O ditado popular “quem canta seus males espanta” é antigo e intuitivo: ouvir sua música favorita após um dia estressante pode trazer alívio ou alegria. Mas você sabia que as canções podem ser além de um passatempo? Na prática clínica da musicoterapia, a lógica é essa. Em um consultório, o objetivo do paciente não é usar a música para “espantar” seus males, mas sim como um meio para enfrentá-los e expressá-los.
MAS O QUE É A MUSICOTERAPIA, AFINAL?
De acordo com a Word Federation of Music Therapy (Federação Mundial de Musicoterapia), “é uma disciplina profissional que usa experiências baseadas na música, como ouvir, cantar, tocar instrumentos ou improvisar, para promover a saúde, o bem-estar, a capacidade e o desenvolvimento em um nível pessoal e social”. O musicoterapeuta Val Santos acrescenta ainda que “a musicoterapia é uma ciência com evidência no tratamento do indivíduo, onde a música é uma ferramenta. Os profissionais utilizam esses recursos sonoros e musicais para atender o paciente com o objetivo terapêutico.”
Essa ciência vai, portanto, muito além de “ouvir uma música que gosta”. É o híbrido entre arte e saúde que promove uma regulação emocional, um tratamento comum principalmente em casos clínicos onde há limitações motoras e cognitivas, como, por exemplo, pacientes com autismo ou Alzheimer.
UMA PRÁTICA PARA TODOS
Limitar a musicoterapia a esses diagnósticos é um preconceito que esconde todo o seu alcance. Ela não é restrita a quadros específicos, mas sim uma ferramenta terapêutica acessível a qualquer pessoa. Atualmente, a prática tem ganhado força em ambientes corporativos e universitários, provando que a necessidade de estabilização emocional e acolhimento é muito ampla.
“A gente vive numa geração que é ansiosa por tudo. É ansiosa pela formação, a carreira acadêmica, a questão da dedicação, do estudo. E, nesse caso, temos que trazer esse paciente para perto para que ele possa aprender a lidar e regular essa ansiedade, porque isso vai traz um fortalecimento para que consigamos atingir os objetivos”, afirma Val sobre a importância da musicoterapia na vida de pessoas que lidam com o estresse da conciliação dos estudos com trabalho.
“O GROOVE ACONTECE” E A SAÚDE TAMBÉM
Um dos maiores receios de quem pensa em fazer musicoterapia é a falta de habilidade musical. Mas, para iniciar, não é preciso saber cantar ou tocar um instrumento. Durante a sessão, a música não é avaliada por sua estética ou técnica, mas pela capacidade de acessar e expressar aquilo que está guardado. Quando o paciente perde o medo do julgamento e se permite vivenciar o som, a conexão acontece de forma espontânea.
Val afirma, ainda, que a musicoterapia também pode contribuir para o desenvolvimento de pacientes que já apresentam aptidão musical. “A musicoterapia consegue desenvolver esses pacientes com essas potencialidades. Uma hora ele está fora do ritmo, daqui a pouco ele entra no ritmo. A gente fala que o groove acontece”.
A TERAPIA COMEÇA NO ESTUDO DO PASSADO
Por ser uma ciência ampla e flexível, cada profissional atua a partir de abordagens específicas para cada um. No entanto, existe um ponto de partida universal e indispensável: a anamnese e a descoberta do ISO (Identidade Sonora), antes de qualquer intervenção, mapeando o histórico sonoro completo daquele paciente.
“Todos nós temos o nosso ISO, nossa identidade sonora. A identidade sonora, está de acordo com o histórico do paciente. É muito importante saber qual é a música que ele escutava na infância, a música que a mamãe cantava para ele, a música que ele escutava do pai”, diz Val Santos.
O ISO funciona como uma “impressão digital emocional”. O nosso cérebro consolida as primeiras conexões afetuosas na infância, e então, molda a forma como reagimos ao mundo hoje. Mapear essa trilha sonora é o que permite ao terapeuta escolher os estímulos certos para cada pessoa nas consultas.
PARA ALÉM DO TRATAMENTO: O RECONHECIMENTO DOS PROFISSIONAIS QUE FAZEM DIFERENÇA
Apesar dos avanços, a musicoterapia ainda enfrenta desafios no Brasil. A regulamentação da profissão é recente: a Lei nº 14.842, de 2024, reconheceu oficialmente a musicoterapia como profissão, mas a busca por espaço e reconhecimento continua.
Para Val, é importante ser firme às suas convicções e aos inúmeros resultados positivos de quem leva essa profissão com seriedade e compromisso. A força da musicoterapia está justamente em mostrar que a música pode ser mais do que entretenimento. Fazer com que cada pessoa encontre, na música, um lugar onde possa se sentir acolhida e pertencente.
“A musicoterapia, ela abraça. Você já recebe esse abraço da música em si. E, na musicoterapia, ela traz você para perto, você se sente pertencente a essa música. E ela se torna propriedade nossa quando você fala assim: ‘Nossa, essa música me abraçou de tal forma que transformou o meu coração… isso é felicidade”.
O artigo acima foi editado por Giovana Lazarin.
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