No dia 15 de outubro de 1926, em Poitiers, no Oeste da França, nasceu Paul-Michel Foucault. Criado em uma família de médicos, Foucault escolheu um caminho diferente para si: a filosofia. Influenciado por autores diversos, desde os que lhe mostraram um uso da fenomenologia existencialista, como Georges Bataille e Maurice Blanchot, a abordagem de Canguilhem à história da ciência, o estudo da linguística estruturalista de Ferdinand de Saussure e conceitos da psicanálise formulados por Jacques Lacan, aos textos e ideias desenvolvidos por Karl Marx.
Principais ideias e conceitos
Foucault define a Era Moderna através da disciplina, sendo o principal assunto de uma de suas obras mais conhecidas: “Vigiar e Punir”. No livro, publicado em 1975, o autor analisa a evolução da punição no Ocidente desde a Idade Média até o século XIX, cujo argumento volta-se para a transformação da violência, anteriormente espetacularizada, para se tornar uma forma de disciplina e controle.
É nesta obra que é apresentado o conceito de panóptico, um modelo arquitetônico de penitenciária originalmente criado por Jeremy Bentham, em 1795, que consiste em um edifício circular com um anel de celas nas bordas e uma torre central de vigia. Foucault o utiliza em seu trabalho como uma metáfora para a sociedade disciplinar, onde o controle deixa de ser apenas físico ou violento e passa a ser psicológico e contínuo, sendo agravado pela arquitetura das instituições, nas quais os indivíduos são moldados em seres (escolas, hospitais, fábricas, quartéis) previsíveis, isolados e produtivos.
Outra ideia trazida nessa obra é a de Biopoder, que surge como uma forma de controle social capaz de ser íntima e invisível, tornando-se parte da própria vida cotidiana. Caracterizado pela regulação da população, o conceito engloba práticas em saúde, reprodução, educação e questões trabalhistas, entre outros aspectos da vida. Foucault argumenta que essa forma de poder não se manifesta apenas através de instituições com caráter opressor, mas infiltra-se em todos os segmentos da vida social e preenche as lacunas da vida cotidiana.
Outro principal conceito do trabalho de Foucault é a análise das relações de poder, na qual estudou diversas questões sociais, como o sistema penitenciário, a instituição escolar, a psiquiatria, a psicanálise praticadas de forma tradicional e a sexualidade, resultando na conclusão que existe uma força de coerção de poder exercidos por essas instituições contra os que ali se encontravam. Contudo, essa investigação também o levou para uma de suas formulações mais conhecidas: a ideia de “Microfísica do Poder”.
A “Microfísica do Poder“, publicada em 1979, não resume-se à uma obra unitária de Foucault, mas uma coletânea de textos do autor. O conjunto tem como objetivo mostrar o poder enquanto confronto entre soberania e disciplina e, na prática, o melhor exemplo dessa relação seria a escola. Segundo ele, a escola funciona como uma “instituição de sequestro”, pois é um aparato que enclausura e molda o indivíduo de acordo com o que a sociedade instituída deseja, utilizando de técnicas punitivas que antes serviam de castigo como forma de disciplinar os alunos.
“Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo.”
Foucault e a era digital
As ideias concebidas pelo filósofo podem ser vistas na Era Digital de algumas maneiras, no entanto, a mais conhecida delas é o panóptico digital, na qual panóptico passa a ser o algoritmo e a vigilância, vinda de aplicativos e plataformas digitais, atua de modo contínuo e intrínseco. O que difere essa ideia do modelo original, apresentado em “Vigiar e Punir”, é que o usuário alimenta ativamente o sistema de controle ao fornecer dados, curtidas, geolocalização e preferências de forma espontânea. Dessa forma, o poder do algoritmo se torna inquestionável; ao obter os dados e preferências do indivíduo, torna-se mais fácil ditar suas opiniões e consumo sem que haja espaço para muitos questionamentos.
Nesse cenário, o Biopoder ganha outras características, onde a vida humana é convertida em dados quantificáveis, ditados pelo algoritmo das redes sociais, que gerenciam a saúde, o trabalho e a produtividade. Apesar de ser perigoso que o comportamento, preferências e opiniões do corpo social seja escolhido pelo digital de maneira silenciosa, o filósofo acreditava que “onde há poder há resistência”, desenvolvendo um caminho no qual é possível implementar autonomia e um filtro crítico no campo digital. A partir dele, nasce o ativismo digital, que trata-se do uso da internet para difundir ideias, organizar mudanças e reivindicar direitos e causas, utilizando dos espaços virtuais para a resistência por meio do entendimento do peso que a internet tem na sociedade.
Um exemplo do ativismo digital é a campanha feita por eleitores de ambos candidatos à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, após os resultados do primeiro turno. As campanhas de “vira voto” começaram nas redes sociais de apoiadores dos dois candidatos e ganharam força o suficiente para chegar às ruas, mesmo com a resistência dos algoritmos das plataformas para engajar e trazer visibilidade para o movimento.
Cem anos depois, a importância da obra de Michel Foucault mantém-se presente a fim de promover um entendimento acerca do ambiente físico e digital em que vivemos, além de fornecer a percepção de estar inserido dentro de um novo sistema, enquanto indivíduos dentro destes espaços. Na idade contemporânea, estudar seu trabalho não representa apenas estudar filosofia, mas compreender o comportamento e funcionamento da sociedade em que vivemos.
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O artigo acima foi editado por Nefertiti Beckman.
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