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Casper Libero | Culture

Do fandom ao ativismo: como as fangirls estão reconfigurando as redes sociais

Luiza Kellmann Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

As fangirls emergiram com força revolucionária na era digital. Mais do que consumidoras, elas são criadoras de tendências, mobilizadoras de políticas e pilares econômicos de indústrias multimilionárias. Sua influência, para além do entretenimento, tem a capacidade de moldar discursos públicos e desafiar estruturas de poder — um fenômeno que a academia e o mercado ainda lutam para compreender em sua totalidade.  

Historicamente, as fangirls são generalizadas e estereotipadas como adolescentes histéricas e obsessivas. Inclusive, há um debate intenso em plataformas como o X (antigo Twitter) e TikTok sobre a dualidade no tratamento social entre as fãs mulheres e fãs homens. Por exemplo, a devoção masculina a times ou atletas é muitas vezes celebrada como “paixão legítima”, enquanto o entusiasmo feminino por artistas ou obras é frequentemente ridicularizado.

Vale ressaltar que o problema não está em os homens serem fãs de algo ou alguém, mas sim a validação seletiva do sentimento de ser fã. Como declarou o cantor Jão, no making of da sua turnê A Primeira e A Última Noite: No fim, eu acho meio hipócrita os caras acharem normal tatuarem brasões de times, chorarem por jogador de futebol e, quando são os meus fãs tatuando, chorando, se expressando… aí já é demais.

A declaração viralizou, expondo não só a misoginia enraizada na cultura do fandom, mas também como a expressão de afeto feminina é sistematicamente descredibilizada.

Enquanto a cultura pop é frequentemente reduzida a entretenimento, são as fangirls — mulheres hiperconectadas e apaixonadas — que, progressivamente, ajudam a reconfigurar as regras do engajamento digital e a transformar fandoms em ferramentas de ativismo global. 

Mais do que “fãs histéricas”, elas são arquitetas de uma nova ordem social, cujo amor por algo ou alguém se converte em poder cultural, político e econômico. Seu impacto desafia não apenas a indústria do entretenimento, mas também hierarquias de gênero e estruturas de poder tradicionais.

Origens: da “Byromania” à ascensão das fangirls 

A relação entre humanos e a devoção por figuras ou ideais é antiga. No entanto, foi no século XIX que tivemos os primeiros indícios da configuração do fanatismo moderno e a imagem de um bad boy deu rosto à ela.

No Romantismo, o poeta Lord Byron estimulou a Byromania, que, de acordo com a pesquisadora Clara Tuite, em “Lord Byron and Scandalous Celebrity”, pode ser comparada ao culto às celebridades atuais. Em outras palavras, ele antecipou o que hoje conhecemos como celebridade pop.

Sua imagem de jovem sedutor e romântico, ilustrava a ordem cultural da época. Seus fãs –  principalmente mulheres- colecionavam seus retratos, imitavam, endeusavam seu estilo e enviavam cartas, às quais ele respondia . Byron, com certeza, revolucionou tanto a literatura quanto a cultura de fãs.

De acordo com Clara, “Lord Byron, George Gordon, é proverbialmente notório; sua fama é uma mistura de genialidade e má conduta”. Deste modo, ele transformou escândalo em aura artística. Porque a sua vida pessoal ficou insustentável devido acusações de incesto, adultério e relações bissexuais, o que o levou a fugir da Inglaterra em 1816 — tornando-se um “herói trágico”.

@ninathelouisa

edit: something i forgot to mention in the video, and perhaps THE most insane thing in Byron’s lore (lol) is that he is literally the inspiration for the first ever literary vampire. John William Polidori wrote the first ever vampire novel in 1819, titled “The Vampyre” and IT WAS INSPIRED BY BYRON?😭 Literally every trope that we know of today that’s associated with vampires – being an aristocrat, being beautiful, brooding, aloof, living in a gothic castle…all of these stem from byron. mad. #lordbyron

♬ Skyfall Epic Version – Finn

Embora os primeiros indícios das fangirls tenha sido sob a imagem de Lord Byron, foi no século XX que a cultura pop deu forma às fãs como as conhecemos.

