Mãe Universitária: As Dificuldades Da Maternidade Durante A Graduação

Provas, trabalhos em grupo, estágio obrigatório e horas de sono perdidas: a vida universitária é, em muitos momentos, desafiadora. Parece extrapolar todos os limites quando se trata de obrigações e estresse. Porém, como tudo isso fica quando, além de universitária, você é mãe? Algumas mulheres que vivenciaram na pele a junção de maternidade e vida universitária para contaram ao Her Campus como foi essa experiência.

Natural de São Paulo, Catharina cursava o oitavo semestre de Administração pela UFLA (Universidade Federal de Lavras, MG) quando descobriu a gravidez, aos 20 anos. Morando há mais de 400km da família, conseguiu frequentar as aulas até o oitavo mês de gestação, quando voltou para São Paulo, onde terminou a faculdade à distância.

Ela conta que não pensou em trancar a faculdade, mas optou por continuar estudando durante a licença maternidade, assegurada pela Lei Nº 6.202. A estudante precisou puxar matérias EAD em faculdades de São Paulo para pedir, posteriormente, equivalência na faculdade de Lavras e conseguir se formar. Para tornar isso viável, ela contou com a ajuda da família e do pai do bebê quando precisava ir fazer as provas presenciais do curso. Apesar de toda a ajuda, ela conta que precisou ir algumas vezes com o filho no colo para o estágio obrigatório que fazia em uma ONG.

Quando se trata dos professores, Catharina diz que a maioria facilitou muito para ela, até mais do que ela julgava necessário. No entanto, duas professoras em específico se mostraram bem reticentes com a condição dela, tentaram dificultar ao máximo e colocar vários empecilhos para as aulas. “Elas também eram recém mães, uma delas me pediu até o último dia de escolha das disciplinas para cancelar a matéria que ela ministrava e puxar outra. Só consegui convencê-las quando apresentei a legislação referente à licença maternidade”, relembra Catharina.

“A maior dificuldade foi o machismo e as pressões estúpidas que vêm com ele.”

“A época do TCC foi caótica, só conseguia sentar para ler e escrever quando o meu filho dormia, pois eu ficava sozinha com ele em casa por ter sido desligada do estágio na época em que ele nasceu”, ela conta. Inclusive, a única vez que ela levou o filho para a faculdade em Minas Gerais foi durante a apresentação do TCC, quando seu professor adaptou tudo para que ela conseguisse apresentar sem problemas.

Quando questionada sobre qual a maior dificuldade para conciliar a maternidade e a graduação, a resposta veio sem dúvidas: “Achar tempo para fazer as coisas e cuidar do meu filho. Existia uma cobrança para que eu cuidasse dele e da casa, mas não dá para passar roupa com um bebê no colo! Além disso, ainda precisava achar tempo para estudar. Então eu diria que a maior dificuldade foi o machismo e as pressões estúpidas que vêm com ele”.

A falta de tempo também é a maior dificuldade da Yasmin, estudante de Letras pela USP (Universidade de São Paulo). Com um filho de 3 anos, ela diz que é difícil encontrar tempo para conciliar tudo: estudar, ler os textos da faculdade, fazer os trabalhos em grupo e estar com o filho. “Às vezes, quando sinto que essa demanda está muito grande, acabo recorrendo a alguns métodos que não gosto muito, como deixa-lo assistindo vídeos no YouTube por muito tempo ao invés de brincar com ele”, ela conta.

No entanto, Yasmin teve uma ajuda imprescindível para poder ir atrás da tão sonhada graduação: uma forte rede de apoio, “talvez a única coisa que tenha tornado isso possível”, conta a estudante. Mãe aos 19 anos e tendo um emprego fixo, parecia inviável para ela cursar uma graduação assim que terminou o Ensino Médio, então foi deixando esse sonho para depois.

Foi em um momento de várias mudanças em sua vida que ela pôde colocá-lo em pratica: se separou do pai do seu filho, saiu do seu antigo emprego e voltou a morar com a mãe. Como seu filho não era mais um bebê que dependia dela para tudo, ela conseguiu colocá-lo em uma creche e então surgiu a oportunidade perfeita para iniciar uma graduação.

