Por meses, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sustentou publicamente que o escândalo envolvendo o Banco Master era uma “narrativa da esquerda” e que a direita estaria distante das investigações que cercam o banqueiro Daniel Vorcaro. A estratégia política, que ajudou a impulsionar o senador durante a pré-campanha à Preisdência da República, incluía ataques ao Partido dos Trabalhadores, a defesa de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra o banco e até camisetas com o slogan: “O Pix é do Bolsonaro; o Master é do Lula”, em referência ao oponente, ligado ao PT.
Mas a narrativa começou a ruir nesta quarta-feira (14), quando mensagens, áudios e documentos revelados pelo The Intercept Brasil mostraram que o senador mantinha uma relação direta com Vorcaro, horas depois de Flávio ter sido perguntado sobre o assunto e, novamente, ter negado qualquer ligação com o banqueiro. Segundo a reportagem, o contato incluía negociações milionárias para financiar o “Dark Horse”, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro (PL).
O escândalo abala não só a credibilidade de Flávio, como sua eventual candidatura a Presidente da República, já que ele era o principal nome do campo ligado à direita. Quatro horas depois da publicação dos documentos, em um vídeo divulgado em suas redes sociais do senador, Bolsonaro admitiu que havia um contrato com Vorcaro.
Da “Narrativa da esquerda” ao “Sim, tinha um contrato”
A contradição se tornou o principal elemento do caso. Em março deste ano, ao comentar a doação de R$ 3 milhões feita por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, à campanha de Jair Bolsonaro, Flávio afirmou à CNN que tudo ocorreu “Sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal”. Na mesma época, declarou que “Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita”.
O discurso passou a ser repetido em entrevistas, vídeos e eventos políticos. Flávio associava constantemente o escândalo ao PT, ao presidente Lula e a nomes como Jaques Wagner (PT) e Rui Costa (PT), ambos ligados ao governo baiano. Em uma publicação nas redes sociais, afirmou: “O lulopetismo baiano está no DNA do caso Master. Esse esquema é a cara da esquerda.”
No entanto, os documentos revelados pelo Intercept mostram um cenário completamente diferente: conversas frequentes entre Flávio e Vorcaro, cobranças sobre pagamentos atrasados e demonstrações explícitas de proximidade pessoal.
Uma das mensagens mais emblemáticas foi enviada em novembro de 2025, em que dizia: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. só preciso que me dê uma luz! abs!” A troca ocorreu um dia antes da prisão de Vorcaro, acusado de comandar um esquema de fraude que teria causado um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
O filme sobre Bolsonaro e os milhões do Banco Master
Segundo os registros obtidos pelo Intercept, Daniel Vorcaro teria se comprometido a repassar US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para financiar Dark Horse, produção internacional sobre Jair Bolsonaro. Pelo menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, já teriam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025. O projeto envolvia diretamente Flávio, seu irmão, Eduardo Bolsonaro (PL), que segue nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, e o deputado Mario Frias (PL), ex-secretário da Cultura do Governo Bolsonaro.
As mensagens revelam que Flávio não apenas sabia da operação, mas atuava diretamente na cobrança dos pagamentos e na articulação financeira do projeto. Em setembro de 2025, por exemplo, o senador enviou um áudio a Vorcaro pressionando pela liberação de recursos para evitar o colapso da produção: “Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar. Senão a gente perde tudo”, cobrou.
Em outro momento, Flávio alerta sobre o impacto internacional de um eventual atraso: “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus [Nowrasteh]…”. No longa, o ator Jim Caviezel interpreta o próprio Jair Bolsonaro.
Como a direita tentava blindar o caso
Enquanto as negociações com Daniel Vorcaro avançavam nos bastidores, aliados de Jair Bolsonaro intensificaram publicamente uma estratégia para associar o escândalo do Banco Master exclusivamente ao PT e ao governo Lula. Flávio Bolsonaro se tornou um dos principais nomes dessa ofensiva política.
O senador passou a defender com frequência a instalação de uma CPI para investigar o banco e apresentava o caso como mais um exemplo de corrupção ligada ao lulismo. Em entrevistas, vídeos e publicações nas redes sociais, repetia frases como “O Banco Master é do Lula” e afirmava que a esquerda tentava criar uma “Narrativa falsa” para vincular a direita ao escândalo.
A estratégia reforçava unir o caso a figuras influentes do PT. Flávio sugeria que o partido teria interesse em barrar investigações porque o esquema envolvia aliados históricos do governo federal.
Ao mesmo tempo, o bolsonarismo explorou politicamente encontros entre Lula e Vorcaro divulgados pela imprensa, usando essas informações para reforçar a ideia de proximidade entre o banqueiro e o Palácio do Planalto. A movimentação pretendia afastar a direita do centro das investigações e transformar o caso Master em uma nova frente de desgaste contra o governo Lula. Narrativa que tomou tração por alguns meses, causando, inclusive, um abalo na avaliação do Governo Federal.
