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A presença feminina nos esportes masculinos: Como as mulheres redefiniram a audiência e os bastidores

Malu Braga Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

Das arquibancadas historicamente masculinizadas às timelines do TikTok e Instagram, a presença feminina em esportes como NFL, Fórmula 1, NBA, NHL, futebol, e muitos outros, deixou de ser exceção para se tornar uma transformação cultural. 

Para além dos estereótipos que por décadas limitaram o interesse das mulheres por esportes, uma nova geração tem reivindicado seu lugar nessas comunidades. Impulsionado por meios digitais e pela busca por representatividade, esse movimento mostra que a expansão do público feminino está redefinindo a maneira de consumirmos esportes.

O novo perfil das arquibancadas

“No último ano e meio, mais ou menos, o número de mulheres cresceu muito”, declara a jornalista esportiva do Motorsports, Livia Veiga. A afirmação é confirmada por dados: o relatório “Mulheres e Esportes” divulgado pela Nielsen em agosto de 2026, revela que, dos 16 milhões de novos fãs de esportes nos Estados Unidos, nove milhões são mulheres. Nele, também é exposto que 48% das mulheres nos EUA afirmam ter grande interesse em pelo menos um esporte. 

Mas algumas modalidades têm mais procura do que outras, por mais que o esporte esteja crescendo em um geral. O maior crescimento ano a ano na audiência feminina entre 2024 e 2026 foi na National Basketball Association (NBA), com alta de 55%, enquanto a National Hockey League (NHL) ficou em segundo lugar, com 44%. 

Ainda nos Estados Unidos, dados da pesquisa SSRS Sports Poll de 2025 mostram que 47% da base de fãs da National Football League (NFL) nos EUA é composta por mulheres, e que elas representam 40% do crescimento internacional da liga. 

A tendência ultrapassa as fronteiras norte-americanas. Na pesquisa 2025 Global F1 Fan Survey em parceria com Motorsport Network, realizada em 186 países, foi registrado que as mulheres representam 3 em cada 4 novos fãs, e entre os entrevistados da Geração Z elas são quase metade.

E no Brasil, que sempre assistiu mais o futebol do que qualquer outro esporte, o aumento da presença feminina também se concretiza com o estudo Women and Sports 2026, do IBOPE Repucom. Ele revela que o interesse feminino pela Copa do Mundo nunca foi tão grande, com 71% das mulheres brasileiras se declarando fãs de Copa do Mundo, uma evolução de 22% em relação a 2014, quando somente 58% da audiência feminino afirmava a mesma coisa.  

E o público feminino brasileiro se destaca ao apresentar uma evolução do interesse em esportes em geral de 25%, índice que representa o dobro da evolução masculina (+12%).

o papel das redes sociais e das influencers

Esse aumento da audiência feminina em esportes não é repentino: ele vem sendo construído junto da luta por direitos iguais entre mulheres e homens. Atualmente, as redes sociais possuem um papel essencial para  expandir as comunidades esportivas historicamente masculinas, que nunca foram abertas para as mulheres. A liberdade das plataformas digitais faz com que seja possível tornar esses espaços mais acessíveis às mulheres, para que elas participem como público. 

“As redes sociais têm ganhado bastante espaço com isso. São muitas influenciadoras fazendo esse trabalho e criando essas comunidades”, explica a jornalista Livia Veiga. Criadoras de conteúdo como a Malu Koerich, que fala sobre automobilismo, hockey e futebol americano, e as jornalistas Alana Ambrosio  e Julianne Cerasoli, que cobrem, respectivamente, a NBA e a Fórmula 1, são fundamentais para servirem de inspiração e compartilharem informações sobre o esporte de uma maneira atrativa para garotas.

“Fã superficial”?

Existe um grande estigma em torno de mulheres que gostam de esportes, especialmente agora com esse crescimento expressivo da audiência feminina que começou a acompanhar o esporte por conta de uma série ou livro, por uma celebridade ou pelas mídias sociais. 

“Tem muitas [mulheres] ainda que seguem o estigma de que acompanham por causa de um atleta e que acompanham mais a vida pessoal dele do que o esporte, e acho que vai demorar pra gente se livrar dele [o estigma]”, relata Livia Veiga. Existem mulheres que realmente começam a gostar de um esporte por conta de uma figura específica, mas isso não significa que todas são assim, ou que elas devem ser julgadas por serem “menos fãs” ou “superficiais”. 

Esse tipo de atitude não é de todo mal. Como Veiga explica, “o interesse delas é positivo, porque a gente sempre pode apresentar o esporte a elas”. Mas, por esse clássico estereótipo existir, deve-se esclarecer que “o papel delas [influencers] é trazer principalmente informação, não falar só sobre a vida pessoal dos pilotos”, engajando mais mulheres a se interessarem pelo jogo em si.  

