As últimas décadas foram palco de lutas por causas sociais que possibilitaram discussões sobre progressos e radicalismos, para as quais entidades governamentais e veículos de comunicação voltaram a sua atenção. Contudo, uma peça fundamental para o funcionamento da sociedade foi deixada de lado: a crise climática.
Com o avanço de práticas de exploração e desmatamento, desde a Revolução Industrial, o planeta se tornou vítima das mudanças forçadas na paisagem vegetal, as quais incentivaram o aumento da quantidade de carbono na atmosfera e da temperatura global em 1,6 ºC. Graças à ação humana, a crise climática tem se manifestado através das mudanças de temperatura, longos períodos de estiagem ou chuvas, queimadas avassaladoras, tufões e furacões.
De acordo com a pesquisa “Learning Interrupted: Global Snapshot of Climate-Related School Disruptions in 2024”, da UNICEF, quase 250 milhões de crianças no mundo tiveram seus estudos interrompidos pela crise climática, em 2024. No Brasil, o levantamento mostrou que este número corresponde a 1,17 milhão de crianças, sendo mais de 700 mil dessas prejudicadas pelas chuvas que ocorreram no Rio Grande do Sul, enquanto 436 mil alunos não puderam frequentar a escola na região amazônica, devido à incapacidade de locomoção nos rios, com a estiagem.
Diante deste cenário ambientalmente caótico, entidades políticas travam o embate de desenvolverem políticas de preservação socioambiental, ao passo em que coexistem no sistema do capitalismo exploratório.
De Berlim ao Brasil: como a COP atua para a mobilização contra a crise ambiental?
Com a transição de uma cobertura midiática frágil sobre a crise climática para a abertura de fóruns e o investimento na divulgação científica, a partir da década de 1980, a questão climática deixou de ser tratada como eventos extremos esporádicos e passou a ser reconhecida como um fator externo que poderia ser decisivo para a vida humana.
Na tentativa de solucionar os desastres naturais, a Organização das Nações Unidas criou a Conferência das Partes (COP), órgão supremo da Convenção Quadro da ONU, que entrou em vigor em 21 de março de 1994 e hoje conta com a adesão de todos os países do mundo.
Responsáveis pelo desenvolvimento de medidas para o combate às mudanças climáticas – assim como fiscalizar o cumprimento dessas medidas -, as COPs são eventos anuais que reúnem líderes mundiais, cientistas, ativistas e ONGs para a sugestão de metas de preservação ambiental.
Após três décadas da primeira reunião, a COP30 irá ocorrer em Belém do Pará, no Brasil, entre os dias 11 e 22 de novembro de 2025. Mediante o governo de Luiz Inácio (Lula) da Silva, as expectativas para o evento se mostram positivas, visto que a gerência atual adota posturas favoráveis e cooperativas em relação às discussões sobre as mudanças climáticas, além de direcionar críticas diretas a governos negacionistas ambientais, como o de Donald Trump, nos Estados Unidos.
A presença do presidente norte-americano ainda é incerta e sua possível ausência pode significar um golpe contra as medidas verdes adotadas por grandes potências mundiais, assim como um boicote ao atual governo brasileiro. No entanto, é esperada a participação de grandes líderes políticos, como os representantes do BRICS – além do Brasil como sede, Rússia, Índia, China e África do Sul -, Arábia Saudita, Egito, Azerbaijão, Indonésia, Irã, França, Inglaterra, Alemanha, entre outras nações.
Para o Brasil, sediar um evento desta magnitude é uma oportunidade inédita de reafirmar a sua imagem diante da diplomacia internacional, assim como se tornar um exemplo na representação de sustentabilidade global. Dentre os temas a serem discutidos na COP30 estão a redução das emissões de gases provenientes do desmatamento, além da principal questão para o contexto brasileiro: discutir a questão do desmatamento na Amazônia, dentro da própria Floresta Amazônica.
Como os setores social e corporativo podem contribuir com a sustentabilidade?
O debate entre líderes mundiais é indispensável para a reprodução midiática da magnitude e importância das reuniões voltadas para a preservação socioambiental, mas a aplicação das ideias defendidas precisa ir muito além do embate entre países.
Com o objetivo de manterem-se alinhadas às mudanças no mercado, inúmeras empresas precisaram se reinventar para que suas marcas adotassem o selo “verde” de sustentabilidade. Essa revolução no sistema capitalista começou a ser notada a partir de 2004, quando a Organização das Nações Unidas divulgou o relatório “Who Cares, Wins”, no qual popularizou-se a sigla ESG.
Esta abreviação engloba os termos “Environmental, Social and Governance”, utilizados para avaliar o quanto uma empresa ou negócio está se mobilizando para reduzir os impactos de suas atividades no meio ambiente, visando a criação de um mundo mais justo e responsável.
