariane conta que a cobrança sobre a vida amorosa feminina é cultural: “Existe uma expectativa de que saibam escolher bem, manter bem e ‘fazer dar certo’. Enquanto isso, homens historicamente receberam mais permissão para experimentar, errar e até se afastar emocionalmente sem julgamento”.
O fato de mulheres ainda serem socialmente avaliadas pelos relacionamentos que constroem ajuda a explicar a ansiedade para conhecer o cara certo. Afinal, a culpa por estar só ou por escolher errado sempre recairá sobre elas, que acabam sendo rotuladas como “permissivas demais”, “ingênuas” ou “difíceis de lidar”.
Atualmente, essa busca parece mais complexa do que nunca. Não porque os comportamentos masculinos sejam inéditos, mas porque finalmente passaram a ser identificados, nomeados e discutidos nas redes sociais.
O receio do desgaste e sobrecarga emocional, por exemplo, se manifesta na popularização da figura do Manchild (um “homem-criança” ou moleque, na expressão popular em português). Tendo ganhado notoriedade pelo hit de Sabrina Carpenter, o termo manchild, do inglês, é usado para classificar homens imaturos, incapazes de assumir responsabilidades.
Enquanto isso, a apreensão pela perda de liberdade e segurança aparece associada à figura dos chamados redpills. Considerados um dos retratos mais visíveis do conservadorismo entre parte da geração Z, esses jovens integram a chamada “machosfera”: grupos que propagam discursos sobre “hierarquia sexual” e defendem modelos de masculinidade baseados em controle, manipulação e antagonismo em relação às mulheres.
Mais do que “tipos de homens”, esses arquétipos representam modelos de casamentos que muitas mulheres abominam. O medo do parceiro irresponsável que transforma a esposa em figura materna, do homem protetor que aos poucos se torna controlador, daquele que espera que a mulher apenas cuide da casa enquanto ele ocupa os espaços de poder, ou ainda de uniões sustentadas por puro comodismo. O cenário revela um estado constante de alerta emocional — mulheres analisam, racionalizam e questionam relações o tempo inteiro, numa tentativa de evitar o destino de muitas que vieram antes delas.
Uma nova ótica
Em resposta a esse movimento, o matrimônio passa a ser abordado sob perspectivas mais sombrias nas telas. Se durante décadas o altar foi retratado como destino inevitável da felicidade feminina, hoje, séries e filmes o transformam no cenário perfeito para histórias de tensão, horror psicológico e crise de identidade.
A série Algo Horrível Vai Acontecer (2026), disponível na Netflix, utiliza a premissa de uma cerimônia matrimonial para construir uma atmosfera inquietante e perturbadora. A narrativa segue os noivos Rachel (Camila Morrone) e Nick (Adam DiMarco) na semana de seu casamento. Entretanto, conforme a cerimônia se aproxima, Rachel é tomada por um pressentimento angustiante que antecede uma sequência de acontecimentos assustadores.
A personagem de Rachel personifica a sensação de que casar pode significar entrar em algo irreversível, sufocante. A ansiedade persistente da noiva, inicialmente tratada como paranoia, logo se revela um alerta diante de uma escolha que nunca partiu completamente dela.
Outro lançamento recente que transformou o casamento num palco de tensões foi The Drama (2026). O longa protagonizado por Zendaya e Robert Pattinson também acompanha um casal contando os dias para subir no altar, até que uma revelação abala completamente a percepção que os noivos tinham um do outro.
As cenas mais emblemáticas desse suspense cômico acontecem justamente no tão esperado dia do casamento. Ao invés de romance e celebração, a festa é repleta de conflitos e desconforto, desromantizando tudo aquilo que tradicionalmente se espera do matrimônio.
Descentralizando o romance
Hoje há – como sempre houve – uma tensão no coletivo feminino para estar com alguém. A vontade de viver um amor saudável convive com o medo de abrir mão de si para sustentá-lo, enquanto a necessidade de provar-se capaz de ser amada se mostra nos detalhes mais triviais do cotidiano.
Não à toa, descentralizar o amor romântico pode soar como o abandono de um sonho antigo, especialmente quando fomos ensinadas de que esse seria o “fluxo natural” da vida, e casar e construir uma família ainda aparecem como símbolos de sucesso em referências midiáticas e religiosas.
Mas, talvez, o grande desafio contemporâneo esteja justamente em se abrir para outros possíveis futuros. Entender que o amor pode ser importante sem precisar ocupar o centro absoluto de sua existência. Que relacionamentos devem acrescentar, não consumir. E que felicidade e realização pessoal não estão necessariamente condicionados ao casamento.
No fim, a ansiedade feminina em torno do matrimônio revela menos uma “crise do amor” e mais um conflito entre aquilo que mulheres foram ensinadas a desejar e aquilo que hoje sabem que precisam preservar: a própria liberdade, individualidade e paz emocional.
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O artigo acima foi editado por Olivia Nogueira.
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