Her Campus Logo Her Campus Logo
Casper Libero | Wellness > Sex + Relationships

“Eu escolhi esperar”: por que casais cristãos seguem essa orientação?

Marta Dutra Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

O amor rápido da era dos aplicativos de namoro ganhou espaço nas relações que conhecemos. Basta um match, e você pode se relacionar com um estranho que mora do outro lado da cidade.

Frequentemente, filmes, séries e livros abordam esse cenário de forma inusitada e cotidiana, como se relação sexual fosse questão de um clique. Para o sociólogo polonês, Zygmunt Baumann, as relações atuais fazem parte do seu conceito “Amor Líquido”, já que são relações sem profundidade e que valorizam a superficialidade, em vez da profundidade afetiva.

É comum ouvir o termo “ficar” entre jovens que estão se conhecendo e mantendo relações, mas não namorando. Todavia, o relacionamento profundo e cortês ainda existe entre cristãos que “escolhem esperar”. De onde vem e por que eles têm essa orientação?

Para entender melhor essa orientação, é importante ressaltar que ela pode mudar de acordo com a doutrina da igreja e a decisão de cada casal. Na igreja Videira Itaquera, da jovem fotógrafa Karina Lima, de 19 anos, a orientação é denominada “corte” — é o momento em que os jovens se conhecem e entendem se vão querer se casar.

Para Karina, a corte é se relacionar “da maneira correta”: sem beijo nem sexo. No seu antigo relacionamento dentro da igreja, a jovem diz que se sentia muito amada e respeitada por seu companheiro, apesar de não haver contato físico: “é importante ter certeza que fui escolhida por quem eu sou, e não por um corpo bonito ou pelo toque físico.”

Assim como a fotógrafa, Luis Henrique Alves, de 25 anos, frequentador da igreja Cristã da Família, concorda que escolher esperar é importante para ele. Em suas palavras, “o ato de se guardar é uma forma de honrar a Deus, abdicando de um prazer momentâneo, visando construir uma relação que dure eternamente, que não seja baseada em sexo, mas sim em um amor genuíno, algo que gere laços mais fortes.”

Na igreja de Luis, não existe o termo “corte” de maneira formal, mas os casais namoram para casar-se e escolhem esperar pela relação sexual até o casamento ser consolidado.

Afinal, de onde vem essa orientação?

Assim como todas as outras orientações cristãs, a decisão do sexo após o casamento vem da Bíblia Sagrada, cujos diversos versículos do Antigo e Novo Testamento — como o livro é dividido — evidenciam que a relação sexual deve ocorrer dentro dos limites do casamento, em que existem compromissos e responsabilidades mútuas entre o casal. Luis acredita que o sexo foi algo planejado por Deus para acontecer dentro do casamento: “Nós, seres humanos, pervertemos isso quando fugimos desse propósito estabelecido.”

Desafios (nem tão) modernos

Com a ascensão dos aplicativos de namoro, a vida da grande parcela dos solteiros modernos tem sido baseada em matches instantâneos e pouca conexão. Em meio a uma sociedade imediatista, escolher esperar pode soar como uma ofensa à modernidade. Apesar do Brasil ser um país majoritariamente cristão — onde 1 em cada 4 brasileiros é evangélico e o percentual é maior entre os mais jovens — a decisão de um casal esperar até o casamento ainda enfrenta críticas e estranhamento social.

O filme norte-americano, Um Amor Para Recordar (A Walk to Remember), retrata bem esse “estranhamento social”, já que o casal Jamie e Landon sofrem as provocações dos amigos por conta de seu namoro cristão. Lançado em 2002, as questões abordadas no filme são pertinentes até hoje, pois apresenta as diferentes percepções de um relacionamento cristão: de um lado, o casal de jovens cristãos, e de outro, estão os amigos de Landon que não compreendem a relação do casal.

Assim como no filme, Karina já chegou a enfrentar críticas da própria família por sua decisão. Mesmo assim, a estudante não se deixa abalar e se mantém firme no “escolhi esperar”. Já a percepção de Luis é diferente sobre as críticas e estranhamento. Ele afirma que as pessoas não entendem, mas admiram sua decisão, porque na cultura moderna o sexo é banalizado, e a sua decisão “foge do comum”, segundo ele.

Decisão difícil

Pode ser uma escolha tentadora e incomum na sociedade atual, mas “escolher esperar”, é uma decisão bíblica importante para os cristãos. Para o psicólogo Wesley Fagundes Reis, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), existem prós e contras nessa decisão difícil que deve ser meticulosamente analisada pelo casal. Por um lado, escolher esperar até o casamento pode proporcionar um vínculo emocional mais forte entre o casal, fortificando o respeito e o compromisso. Por outro lado, essa espera pode trazer expectativas irreais, uma vez que o casamento não resolverá problemas que não foram previamente conversados. De certo, “a escolha do casal deve ser conversada de forma aberta e honesta”, complementa o especialista.

Levar em consideração os valores e necessidades de cada um é importante. “Conheço casais que escolheram se beijar pela primeira vez apenas no altar, há outros que já permitem o beijo antes do casamento, sempre respeitando um ao outro”, comenta o jovem cristão Luís.

O psicólogo Wesley ainda destaca algumas expectativas irreais que devem ser trabalhadas durante o namoro. Dada a pressão social e emocional do casal, homens e mulheres podem sofrer tipos de discriminações diferentes pela sua escolha, mas cada qual com o seu peso. “O casal pode ter problemas em assuntos relacionados ao sexo: seja ansiedade, falta de orgasmo feminino e a pressão do homem pode ser grande e ele falhar nas primeiras vezes”.

Em grande parte, a pressão sexual ainda recai sobre as mulheres, que têm deveres e repressões culturais do patriarcado: a mulher também tem desejos sexuais, também acha um homem bonito, porém, por uma sociedade patriarcal, ela fica inibida. “Atualmente, quase 40% dos relacionamentos onde se escolhe esperar acaba tendo relações sexuais pois é muito difícil”, conclui Wesley.

________________

O artigo acima foi editado por Mariana Garcia.

Gosta desse tipo de conteúdo? Confira a página inicial da Her Campus Cásper Líbero para mais!

Marta Dutra

Casper Libero '29

O jornalismo é uma parte de quem eu sou: apaixonada por literatura da língua portuguesa e também por geopolítica.