Environmental (ambiental, traduzido para o português) refere-se à busca por alternativas sustentáveis na produção de uma empresa, visto que ao adotar o pensamento de preservação, as instituições tentam diminuir a emissão de poluentes, descarte regular de lixo e plásticos, ou, ainda, reduzir o consumo de água e energia. Enquanto isso, o termo Social está atrelado à designação de empresas que zelam pela segurança das pessoas no seu entorno, garantindo os devidos direitos trabalhistas, de saúde e segurança no ambiente de trabalho, além de aderir a causas sociais.
Por fim, Governance (governo) refere-se ao modo como uma empresa gerencia o seu funcionamento, ou seja, se realiza as devidas fiscalizações para evitar irregularidades como propina, lavagem de dinheiro e trabalho análogo à escravidão, assim como adotar uma postura ética diante dos valores da instituição.
Graças a este novo movimento de conscientização global, observou-se o surgimento de um novo sistema: o Capitalismo de Stakeholder. Este novo modelo capitalista ganhou visibilidade após diferentes organizações adotarem medidas de ESG, com o objetivo de melhorar a imagem de uma marca com seus stakeholders – clientes, financiadores ou parceiros.
Ao aderirem a posturas de preservação, inúmeros agentes empresariais conquistam vantagens como o aumento da produtividade, redução de custos, atração de investidores e novos consumidores, além do benefício principal: a emissão de “Greenbonds” (créditos verdes para investimentos). Entre as marcas que mais se destacaram com a adoção de ESG estão Natura, Google e Nestlé, com o uso de embalagens recicláveis, aposta em energias renováveis e foco em alimentação saudável, respectivamente.
O retorno de Trump e o rompimento com acordos climáticos pode se tornar um caminho sem volta?
A popularização do engajamento em causas sociais é um fenômeno que ocorre devido a muitos fatores, como a disseminação de conteúdos nas redes sociais ou de notícias em veículos de comunicação, mas também graças à mobilização de entidades governamentais que se apresentam como símbolo de cada nação.
No entanto, o que tem sido observado no cenário global trata-se de um sistema de contrapesos no qual grandes líderes políticos se desdobram para aderir às causas socioambientais, enquanto uma grande potência econômica mundial se empenha para findar esse sistema: os Estados Unidos. O segundo maior emissor de gases do efeito estufa (GEE) do planeta teve episódios de avanços e recuos em relação a questões ambientais e, neste momento, é marcado por um dos maiores recuos já vistos em sua história.
Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca, no início de 2025, os cenários americano e global vêm sendo ameaçados com as investidas do presidente na exploração socioambiental, visto que Trump adota posturas contrárias às medidas defendidas pelas COPs e ESG. Em seus primeiros momentos de governo, o atual presidente dos Estados Unidos dedicou parte de seu discurso de vitória para incentivar o desmatamento, a extração de petróleo e gás natural, a partir do argumento “Temos mais ouro líquido do que qualquer país no mundo”.
Em estudo divulgado pela Carbon Brief, acredita-se que o governo de Donald Trump irá emitir bilhões de toneladas de carbono a mais que a gestão de Kamala Harris, sua concorrente nas eleições presidenciais em 2024, emitiria.
Uma das primeiras e mais marcantes ações de Trump já no início de seu segundo mandato foi a retirada dos EUA do Acordo de Paris, abdicando da participação americana nas negociações climáticas e agravando o cenário de combate à degradação ecossistêmica. Além disso, o atual líder político irá retomar o controle de agências de estudos científicos sobre a emissão de poluentes, impactando negativamente o estudo e a disseminação de dados sobre a quantidade exata de carbono que molda o efeito estufa.
Em meio a declarações polêmicas concedidas à mídia e aos seus seguidores, Donald Trump defende que os recursos naturais disponíveis no meio ambiente devem ser utilizados para o consumo e desenvolvimento econômico de países. No entanto, a exploração desenfreada proposta pelo presidente é responsável por intensificar a crise climática e causar prejuízos bilionários para a sua principal preocupação.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO 2023), eventos climáticos extremos já causaram um prejuízo de R$ 3,8 trilhões de dólares nos últimos 30 anos, contrariando as ideias do presidente norte-americano.
Além de boicotar as medidas implementadas pelas Conferências das Partes, a gestão trumpista também atrapalha os avanços conquistados com o advento do ESG. Dentre as propostas para melhorar as atividades de uma empresa está a garantia de boas condições de trabalho, mas isto não está sendo observado nos Estados Unidos, já que trabalhadores imigrantes estão perdendo seus empregos e, em casos mais extremos, perdendo a cidadania e sendo deportados do país.
Diante deste cenário, a incerteza acerca do progresso socioambiental, e até mesmo a presença dos EUA na COP30, levam à estagnação dos avanços obtidos nas últimas décadas e causam a preocupação de se a relativização de questões socioambientais irá se popularizar em breve e colocar em xeque o futuro do planeta e da humanidade.
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O artigo acima foi editado por Rafaela Lima.
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