Em 1920, astros do cinema como Rudolph Valentino atraíam multidões femininas às salas de exibição. Valentino, popularmente conhecido como “amante latino” em Hollywood, foi um símbolo sexual e ícone pop.

Porém as décadas de 1950 e 1960 foram os divisores de água já que, respectivamente, trouxeram a explosão de Elvis Presley e o fenômeno dos Beatles, que ficou conhecido como Beatlemania.

No anos 50, as fãs de Elvis Presley mudaram a forma como as pessoas viam a devoção a um artista. Durante seus shows, as reações eram tão intensas que incluíam gritos e desmaios. 

Segundo o Elvis Presley Blog, psiquiatras e psicólogos explicavam que isso era uma forma de expressar desejos que não podiam ser mostrados em uma sociedade conservadora. O blog também menciona um artigo do New York Daily Mirror, publicado em 1956, que descrevia Elvis como a representação de um “sonho impossível”, que permitia as jovens explorassem sua feminilidade sem medo de serem julgadas.

Paralelamente, em 1960, enquanto Presley começava a se distanciar do cenário musical, a Beatlemania bombou. Jovens mulheres gritavam e choravam nos shows dos Beatles, num comportamento que a mídia tratava como irracional, mas que a escritora Barbara Ehrenreich (“Beatlemania: Girls Just Want to Have Fun”, 1992) interpreta como rebelião contra as normas de gênero.

@m4ureencox

beatlemania was the fanaticism surrounding the english rock band the beatles in the 1960s. #thebeatles #thebeatlesedit #johnlennon #paulmccartney #georgeharrison #ringostarr #60s #foryou

♬ original sound – ☆

As fãs de Elvis, porém, não desapareceram. Mesmo sendo chamadas de ultrapassadas, continuaram comprando discos e assistindo a filmes do cantor, mesmo que as críticas fossem negativas. Alan Hanson, do Elvis History Blog, conta que essa lealdade foi recompensada em 1968, quando o Comeback Special (um show especial na TV) reviveu a carreira do artista.

Desta forma, percebe-se que o fangirling — a prática de ser fangirl — vai além da admiração por um artista. É uma conexão emocional, um ritual de pertencimento social e parte do processo de construção de identidade. 

Tanto Presley quanto os Beatles não só definiram a música de suas épocas, mas também ajudaram as jovens a se expressarem em um mundo que tentava calá-las.

Era digital: reconfiguração da prática fangirling

A virada do milênio digitalizou o fervor. Como evidenciado, a paixão por artistas sempre existiu, entretanto, o fangirling mudou radicalmente com a internet.

@fangirl.central

#question from @fangirl.central which type of fangirl are you????? new eps of fangirl central podcast out every friday 🪩 #fyp #sdcc #comiccon #fandom #fangirl #1d #5sos #fanfic

♬ Yiken (Certified) – Priceless Da ROC

Fandoms como os de Harry Potter e Twilight usaram a internet para criar teorias, fanfics e comunidades globais em plataformas como Tumblr, Spirit e Wattpad que viraram acervos de criatividade. Enquanto isso, fãs da One Direction, popularizavam o shipping por meio das hashtags e, muitas vezes, também impulsionaram o ativismo online. 

O filme The Idea of You (2024), inspirado em uma fanfic de Harry Styles, é um exemplo de como o conteúdo gerado por fãs transcende de nicho e alcança o mainstream — a cultura popular.

Em plataformas como o “X” e o Instagram, tornou-se popular o que chamamos de portais dos artistas, espaços gerenciados por fãs, que reúnem comunidades nacionais com o objetivo de representar o ídolo em um país específico. Eles atualizam os seguidores sobre lançamentos, turnês e notícias, além de promoverem conexões entre fãs da mesma região ou, até mesmo, uma integração internacional.

Com celulares na mão, as fangirls contemporâneas fazem mais do que postar edits e fancams – que muitas vezes ultrapassam milhões de visualizações. Elas têm influência para ajustar a produção, consumo e interação com a cultura. 

