Recentemente, viralizou nas redes sociais o artigo de opinião Ter um namorado é constrangedor hoje em dia?, publicado por Chanté Joseph no site da British Vogue. O texto traz diversos questionamentos sobre as novas perspectivas do amor moderno, da feminilidade e das transformações que envolvem esses movimentos.
Imagine que você costumava seguir uma influenciadora de lifestyle pelo conteúdo que ela produzia, sobre sua rotina e suas vivências, e, de repente, ela começa a namorar e reduz toda a sua narrativa e sua essência ao seu novo status de vida: seu namorado.
“Boyfriend Land” é o termo que foi empregado para definir esse movimento, isto é, um mundo onde a identidade online das mulheres é centrada na vida do seu parceiro. Esse comportamento está sendo muito criticado nas redes, sinalizando a ruptura de uma conduta patriarcal que, por anos, esteve enraizada na sociedade.
Mulheres ficam menos interessantes quando começam a namorar?
Mulheres que namoram tendem a abrir mão da própria individualidade e dos próprios sonhos em prol daquele relacionamento, onde o companheiro vira o principal projeto da vida dela, atitude quase nunca vinda de um homem, que tem como projeto de vida sua carreira, seu sucesso financeiro e seus amigos.
Nesse quesito, a identidade da mulher está em torno de ser namorada do “fulano” e viver em função disso. Todos os eventos são com ele, todas as amigas dela são as namoradas dos amigos dele, e por aí vai. No fim, ela deixa de viver por si e passa a viver através do outro, abandonando o protagonismo de sua vida para ser coadjuvante da vida do namorado.
Esse padrão de comportamento, que por muitos anos foi vangloriado e alimentado, principalmente por homens, já não é visto da mesma maneira. Essa desaprovação fez com que milhares de mulheres passassem a não admirar uma mulher que namora. Estar solteira te dá a liberdade de dizer e fazer o que quiser. Com isso, mulheres comprometidas passaram a ser vistas como sem graça e apagadas quando estão em um relacionamento.
O “brilho” perdido em um relacionamento
Diante desse cenário, mulheres estão mudando a forma como divulgam seus relacionamentos. Com a repercussão negativa sobre o conteúdo amoroso, hoje, as usuárias de redes sociais preferem mostrar os sinais subentendidos do namoro, como foto da aliança ou do parceiro de costas, sem mostrar o rosto. A ideia é “esconder” ao máximo os vestígios do relacionamento, como se, ao não postar, ele não existisse, e assim evitassem julgamentos.
A autora do artigo fez uma pesquisa de campo em suas redes. Ela realizou uma chamada em seu Instagram, para entender o ponto de vista das mulheres sobre esse movimento. Um número abundante de suas seguidoras disseram que elas eram supersticiosas a esse assunto. Algumas tinham medo de mau-olhado e inveja em cima de um bom relacionamento. Outras tinham medo de criar um repertório de postagens sobre o relacionamento, e ele finalizar.
Nasce a visão de que estar com um homem é quase como uma atitude errada e patética, algo que faria a mulher perder sua identidade e seu brilho. Essa tese, defendida por várias mulheres nas redes, se transformou até em trend. Meninas fazendo “antes e depois” de relacionamentos, mostrando suas evoluções e como estão mais felizes em sua fase solteira.
A manutenção patriarcado disfarçado de esposa troféu
Alguns anos atrás, viralizaram vários vídeos nas redes sociais sobre “esposa-troféu”: mulheres que vivem às custas do marido, em uma situação de completa submissão e dependência, a troco de benefícios financeiros e status social. Esse tipo de conteúdo e estilo de vida passou a ser glamourizado, incentivando relações de dominação masculina.
Mulheres eram recompensadas por sua habilidade de encontrar e manter um homem com status social elevado, quase como se isso fosse uma conquista e realização pessoal. Isso ainda se agrava quando as redes são usadas para engajamento e ganhos financeiros. Influenciadoras compartilhavam em seus perfis suas rotinas como mulheres do lar, transformando a submissão em propaganda de um estilo de vida “ideal”.
No fim, o que realmente era divulgado naquele relacionamento era a dominação e a dependência masculina, gerando uma propaganda de uma sociedade patriarcal camuflada de realização de vida. Como afirma bell hooks em seu livro Tudo sobre Amor.
Em um mundo sem amor, o desejo de conexão pode ser substituído pelo desejo de possuir. Homens e mulheres permanecem em relacionamentos sem amor e disfuncionais quando isso é oportuno do ponto de vista material e do status”.
bell hooks
Isso reflete as condutas culturais que ainda estão em jogo. Apesar de décadas de luta e ativismo feminino, as redes sociais se tornaram um obstáculo para o progresso cultural. Enquanto o engajamento e monetização davam retorno e visibilidade, o retrocesso permanece firme no imaginário social.
“Os meninos estão fora de moda e não vão voltar enquanto não começarem a agir certo”
Nesse sentido, as transformações que envolvem as novas perspectivas sobre o amor e o papel de gênero podem ser consideradas como positivas. A reflexão que o artigo traz está na desconstrução da ideia de que ser namorada é um título de conquista. É um movimento que retira o papel do homem como o fator prêmio, que validava a mulher como completa, apenas quando vive em função do outro, do marido, da casa, dos filhos e nunca dela.
Isso não significa que não vão mais existir relacionamentos. Significa que, cada vez mais, as mulheres só vão aceitar se envolver quando houver um padrão muito bem estabelecido. Elas deixaram de exercer aquele papel de figura passiva, de quererem ser escolhidas pelo “príncipe encantado”, e passaram a ser ativas na escolha e seleção de quem querem passar o resto da vida junto.
Em gerações anteriores, a mulher solteira era aquela infeliz, fria, dedicada demais ao trabalho ou “tia dos gatos”, como muitos as chamavam. Com as transformações atuais, esse é o caminho para conhecer a primeira geração de mulheres que não terá seus valores atrelados aos relacionamentos.
Sonhar que o amor nos salvará, que resolverá todos os nossos problemas ou que nos dará um estado de felicidade estável, ou de segurança, apenas nos mantém estagnados num devaneio fantasioso, enfraquecendo o verdadeiro poder do amor”
bell hooks
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Este artigo foi editado por Larissa Vilapiano Prais.
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