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A ONU ainda consegue resolver alguma coisa? O que está em jogo na 81ª Sessão da Assembleia Geral 

Ana Clara Dalla Costa Student Contributor, Casper Libero University
This article is written by a student writer from the Her Campus at Casper Libero chapter and does not reflect the views of Her Campus.

A Assembleia Geral das Nações Unidas é o principal espaço de debate e cooperação multilateral. Anualmente, os 193 Estados-membros se reúnem para discutir uma ampla gama de questões internacionais previstas na Carta das Nações Unidas e buscar respostas coletivas para desafios globais.  

Esse ano, o Debate Geral começa no dia 22 de setembro e se estende até o dia 28 do mesmo mês, com o tema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.  

Com um cenário internacional marcado por conflitos, crises ambientais e desafios de saúde pública, a 81ª Assembleia Geral da ONU terá uma agenda ampla e estratégica. Entre os temas em destaque estão as mudanças climáticas, especialmente os impactos da elevação do nível dos oceanos, a preparação para futuras pandemias, o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), as discussões sobre desarmamento nuclear e os esforços para fortalecer a paz e a segurança internacional.

Essa agenda evidencia a dimensão dos problemas que exigem cooperação internacional. Porém, a própria capacidade da ONU de resolver esses conflitos tem sido alvo de questionamento. Se essa reunião reúne quase todas as nações do mundo com o objetivo de achar resoluções, por que a maioria dos problemas e crises continuam sem solução?

O começo da Organização

Com o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o mundo viu a necessidade de criar um órgão que pudesse oferecer um espaço diplomático permanente de diálogo entre os países, com o objetivo de evitar conflitos futuros. A ONU nasceu com o propósito de dar voz a todos os Estados soberanos e criar mecanismos de manutenção da paz. 

Durante as últimas oito décadas, a organização teve feitos significativos, desde a descolonização da África e da Ásia até a condenação do apartheid, além da Declaração Universal dos Direitos Humanos – criada em 1948 como resposta direta aos horrores cometidos na Segunda Guerra.  

As chamadas “Forças de Manutenção da paz das Nações Unidas” – ou, simplesmente, “Missões de Paz” – também são um marco significativo na história da ONU. Essas operações são iniciativas autorizadas pelo Conselho de Segurança para levar proteção, estabilidade e apoio político a regiões afetadas por conflitos.

Contudo, diante das crises humanitárias, guerras atuais e rivalidade entre as grandes potências, a ONU parece perder seu papel central, tornando-se para muitos uma organização mais simbólica do que efetiva. 

O poder das superpotências e os limites da diplomacia multilateral 

A atuação da ONU diante das crises internacionais tem sido alvo de críticas, principalmente quando o assunto é a escalada de conflitos em diferentes pontos do mundo – como a guerra na Ucrânia, a ofensiva de Israel em Gaza e seus arredores, além das tensões em países africanos. As ameaças relacionadas ao fortalecimento da extrema direita também ampliam a pressão sobre a instituição. 

Para o internacionalista e professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Victor Dias Grinberg, a ONU é mais eficiente em prevenir conflitos do que a sua antecessora, a Liga das Nações – que era formada pelos países vencedores da Primeira Guerra Mundial. Contudo, ele também ressalta que a estrutura do Conselho de Segurança, que reflete os vencedores da Segunda Guerra Mundial, cria uma distorção de poder.  

“Apesar de se prezar pela equidade dos Estados-membros, o espaço deliberativo mais assertivo para discutir conflitos apresenta limitações devido à presença dos membros permanentes e à baixa rotatividade dos membros não permanentes. Como cada região possui um número seleto de vagas bem divididas em calendários bienais e sujeitas a acordos diplomáticos, torna-se difícil criar tração para cobrar dessas potências geopolíticas um alinhamento às normas internacionais”, explica Victor.  

O especialista afirma que a ONU enfrenta um desenho institucional complexo, onde a organização funciona quando todos os líderes compartilham o mesmo objetivo. Porém, quando os problemas discutidos se chocam com os interesses dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia), o peso do poder das superpotências é um dos motivos que limita as possibilidades de resolução de conflitos. 

Essa questão é discutida há décadas e reforça a urgência de atualizar o principal órgão de paz mundial para a realidade do século XXI. Atualmente, o conselho conta com quinze membros, sendo que cinco membros são fixos e possuem poder de veto, o que gera impunidade e paralisa decisões em crises globais graves, como ocorre no conflito em Gaza e na guerra entre Rússia e Ucrânia.

“Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança relutam em abrir mão da posição de primazia conquistada no pós-Segunda Guerra, pois admitir novos membros significa dividir o poder. Embora falte capacidade aos demais países para empurrar essa pauta adiante, o peso geopolítico das superpotências continuará sendo o principal fator limitante”, conclui ele. 

a crise financeira na onu

Além dos desafios diplomáticos, a atual crise financeira também representa um importante obstáculo para a atuação da ONU.

A organização é financiada pelos países-membros, que contribuem para o orçamento regular de acordo com uma escala de contribuições definida pela Assembleia Geral. O cálculo considera, entre outros fatores, a renda nacional e a capacidade de pagamento de cada país.  

Atualmente, devido à redução de contribuição de grandes doadores, a ONU enfrenta uma nova limitação financeira que afeta diretamente sua capacidade de atuação. Em 2025, inúmeros países da Europa diminuíram seus repasses. 

Segundo apurações feitas pela BBC News, a França anunciou cortes de €700 milhões (cerca de R$ 4,3 bilhões) em sua ajuda oficial ao desenvolvimento, destinados a financiar projetos de combate à pobreza, saúde, educação e infraestrutura em países em desenvolvimento. 

Além disso, países como Reino Unido, Países Baixos e Alemanha também reduziram suas contribuições.  

Os Estados Unidos realizaram cortes drásticos que afetam ainda mais o funcionamento da organização. Nos primeiros meses de 2025, o presidente Donald Trump retirou o país de órgãos como a Agência de Assistência a Refugiados Palestinos (UNRWA) e do Conselho de Direitos Humanos da ONU, além de suspender centenas de milhões de dólares de financiamento para órgão de planejamento familiar, Fundo de População da ONU (UNFPA). 

Não há um impacto punitivo significativo para os países que deixam de contribuir. Embora um país devedor possa ter direitos restritos ou cassados em fóruns internos, a viabilidade das ações, escritórios e programas da ONU depende do aporte orçamentário. 

“A organização acompanha os principais debates e se dispõe a discutir os temas atuais por meio de suas agências, órgãos deliberativos e comitês especializados de forma corporativa e representativa. No entanto, a crise financeira é hoje a maior ameaça ao seu futuro. A transição de liderança com a entrada do novo Secretário-Geral terá como grande desafio buscar formas de tornar a ONU mais independente financeiramente, garantindo a continuidade das suas discussões sem o receio de represálias financeiras por parte de países contrários a certas pautas”, comenta Victor Dias Grinberg. 

a 81ª assembleia geral

Os países se reunirão a partir desta terça-feira (22) para diversas rodadas de discussões, procurando achar soluções multilaterais para os problemas atuais.  

O Brasil, mantendo a tradição de fazer o discurso de abertura no Debate Geral, tem a oportunidade de reverter percepções negativas sobre produtos e políticas brasileiras junto a parceiros como Estados Unidos, União Europeia e China.

Além da dimensão diplomática, a participação do Brasil na Assembleia Geral também tem forte impacto no cenário político doméstico. A visibilidade proporcionada pelo discurso de abertura, amplamente repercutido pela imprensa e pelas transmissões oficiais, transforma a tribuna da ONU em uma oportunidade para dialogar com o público interno. O pronunciamento brasileiro costuma enfatizar temas como democracia, soberania nacional, defesa das instituições e liberdade, reforçando narrativas que dialogam diretamente com o debate político nacional e ampliam a exposição do governo perante a opinião pública. 

Em entrevista, a criadora de conteúdo e internacionalista formada pela UNIFESP, Martina Giovanetti, analisou o que esperar da 81ª Assembleia Geral. A especialista comentou as pautas que devem receber maior atenção durante o encontro, as expectativas em torno dos pronunciamentos de líderes mundiais e o papel da organização diante de crises que colocam à prova a capacidade de diálogo do sistema multilateral. 

Um dos pontos que deve ganhar destaque na Assembleia Geral deste ano é a participação de países do Sul Global, especialmente aqueles que historicamente ocupam posições periféricas nos grandes debates internacionais. 

Na avaliação de Martina, o fortalecimento da cooperação global é uma pauta particularmente relevante para essas nações, que costumam ter menor poder de influência nas negociações multilaterais. Países africanos e insulares da Oceania, por exemplo, dependem desses espaços para levar suas demandas à comunidade internacional e pressionar por respostas conjuntas a desafios que ultrapassam fronteiras nacionais. 

Entre as questões levantadas, as mudanças climáticas aparecem como uma das mais urgentes. Pequenos Estados mais afastados, como Tuvalu e Palau, estão entre os territórios mais vulneráveis aos efeitos da elevação do nível do mar e enfrentam ameaças concretas à sua própria existência. 

