Nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina, um pódio que antes de 2019 hasteava a bandeira dos Estados Unidos, agora expõe a bandeira chinesa. A medalhista olímpica Elieen Gu anunciou em 2019 que, daquele ano em diante, passaria a competir pela China ao invés dos Estados Unidos.
Filha de mãe chinesa e pai norte-americano, a esquiadora freestyle decidiu trocar a seleção que representaria. A mudança ocorreu porque a atleta via uma possibilidade de inspirar e influenciar gerações futuras na China. Além disso, o país asiático proporcionou contratos com grandes marcas nacionais, tornando-a uma das atletas mais bem pagas do mercado, com um faturamento de R$ 120 milhões de reais no último ano.
Um atleta não é mais somente aquele que vemos de maneira distante através de transmissões de rádio ou televisão. Com o crescimento das redes sociais e da influência digital, podemos acompanhar os gostos, os hobbies e a rotina para além do mundo esportivo. Aqueles que antes representavam principalmente clubes ou seleções se tornaram produtos e marcas com grande potencial econômico.
Segundo Ana Teresa Ratti, cofundadora da Vesta Gestão Esportiva e gestora de carreira e imagem de atletas, visibilidade e exposição são essenciais, mas o modo como são utilizadas é determinante para a percepção do público. Ao mesmo tempo que o ambiente digital pode impulsionar a carreira, qualquer deslize pode desencadear um momento de crise.
“Se você não compreende esse contexto (de rede social) desde o início, corre o risco do atleta ter um comportamento nesse ambiente digital que não colabora com a sua jornada esportiva”
QUANDO O ÍDOLO VIRA NEGÓCIO
Atletas são ídolos, eles geram desejo e representam times que envolvem a paixão das pessoas. O público observa cada partida, posicionamento e atitude de forma criteriosa, desempenhando papel fundamental na transformação do esporte em um fenômeno midiático. De acordo com o relatório anual “Tops of Sports”, da Nielsen, líder global em medição de audiência, dados e análises , o valor do espaço da mídia digital para ídolos esportivos alcançou US$ 1,2 bilhão em 2023.
A mudança da perspectiva sobre o atleta trouxe à tona a capacidade de eles têm de se transformarem em marcas. Antes, a percepção se restringia à performance dentro de campo, agora, além das quatro linhas, eles são criadores de conteúdo, capazes de promover a si mesmos e as ligas das quais fazem parte.
Jogadores como Neymar Jr e Vinícius Junior transformaram a forma como são reconhecidos, utilizando a imagem como marca pessoal. Ambos estão entre os atletas brasileiros mais seguidos no Instagram, acumulando, juntos, mais de 290 milhões de seguidores. Mesmo assim, o poder de influência vai além da venda de produtos. A maneira como se colocam perante a realidade extracampo ajuda a dar espaço a causas e impulsionar o ativismo social.
“É importante entender o potencial do esporte como plataforma de comunicação, exatamente por meio dos atletas”, explica Ana Teresa Ratti.
O Instituto Neymar Jr e o Instituto Vini Jr são associações que buscam transformar a realidade social de famílias brasileiras. Com a criação de institutos próprios, os atletas formalizam sua influência e transformam sua relevância internacional em impacto social. Seja através da educação, saúde ou cultura, o esporte também se consolida como um espaço de ativismo.
IMAGEM, INFLUÊNCIA E RESPONSABILIDADE
As redes sociais já são alicerces para o convívio em sociedade e qualquer postagem pode viralizar. Quando se trata de uma figura pública, como um atleta de alto rendimento, isso é ainda mais expressivo. Falas, gestos e expressões faciais reverberam e ganham proporções inimagináveis.
No mesmo nível que um jogador ganha patrocínios e visibilidade, ele pode perdê-los na mesma proporção. “Ele precisa saber se comunicar, precisa saber se posicionar, precisa saber se relacionar, porque tudo isso junto vai compor o atleta que é”, explica Ana Ratti.
Ser um ídolo é ter responsabilidade social, afinal, os posicionamentos e causas apoiadas moldam os princípios das gerações que os admiram. Figuras como Pelé, Ayrton Senna e Vinícius Júnior representam, além das conquistas, o comportamento e mentalidade dos que virão no futuro.
Assim como a chinesa Elieen Gu, seja dentro do campo, quadra, pista ou fora deles, os atletas têm o poder de vender produtos, ideais, demandas coletivas e projetos sociais. O atleta multitarefa não compete apenas por medalha, ele compete por narrativa, reputação e relevância.
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O artigo acima foi editado por Isabella Gouvea .
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