É importante que a audiência feminina seja reconhecida pelo seu conhecimento técnico do esporte, e não tratada apenas como telespectadoras superficiais. Para isso, a presença de jornalistas mulheres que cobrem esportes masculinos também é crucial. Temos como exemplo a Mariana Becker na Fórmula 1, porém quanto mais representatividade houver, mais o público feminino será atraído.

quando o algoritmo se une ao financeiro

O diretor de operações da NHL, Stephen McArdle, afirmou que a liga entende que “as séries de ficção são uma porta de entrada para o esporte” e que “elas despertam o interesse pelo hóquei”. McArdle também declarou que a NHL vêm apostando mais no TikTok, plataforma onde muitos dos vídeos de maior destaque são assistidos por mais mulheres do que homens. 

Portanto, até a própria estrutura dos esportes masculinos já compreendeu que o grande futuro do público esportivo são as mulheres. “É por isso que é tão importante encontrá-los onde eles estão”, disse Craig Barry, vice-presidente executivo e diretor de conteúdo da TNT Sports. Ou seja, utilizar meios que já contém uma grande audiência feminina (séries de ficção, celebridades e redes sociais) é uma ótima forma de chamar sua atenção para o esporte e incentivar que elas o acompanhem. 

Tanto McArdle quanto Barry representam o lado executivo e comercial das ligas e das emissoras, portanto, o discurso deles foca no sucesso do marketing. O mercado adaptou-se ao público feminino porque viu nele um nicho financeiramente rentável, e não apenas por decisão caridosa.

os bastidores do mercado esportivo

Apesar de participarem cada vez mais como público dessas modalidades, a presença feminina em esportes não se resume a isso. Cada vez mais as mulheres estão assumindo cargos e trabalhando na área esportiva. Elas não são somente telespectadoras: agora, também fazem parte da estrutura. 

Segundo o estudo NFL Racial and Gender Report Card, realizado pelo  The Institute for Diversity and Ethics in Sport (TIDES), mais de 41% dos cargos profissionais na sede da liga de futebol americano são ocupados por mulheres (um marco histórico, visto que há dez anos esse número ficava em torno de 27%).

O próprio jornalismo esportivo abre cada vez mais portas para as mulheres. Livia Veiga conta que, às vezes, uma redação que antes tinha dez homens, agora são cinco homens e cinco mulheres. Em sua experiência pessoal, conta que quando entrou no Motorsports, só havia uma mulher na equipe para a qual foi contratada, “E aí eu entrei, nos tornamos duas, e agora nós já somos três”. Percebe-se que, aos poucos, as mulheres vão conquistando esses espaços que antes lhe eram bloqueados.

A partir de seus acompanhamentos internacionais, Veiga explica que “aqui no Brasil [ter jornalistas esportivas mulheres] é mais comum”. Nas coberturas, a maioria dos jornalistas ao seu redor eram sempre homens, e, se tinha uma mulher, era pra fazer conteúdos destinados às redes sociais, demonstrando mais uma vez esse estereótipo que liga as mulheres às mídias, e não ao campo mais intelectual. 

Mesmo tendo mais oportunidades, as mulheres continuam enfrentando muito preconceito quando trabalham com esportes masculinos. Na área jornalística, Livia compartilha um pouco do que já presenciou: “Nós passamos por várias situações desconfortáveis, especialmente de comparação, das pessoas chamarem a gente de feia, de burra (…) Se for um homem falando, eles não vão apontar”, a jornalista complementa, enfatizando o preconceito de gênero que é enfrentado no dia a dia.

Apesar de alguns esportes, como o futebol americano, terem várias mulheres trabalhando na parte técnica, outros, como o automobilismo, não apresentam essa mesma inclusão. Segundo a jornalista Livia, que cobre o automobilismo, “tem crescido, mas muito pouco. Principalmente em bastidores de box. Se você for nos boxes, são pouquíssimas mecânicas que você vê”.

a ascensão das modalidades femininas

Esse aumento do interesse feminino em esportes não vale unicamente para modalidades masculinas. Segundo o relatório da Nielsen, 48% das mulheres nos EUA afirmam ter grande interesse em pelo menos um esporte, seja ele feminino ou masculino. 

Quando mais mulheres começam a acompanhar esportes, as modalidades femininas crescem junto. A ONU Mulheres Brasil revelou que em 2024, cerca de 50% da população global afirmou acompanhar esportes femininos, contra 45% em 2022, mostrando que o esporte feminino segue crescendo no mundo. 

O aumento da audiência permite que haja mais investimento, o que se comprova já que os gastos com publicidade nos esportes femininos aumentaram 120% desde 2022, e 52% dos consumidores ‌concordam que marcas e patrocinadores deveriam investir mais nos esportes ‌femininos.  Ou seja, atletas femininas recebem cada vez mais oportunidades e reconhecimento. 

Por mais que o público feminino esteja assistindo cada vez mais os esportes masculinos, essa mudança progressiva demonstra os avanços políticos, culturais e sociais da nossa época. E as modalidades dos homens servem como “porta de entrada” para o cenário atlético, mas consolida um espaço onde as mulheres passam a consumir e valorizar o esporte em todas as suas frentes, inclusive o feminino. 

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O artigo acima foi editado por Mariana Camargo Aguiar.

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Malu Braga

Casper Libero '29

Journalism student at Cásper Líbero
Passionate about art, culture and politics.

Estudante de jornalismo na Cásper Líbero
Apaixonada por arte, cultura e política.