“A verdade é que a gente precisa aprender a se concentrar mesmo no barulho, na bagunça, com a Peppa Pig falando no fundo”

Sobre a rotina que ela leva para conseguir conciliar a maternidade com os estudos, Yasmin conta que como não está trabalhando no momento, ela aproveita a parte da tarde, quando o filho está na creche, para estudar. “É o único jeito de conseguir me concentrar totalmente. Mas, ás vezes, esse tempo não é suficiente, posso ter outras coisas da casa pra fazer, então tento conciliar as leituras com os cuidados dele. Ele está numa fase de querer ter certa autonomia, às vezes sobra um tempinho para eu fazer as coisas enquanto ele brinca ou assiste TV. Mas criança não tem jeito, né? Eles demandam atenção. E a verdade é que a gente precisa aprender a se concentrar mesmo no barulho, na bagunça, com a Peppa Pig falando no fundo”.

“Talvez pelo fato de conviver na universidade com um público mais heterogêneo nas idades, vivências e ideias, seja mais fácil de entenderem o fato de eu já ter um filho”, Yasmin conclui dizendo que sua adaptação na universidade tem sido tranquila, que encontrou menos empecilhos no ambiente universitário do que no ambiente de trabalho, por exemplo.

Ana Clara, estudante do último ano de Jornalismo pela Cásper Líbero, também teve boas experiências com os professores e colegas de sala da faculdade, mas isso não anula alguns momentos incômodos que a estudante viveu durante a gestação. “Eu descobri a gravidez no final do meu segundo ano de faculdade, em Novembro de 2017, então eu consegui ir para a faculdade durante o primeiro semestre inteiro de 2018."

"No começo não foi muito difícil porque eu não tinha barriga, então quem não me conhecia e não sabia da gravidez, nem dizia que eu estava grávida. Mas é lógico que, com o passar do tempo, eu fui ficando com barrigão, então algumas pessoas comentavam quando eu passava no corredor, depois que eu saía do elevador também, ficavam olhando e eu sabia que acabava sendo assunto. No inicio me incomodou, mas depois eu decidi não ligar pra isso, vi que não me ajudaria em nada”, Ana Clara diz que uma grande ajuda foi o fato de que os professores e amigos da faculdade sempre procuraram ajuda-la e trata-la bem.

Inclusive, nas poucas vezes em que precisou levar a filha para a faculdade, teve boas experiências para contar: “Eu me senti muito confortável, alguns professores brincaram com ela, tenho até foto de um deles segurando a minha filha. Foi bem legal, na verdade.”

“Eu não pensei em parar a faculdade porque eu tinha muito medo de não voltar depois.”

Ela relembra como foi quando descobriu a gravidez. Apesar do medo, do desespero e da sensação de não saber o que fazer, Ana Clara diz que em nenhum momento pensou em parar a faculdade. “Foi a única coisa que meu pai me pediu quando eu contei sobre a gravidez, ele pediu que eu não parasse a faculdade. Eu também não pensei em parar porque tinha muito medo de não voltar depois, assim como aconteceu com algumas mães que eu conversei sobre isso”, ela conta.

Ana abriu mão do emprego assim que descobriu a gravidez, porque sabia que não conseguiria conciliar um emprego, a graduação e a criação da sua filha, então precisava escolher quais seriam as suas prioridades depois que ela nascesse.

A falta de tempo mais uma vez se faz presente, pois apesar da ajuda que recebe dos familiares e do apoio do pai da criança, também é uma das maiores dificuldades de Ana Clara até hoje: “Eu faço as coisas da faculdade de madrugada. Ela dorme muito pouco durante o dia e, quando dorme, é o tempo que eu tenho para comer, tomar banho e fazer minhas outras tarefas, não sobra tempo para fazer as coisas da faculdade e eu não consigo me concentrar muito. Prefiro fazer de madrugada, depois que ela dorme, porque é o tempo que dá para eu sentar, fazer as coisas com calma e me concentrar. É puxado e até entrar na rotina é bem complicado, mas dá pra conciliar”, ela relata.

Por fim, sobre as pressões que a sociedade impõe por ela ser mãe e universitária, Ana Clara afirma que o fato de ser mãe jovem ainda é um tabu grande e ela percebe um certo julgamento das pessoas, mesmo sem conhecê-la e saber a história por trás.

A universidade pode ser um ambiente hostil e pouco acolhedor para as mães que sonham com a graduação, mas é evidente que, aos poucos, os preconceitos têm caído por terra e as pessoas tem aberto suas mentes para poder transformar esse ambiente. Que a nova geração de estudantes e professores consiga trazer cada vez mais apoio e acolhimento para as estudantes que vivem essa dupla jornada: mãe e universitária.