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Casper Libero | Culture > News

Dinheiro das bets: quanto o futebol brasileiro depende desse mercado?

Yris Silva Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Recentemente, clubes e o campeonato paulista de futebol se uniram em uma publicação do Instagram contra possíveis mudanças nas regras do mercado de apostas no Brasil. A publicação, que ganhou o título de “O Fim do Futebol Brasileiro”, afirma que o investimento das casas de apostas se tornou uma das principais fontes de receita do esporte e que uma mudança abrupta na regulamentação poderia comprometer financeiramente os clubes.

O movimento acontece em um momento em que as casas de apostas já ocupam um espaço expressivo na economia do futebol. Dados levantados pela consultoria Convocados mostram que, no ano passado, as bets foram responsáveis por R$ 1,03 bilhões dos R$ 3,069 bilhões arrecadados em patrocínios pelos 20 clubes da Série A. Na prática, significa que aproximadamente um em cada três reais da receita comercial dos clubes veio das empresas de apostas.

Esses números ajudam a explicar por que uma possível redução desse mercado preocupa os dirigentes. Ao mesmo tempo, ele não significa que um terço de todas as receitas dos times dependem diretamente das bets. Em 2025, a receita total dos clubes analisados pela EY chegou a R$ 14,9 bilhões, distribuídos entre fontes como: direitos de transmissão, premiações, transferências de jogadores, matchday e receitas comerciais. 

As bets se tornaram parte indissociável 

A presença das empresas de apostas cresceu rapidamente nos últimos anos. Em 2025, todos os 20 clubes da Série A tinham vínculo com casas de apostas, sendo 18 deles com uma empresa do setor como patrocinadora master. Os outros dois clubes possuíam contratos com as mesmas em outras partes dos seus uniformes.  

A concentração diminuiu em 2026. Segundo levantamento da Folha de São Paulo, o número de clubes da Série A com uma empresa de apostas no espaço master caiu de 18, em 2025, para 13 em 2026. O movimento aconteceu antes da atual discussão do governo sobre novas restrições ao setor. 

Mesmo com essa redução, o dinheiro continua representativo. O levantamento mais recente do UOL aponta que os contratos com bets já ultrapassam R$ 1 bilhão por temporada entre os clubes da elite nacional. 

Mas quanto isso representa para os clubes?

Para entender a real dimensão do dinheiro ganho com apostas, é preciso comparar essa receita com as demais fontes de financiamento. Juntando os 20 times da Série A, encontramos esses números: 14,9 bilhões em receita total, sendo: 4,9 bilhões em direitos de transmissão e premiações, 3,9 bilhões em transferências de jogadores, 1,8 bilhões em receitas de matchday e 3,1 bilhões em receitas comerciais.

Nesse cenário, os R$ 1,03 bilhões das bets representam cerca de 33% de toda a receita comercial da Série A. Já em relação à receita total, o valor corresponde aproximadamente a 7%.

A diferença entre os dois números é importante, pois mostra que as bets não representam a maior fonte de receitas dos clubes, mas possuem um peso muito maior quando se olha especificamente para o mercado de patrocínios e publicidade.

Além disso, a importância varia de clube para clube. Um contrato de R$ 100 milhões pode representar uma parcela relativamente pequena do orçamento de uma equipe que arrecada mais de R$ 1 bilhão por ano, mas ter um impacto proporcionalmente maior em clubes com receitas menores.

As casas de apostas ocupam mais do que os uniformes

A relação entre bets e futebol não se limita aos uniformes. Essas empresas também passaram a ocupar espaços de naming rights, publicidade em estádios, transmissões e redes sociais. A CBF, por exemplo, possui acordos de naming rights com empresas de apostas: a SuperBet dá nome a Supercopa, enquanto a Betano aparece no nome do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil.

Isso evidencia que uma eventual retração do setor poderia afetar diferentes áreas do ecossistema esportivo, e não somente o espaço publicitário das camisas.

E, por isso, os clubes se encontram em estado de alerta. As instituições que assinaram o manifesto defendendo a manutenção de um mercado regulado, argumentam que uma mudança severa poderia comprometer receitas já inseridas aos planejamentos financeiros das equipes.

No entanto, existe uma diferença importante entre perder uma fonte relevante de renda e não conseguir mais financiar o futebol. As informações disponíveis não permitem afirmar que o fim das bets também seria “o fim do futebol brasileiro”. O que elas demonstram é que uma eventual retirada desse dinheiro teria um impacto financeiro relevante, mas com os outros setores seria possível continuar financiando o esporte.

A discussão em nível governamental

A disputa deixou de ser exclusivamente esportiva quando o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a defender publicamente o fim das bets. Durante um ato em Guarulhos (SP), o presidente afirmou que, se dependesse de sua vontade, acabaria com as casas de apostas no Brasil. Na mesma ocasião, rebateu o argumento de que o fim dos patrocínios das bets levaria ao fim do futebol.

A discussão também envolve questões de saúde pública, publicidade, endividamento e proteção dos consumidores. O governo vem adotando medidas para aumentar o controle sobre o mercado de apostas, enquanto representantes do setor defendem a manutenção de um mercado regulamentado e argumentam que a publicidade legal ajuda a diferenciar empresas autorizadas das plataformas ilegais.

E a torcida?

Para quem acompanha futebol, as bets tornaram praticamente parte da paisagem do esporte. O problema é que, para uma parcela dos torcedores, a aposta deixou de ser entretenimento. Em agosto de 2026, cerca de 40 milhões de pessoas estavam cadastradas como ativas no sistema de apostas do governo federal. 

No mesmo período, mais de 1,2 milhões de brasileiros haviam solicitado voluntariamente o bloqueio de suas contas nas plataformas autorizadas. A principal justificativa apresentada nos pedidos de autoexclusão foi a “perda de controle sobre o jogo”.

Os prejuízos financeiros também aparecem em pesquisas com os próprios apostadores. Um levantamento do Procon-SP, mostrou que 48% dos entrevistados que apostam ou jogam on-line já haviam comprometido parte significativa da renda, retirado dinheiro de investimentos ou pedido dinheiro emprestado para continuar apostando. Além disso, 71% disseram ter tido mais perdas financeiras do que ganhos e 39% afirmaram possuir dívidas relacionadas às apostas.

É justamente nesse ponto que surge uma contradição difícil de ignorar. Enquanto clubes recebem dinheiro para divulgar as plataformas, parte do público que sustenta esse mercado enfrenta perdas financeiras que podem chegar ao endividamento e a perda de controle. Isso coloca os clubes diante de uma questão que vai além da contabilidade: se os times dizem que não podem abrir mão do dinheiro das bets, então não deveriam discutir quanto desse dinheiro é socialmente aceitável receber?

A conversa, portanto, não é apenas sobre quanto o futebol perderia sem as apostas, mas também sobre quem paga o preço para que esse dinheiro continue chegando ao esporte.

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O artigo acima foi editado por Eduarda Mahrouk.
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Yris Silva

Casper Libero '29

Journalism student at Casper Libero, passionate about culture and entertainment.