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Casper Libero | Culture

Anemoia na mídia: a melancolia da geração Z por épocas nunca vividas

Laura Reuther Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Se você pudesse voltar como adolescente em outra época voltaria? Há algum evento histórico ou cultural que você gostaria de ter vivenciado em tempo real? Você alguma vez já se sentiu nostálgico por alguma época que nem viveu?

Atualmente, nota-se a ocorrência de um fenômeno comum nas plataformas digitais: uma extrema nostalgia pelo passado. O ressurgimento de objetos antigos (como câmeras analógicas, discos de vinil, CDs, toca-discos, ipods, walkman etc.); a hipervalorização da moda e de músicas de épocas passadas; filmes e seriados das décadas de 80 e 90 sendo assistidos e adorados geração Z são alguns dos casos que exemplificam essa romantização do passado, em grande parte por pessoas nascidas entre os anos de 1997 e 2012, e que não puderam vivenciar tais épocas. 

Tal fenômeno foi estudado e aprofundado pelo escritor norte-americano, John Koenig, em seu livro The Dictionary of Obscure Sorrows (Dicionário de Tristezas Obscuras). Em seus estudos, ele cria uma coletânea de palavras inventadas com intuito de traduzir sentimentos e emoções que as pessoas não conseguem explicar. Dentre estas palavras, destaca-se a Anemoia. De acordo com Koenig, esse termo seria usado para descrever a nostalgia que sentimos de um tempo no qual nunca vivemos. Mas, por que será que sentimos tal nostalgia?

Segundo a psicóloga clínica e diretora do Instituto Psicanalítico de Ribeirão Preto para uma das matérias do Jornal da USP, Ana Cláudia de Barros, a geração Z, diferentemente da Y, cresceu imersa em tecnologia inserida em um mundo de colapso, marcado por crises climáticas, instabilidades políticas, e mais recentemente, pela pandemia, que implicou na adaptação da vivência de momentos importantes da adolescência e da entrada para a vida adulta. A instabilidade do mundo contemporâneo, propiciou o desenvolvimento de uma angústia do vazio nos jovens, acarretando no apoio à um sentimento de nostalgia que idealiza como era a vida de épocas passadas, já que o cenário de vida da geração Z apresentava-se de maneira tão conturbada. Frente a um presente insarisfatório, esta parcela da sociedade descontente buscou alternativas de saciar seu desejo de pertencimento na idealização de um passado como um ambiente ideal e estável, um espaço reconfortante.

Como a ciência e a psicologia veem o fenômeno de “anemoia” entre os jovens?

O termo “nostalgia” foi designado pela primeira vez em 1688, pelo médico suíço Johannes Hofer. O vocábulo deriva da palavra grega nóstos (“retorno ao lar”) e álgos (“dor”).  Antigamente, pessoas que demonstravam sentir nostalgia eram diagnosticadas com distúrbios mentais de difícil tratamento. Somente no século XX o sentimento de nostalgia deixou de ser considerada uma condição clínica . 

Atualmente, a nostalgia é categorizada como uma emoção humana legítima. De acordo com a psicologia, a nostalgia é um sentimento que está associado às nossas recordações do passado e de emoções que foram capazes de nos proporcionar, fazendo com que sentíssemos saudade e melancolia das nossas experiências já vividas. 

Nesse contexto, o fenômeno da anemoia não é semelhante à nostalgia, uma vez que para sentirmos nostalgia de algo precisamos ter a lembrança de uma experiência vivida, e não como acontece nesse evento, que criamos uma espécie de saudade por meio de lembranças que nos são transmitidas pelos mais velhos e vendidos pela indústria cultural. Em entrevista exclusiva para a HC Cásper Líbero, a renomada psicóloga, livre-docente e professora de psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Leila Salomão de La Plata Cury Tardivo, pontua que a ocorrência do fenômeno da anemoia não é algo patológico, e acontece sobretudo, devido a angústia do vazio, que atualmente, atinge, principalmente, os jovens. 

Leila afirma que essa angústia do vazio, decorre do fato de que os jovens não estão encontrando sentido em suas vidas no presente. “Entretanto, esse fenômeno não pode ser considerado devidamente uma espécie de nostalgia, pois esse jovem não viveu e experienciou as épocas passadas, mas pode ‘vivenciar’ de certo modo por meio de filmes, fotos, e de lembranças transmitidas, e fazer disso como se fosse uma forma de trazer sentido em suas vidas.”, defende a especialista.

A indústria de entretenimento como financiadora do sentimento de “anemoia”

A pergunta que fica é: por que a mídia e a indústria cinematográfica passaram a financiar a estética dos anos 80 e 90? A ascensão da estética retrô nas redes sociais, principalmente em plataformas digitais como Instagram e TikTok, tem ganhado cada vez mais espaço na indústria cinematográfica e de entretenimento. Esse fato ocorre devido ao crescimento do público consumidor, aumentando o lucro da indústria. 

É possível observar que uma parcela significativa do poder de decisão dentro da sociedade e, sobretudo, da indústria cultural, encontra-se concentrada nas mãos de CEOs, grandes empresários, proprietários de conglomerados de mídia, executivos da indústria cinematográfica e dirigentes de grandes gravadoras. Muitos desses indivíduos encontram-se atualmente na faixa etária dos 45 aos  60 anos, o que significa que vivenciaram sua adolescência principalmente durante as décadas de 1980 e 1990. Dessa forma, é natural que suas experiências, referências culturais e memórias afetivas desse período exerçam influência sobre os produtos que chegam ao grande público.

Nesse contexto, a nostalgia assume um papel estratégico dentro da indústria cultural. Elementos associados à infância e à adolescência dessas gerações, como músicas, filmes, séries, personagens, brinquedos, jogos, estilos visuais e outros símbolos culturais são constantemente resgatados, reformulados e comercializados para um público que possui algum vínculo afetivo com essas referências. Assim, experiências que originalmente pertenciam ao âmbito pessoal e afetivo passam a ser transformadas em produtos e mercadorias, capazes de gerar lucro a partir do sentimento de familiaridade e pertencimento despertado nos consumidores pelas mídias.

Esse processo, entretanto, tende a se tornar cíclico. À medida que uma determinada geração alcança posições de influência e poder dentro da indústria, suas próprias referências culturais passam a ocupar um espaço cada vez maior no mercado. Consequentemente, quando a geração que cresceu durante os anos 2000 atingir posições semelhantes de poder e tomada de decisão, é provável que suas próprias experiências de infância e adolescência também sejam convertidas em produtos culturais marcados pela nostalgia.

A singularidade e o sentimento otimista

O que torna especificamente os anos 80 e 90 tão atrativos para o público juvenil? 

As décadas de 1980 e 1990 eram compostas por uma vibração completamente diferente da que compõe o século XXI. As letras da música eram emotivas com estilos próprios, a moda era mais singular e despojada, ao invés de padronizado e monocromático como nos dias atuais. O visual da época era demasiadamente atrativo, com seus letreiros neon, cores brilhantes e estética futurística chamavam muita atenção, culminando um olhar otimista nas pessoas a esperança de um futuro melhor.

A geração atual, ao recorrer a essa época, busca uma maneira de escapar do pessimismo e encontrar sua singularidade em um meio tão influenciável e padronizado como é nos dias modernos. É uma busca por esperança e conforto.

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The article above was edited and translated by Ana Beatriz Carvalho Sapata.

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Laura Reuther

Casper Libero '30

Journalism student at Faculdade Cásper Líbero, Brazil.
Passionate about motorsport, photography, dogs and any kind of music. I hope I can share with you interesting stuff. ;)