No dia 7 de junho, no Mês do Orgulho, ocorreu a 30ª edição da Parada em São Paulo. O evento ocorreu na Avenida Paulista e apresentou uma redução de patrocinadores e de público que, até o ano de 2025, era considerado o maior do mundo. Com o tema “A urna convoca e a rua confirma”, a parada evidencia a importância da participação política em pleno ano de eleições e, segundo a comunidade, a necessidade de um posicionamento político consistiu no principal motivo do abandono das marcas. A manifestação desse declínio pode revelar novos desafios para a causa, cuja perda aparente de apoio atua como uma barreira para a implementação de novas políticas de inclusão no país.
Não há apoio sem investimento
Segundo o site da oficial da ParadaSp, apenas quatro marcas permaneceram com o patrocínio principal em relação ao ano anterior, sendo elas: Amstel, Grupo L’Oréal Brasil, Amstel Vibes e Philip Morris Brasil. A redução trouxe impacto direcionado, em especial, ao setor financeiro do evento, o que ocasionou na limitação de estrutura e alcance do público.
Em 2025, o evento contou com o apoio de mais de 10 patrocinadores principais, o que garantiu 20 trios elétricos, ações culturais e parcerias voltadas para a empregabilidade e diversidade. Já em 2026, houve um recuo significativo, o número de trios caiu para 14 e apresentou uma redução de cerca de 60% nos recursos privados. Essa queda provocou um efeito direto na dimensão do evento, limitando a infraestrutura e diminuindo a capacidade de oferecer experiências culturais e de resistência tão amplas quanto a do ano anterior.
A opinião da comunidade
Para a comunidade, esse recuo não é apenas uma questão de números, mas de representatividade. A verba pride ou pink money são os investimentos que grandes empresas destinam especificamente para eventos, campanhas e ações voltadas à comunidade LGBTQIA+, geralmente comuns no mês do orgulho, contudo, devido a necessidade de um posicionamento político, o destino dessa verba tem passado por transformações.
Nos últimos anos, algumas corporações têm se aproveitado do chamado pink money para praticar o pink washing, essa expressão explica a estratégia de marketing usada por empresas que passam a impressão de apoiar a causa LGBTQIA+, mas na prática limitam-se a impulsionar vendas sem implementar políticas reais de inclusão. Em ano de eleições, esse posicionamento exige maior exposição e acaba revelando contradições como o de que qualquer gesto pode afastar consumidores, ocasionando na omissão de diversas marcas.
Entretanto, apesar do setor financeiro apresentar influência política, ainda há vozes no meio que lutam pelos direitos na comunidade, como a deputada federal Erika Hilton que fez um discurso emocionante durante a Parada do Orgulho 2026 da capital paulista:
Em paralelo à discussão acima, também cresce a percepção pública de que o apoio corporativo precisa ser autêntico. Não basta colorir logotipos em junho, é necessário investir em programas de diversidade, contratar pessoas trans e travestis, apoiar ONGs e iniciativas comunitárias. Sem esse compromisso, o recuo das marcas é analisado como um sinal de que a identidade LGBTQIA+ só importa enquanto gera lucro, revelando, desse modo, um impacto não apenas econômico, como também emocional e simbólico, pois mina o sentimento de pertencimento e reconhecimento.Assim, esse movimento pode apontar para o futuro das políticas de inclusão no Brasil.
No entanto, o cenário internacional tem peso nesse processo; em países onde o avanço conservador pressiona empresas a se afastarem das pautas de diversidade, os reflexos das medidas discriminatórias possuem a capacidade de ampliar o seu alcance para outras nações. Diante disso, o desafio é transformar apoio simbólico em políticas concretas e duradouras.
A influência do cenário internacional
Com a reeleição de Donald Trump em 2025, os Estados Unidos passaram a adotar o discurso da agenda anti-woke, que expressa um afastamento explícito das pautas LGBTQIA+. Devido ao seu reconhecimento como a maior potência mundial, esse posicionamento reverbera além das fronteiras americanas e influencia empresas e governos em diferentes países. No Brasil, esse reflexo é somado aos avanços das forças conservadoras internas, criando um cenário em que políticas de inclusão ficam mais frágeis e sujeitas a retrocessos.
A princípio, a palavra woke se originou na década de 1960, na comunidade negra norte-americana, e seu sentido literal significa despertar, ou seja, estar consciente sobre injustiças raciais, sociais e de gênero. Com o tempo, a extrema direita se apoderou diante do termo e passou a ressignificá-lo; hoje, a palavra é direcionada à cultura da militância. Os críticos acreditam que essas pessoas, que prezam pela liberdade mas acreditam ser moralmente superiores por impor suas ideias progressistas sobre os demais, são uma força de contrapartida à liberdade de expressão.
Esse discurso também pressiona grandes empresas que, influenciadas pelas políticas externas, transformam seus posicionamentos liberais em indefinidos. Como maior potência mundial, os Estados Unidos determinam tendências políticas e econômicas que reverberam globalmente. Quando o governo assume uma postura contrária às pautas LGBTQIA+, grandes corporações ajustam seus discursos e estratégias, enfraquecendo a visibilidade e o apoio à comunidade em diversos países.
Por outro lado, no Brasil, tudo pode mudar de acordo com os resultados das eleições. Diversos partidos no país não apoiam os direitos LGBTQIA+ e possuem um vínculo com a extrema direita, o que pode produzir um teor banalizado e reduzir o discurso de inclusão no qual, por muito tempo, o grupo minoritário lutou para inserir no centro do debate público.
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O artigo acima foi editado por Nefertiti Beckman.
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