A divulgação das mensagens, porém, enfraqueceu esse discurso. Os vazamentos mostraram que integrantes do núcleo bolsonarista mantinham relações íntimas com Vorcaro enquanto acusavam adversários de proximidade com o banqueiro. Entre eles o senador Ciro Nogueira (PP), que ocupou o cargo de Ministro da Casa Civil durante o Governo Bolsonaro, e que vem sendo alvo de investigações da Polícia Federal (PF).
A rede bolsonarista nas negociações
As mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil mostram que o financiamento de Dark Horse envolvia uma rede de aliados próximos da família Bolsonaro. Entre os nomes citados estão Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, o empresário Thiago Miranda, Fabiano Zettel, apontado pela PF como operador financeiro de Daniel Vorcaro, e o advogado Paulo Calixto, ligado ao fundo internacional que receberia os recursos.
Segundo os documentos, parte do dinheiro teria sido enviada ao Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas e associado a aliados de Eduardo Bolsonaro. O fundo aparece vinculado ao escritório de Paulo Calixto, advogado do deputado licenciado nos Estados Unidos.
As conversas também indicam que Thiago Miranda atuou como intermediador entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro desde o fim de 2024, organizando encontros e acompanhando o andamento das negociações. Já Mario Frias aparece agradecendo diretamente ao banqueiro pelo apoio financeiro ao projeto, classificando o filme como importante para o país. Fabiano Zettel, por sua vez, teria participado da operacionalização dos repasses internacionais, discutindo parcelamentos, dificuldades cambiais e transferências milionárias ligadas ao filme.
Os diálogos mostram ainda que Flávio Bolsonaro acompanhava pessoalmente o cronograma dos pagamentos e mantinha contato frequente com Vorcaro para cobrar a liberação dos recursos. Em uma das mensagens, o senador alerta que os atrasos poderiam comprometer contratos internacionais, elenco e toda a produção do longa.
O discurso mudou após o vazamento
A publicação das mensagens e áudios pelo The Intercept Brasil provocou uma mudança imediata no discurso de Flávio Bolsonaro. Até então, o senador vinha negando qualquer relação relevante com Daniel Vorcaro e sustentando que as tentativas de ligar o Banco Master à direita eram fruto de uma “narrativa falsa” criada pelo governo Lula e por aliados do PT.
Horas antes da reportagem ir ao ar, inclusive, Flávio foi questionado diretamente sobre o financiamento do filme Dark Horse e respondeu que a informação era “mentira”. Pouco depois, porém, diante da repercussão e da divulgação dos diálogos, o senador passou a admitir publicamente a negociação com o banqueiro.
Em nota, afirmou que buscou “Patrocínio privado para um filme privado” sobre Jair Bolsonaro e confirmou a existência de um acordo financeiro. “Sim, tinha um contrato”, declarou. Flávio também tentou contextualizar a relação, afirmando que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, período em que o banqueiro ainda não era alvo das acusações que culminariam em sua prisão e na liquidação do Banco Master pelo Banco Central.
Mesmo reconhecendo o vínculo, o senador procurou diferenciar sua relação com Vorcaro das suspeitas envolvendo o banco. Segundo ele, não houve favorecimento político, intermediação de negócios com o governo ou troca de vantagens para o financiamento do filme. A estratégia passou a ser a de separar a negociação audiovisual do escândalo financeiro e político.
Ainda assim, o vazamento enfraqueceu uma das principais narrativas adotadas pela direita nos últimos meses: a de que o caso Master seria exclusivamente ligado à esquerda. Isso porque as mensagens mostram não apenas um contato eventual, mas uma relação contínua entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, marcada por cobranças, negociações milionárias e demonstrações de intimidade.
A principal dificuldade para o bolsonarismo passou a ser explicar a diferença entre negar repetidamente qualquer elo com o banqueiro e aparecer, nos bastidores, pressionando Vorcaro pela liberação de recursos para um projeto diretamente ligado à Família Bolsonaro. Contatos feitos em um momento em que o Banco Master já era publicamente investigado pela PF por suspeita de fraudes contábeis.
O caso amplia desgaste político para o bolsonarismo
O impacto político do caso vai além da figura de Flávio Bolsonaro. Principal pré-candidato à presidência do campo da direita, o escândalo impactou significativamente não só a possível campanha do atual senador, como também alguns dos pilares de seu grupo político. Entre elas a ideia de oposição absoluta às estruturas políticas e financeiras tradicionalmente associadas à corrupção e aos bastidores do poder.
Ao mostrar integrantes do núcleo bolsonarista negociando diretamente com um banqueiro que se tornaria alvo de investigações bilionárias, o episódio enfraquece a tentativa da direita de monopolizar o discurso moralizante no debate público. Isso acontece especialmente porque a relação revelada não era periférica, mas ligada a um projeto simbólico para o grupo político: a construção da imagem histórica de Jair Bolsonaro por meio de uma superprodução internacional.
Além do desgaste imediato, as revelações aumentam a pressão sobre aliados de Bolsonaro em um momento de reorganização da direita para 2026. A crise abre espaço para questionamentos internos sobre coerência política, gestão de imagem e os limites entre articulação privada e discurso público dentro do bolsonarismo.
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O artigo acima foi editado por Marcele Dias.
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