Essas comunidades transformaram-se em agentes ativos, capazes de definir tendências, gerar receitas milionárias e reescrever narrativas sociais. Sua força reside não apenas no consumo, mas na capacidade de criar e espalhar laços emocionais e identitários.

O fangirling nas plataformas digitais

O fangirling mudou radicalmente com a internet e ela também mudou tragicamente o fangirling. Ou seja, as fangirls não contribuíram apenas com a redefinição da indústria do entretenimento, mas também a própria estrutura das plataformas digitais.

Por exemplo, o uso de hashtags, threads ou palavras-chave nos trend topics em plataformas como o “X” para promover artistas, gerou tendências que influenciaram algoritmos e métricas de engajamento 

Plataformas como o TikTok e Instagram, que pressionado pelo sucesso do TikTok adotou o Reels; adaptaram-se a táticas de viralização como desafios de dança e duets. O sucesso dessas estratégias levou o TikTok a promover ferramentas como “Sounds” (trechos de músicas) e “For You Page“, que priorizam conteúdo colaborativo. Fãs de K-Pop, como as BLINKs (BLACKPINK) e ARMYs (BTS) transformaram coreografias em desafios globais, o que ajudou para hoje ser comum as dancinhas virarem trends internacionais.

Além disso, a prática de stream parties (maratonas de reprodução em plataformas como Spotify) tornou-se uma ferramenta essencial para impulsionar artistas nos charts — as paradas que indicam as músicas mais ouvidas e populares em determinado período.

O resultado desse impacto nas redes vai muito além das telas. Ele refletiu nos pilares sociais: economia, política e cultura. Atualmente, as marcas e produtores reconhecem que essas comunidades geram engajamento e lucro, superando o consumo passivo.

De acordo com o GShow, a partir de uma cultura de fangirls de trocar pulseiras da amizade na The Eras Tour, da Taylor Swift, houve um aumento na venda de miçangas no Brasil. De acordo com a Folha de São Paulo, na Shopee, as vendas de miçangas cresceram cerca de 120% e os braceletes da amizade prontos aumentaram 190%. No Mercado Livre, as buscas por “miçanga” subiram 74% entre outubro e novembro de 2023 em relação ao mesmo período de 2022.

Essa cultura foi estimulada a partir de posts nas redes sociais, principalmente de Swifties — fãs da Taylor Swift. Assim como esse exemplo, percebe-se que as fangirls têm a capacidade de flexibilizar o uso das redes. Em outras palavras, elas não apenas seguem as tendências, mas muitas vezes criam o hype.

As fangirls também tornaram-se agentes políticas ativas nas redes sociais. Suas estratégias de engajamento, inicialmente focadas em entretenimento, questionam ou estimulam discursos de ódio e exigem mudanças sociais, demonstrando que a cultura pop pode ser uma ferramenta efetiva de transformação social.

Em 2025, a título de exemplo, houve uma comoção – materializada em uma tag nas redes sociais “FCS CONTRA A ESCALA 6X1”. Foi um movimento online em que várias comunidades e subcomunidades de fandoms juntaram-se em prol a uma causa, isto é, o fim da escala 6X1.

Inclusive, a deputada Erika Hilton agradeceu, em seu Instagram, a quem se engajou na tag.

As fangirls, portanto, foram e são muito importantes para as redes sociais porque criam e promovem modas, formam comunidades e produzem ou compartilham conteúdos que fazem a diferença – positiva ou negativamente -, em âmbitos identitários, econômicos, publicitários, culturais e sociopolíticos. 

Com isso, as redes se adaptam a uma cultura dinâmica que contempla as vozes dessas mulheres, decorrente da afetividade delas com o ídolo que transcende a passividade do consumo.

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O artigo acima foi editado por Juliana Santos.

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Luiza Kellmann

Casper Libero '29

Journalism student at Cásper Líbero;
I like to work with a sociological, philosophical and/or psychological bias.