Para esses países, as discussões realizadas na ONU não são apenas temas diplomáticos, mas questões diretamente ligadas à preservação de seus territórios, culturas e populações. Diante da crescente atenção global para a crise climática, a expectativa é que essas nações encontrem mais espaço para expor suas demandas e cobrar compromissos mais efetivos da comunidade internacional. 

Em meio aos discursos mais aguardados do evento, um dos destaques é o do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. Segundo Martina, a expectativa se concentra nos possíveis desdobramentos das negociações para o fim da guerra na Ucrânia e na forma como o líder ucraniano abordará o atual momento do conflito. Para ela, o pronunciamento deve reforçar a defesa da soberania do país e indicar quais são as condições consideradas indispensáveis para um eventual acordo de paz.

A entrevistada também chamou atenção para a posição dos Estados Unidos no cenário atual. Em sua análise, embora os conflitos globais devam dominar boa parte dos debates, a postura do presidente Donald Trump em relação à América Latina merece acompanhamento especial. Questões envolvendo governos da região, o relacionamento com países latino-americanos e o posicionamento de Washington diante de processos eleitorais recentes podem ganhar espaço na fala do líder norte-americano. 

“Tivemos eleições recentes no Peru, na Colômbia, e vamos ter eleições no Brasil. Então eu acho que a fala do Donald Trump com relação a isso deve ser interessante. A Venezuela continua sendo um grande ponto de interrogação. Então acho que é algo para focar também”, afirmou ela. 

Como destaca a internacionalista, a Assembleia Geral também pode funcionar como uma vitrine para temas de repercussão interna dos países. “Para o cenário brasileiro principalmente, os dois discursos em que a gente tem que prestar mais atenção são o do Trump com relação à América Latina e o que o Lula vai dizer sobre as nossas eleições”, afirma. Segundo ela, as declarações dos dois líderes podem fornecer indicativos importantes sobre os rumos das relações entre Brasil e Estados Unidos e sobre como a política nacional será apresentada perante a comunidade internacional. 

Além disso, o discurso de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, deve manter o tom adotado pelo país nos últimos anos, centrado na defesa do país diante de ameaças à sua segurança e na crítica ao Irã. A expectativa, porém, é que o governo israelense enfrente um ambiente mais crítico, marcado pela escalada da guerra em Gaza e pelo desgaste internacional provocado pelo conflito.

“Talvez a gente tenha uma ‘puxada de orelha’ um pouco maior dos Estados Unidos, que agora, nesse governo Trump, deu uma virada de costas para Israel. Ele não tem tanto apoio quanto tinha com o Biden, porque realmente o eleitorado do Trump não tem muito amor por Israel, pois eles são isolacionistas. Eles são completamente ‘América no topo’ (America First). Então eles são contra essa ideia de ficar dando recurso demais, dinheiro demais, tempo demais para Israel. Eles têm essa posição de ‘tudo bem, vamos ajudar Israel, mas América primeiro'”, explicou.

A questão palestina também deve voltar a ocupar espaço nos pronunciamentos de diferentes líderes. As nações que já manifestaram oposição à ofensiva israelense, incluindo o Brasil, tendem a reforçar cobranças por uma solução para a crise humanitária. Mesmo sem efeitos concretos imediatos, gestos de protesto de delegações durante discursos israelenses ajudam a manter o tema sob os holofotes da comunidade internacional. 

A ONU não é uma ‘polícia internacional’ 

Atualmente, esperam da organização algo que ela não é – uma ‘polícia internacional’. Na visão de Martina, existe um paradoxo entre a legitimidade e a praticidade (de colocar as coisas em prática). Quando não confiam mais na ONU, isso gera uma questão de legitimidade, sempre que decisões importantes são bloqueadas ou têm pouco impacto prático, cresce a percepção de que a organização é incapaz de responder às grandes crises internacionais. Como consequência, a pressão da opinião pública diminui, o interesse da sociedade civil enfraquece e muitos debates acabam ocorrendo apenas em nível burocrático, sem expectativas reais de mudança. 

“A ONU serve para suporte logístico, e ela serve para essa movimentação social, civil e política. Mas a ONU não vai jogar bomba em ninguém”, concluiu ela. 

Apesar das críticas à sua atuação, a instituição exerce um papel que muitas vezes passa despercebido pela opinião pública. Isso acontece porque os holofotes costumam se voltar para os conflitos que não foram evitados, enquanto os esforços diplomáticos que impedem crises de se transformarem em guerras raramente ganham destaque. Negociações discretas, mediações e canais de diálogo entre países fazem parte do trabalho cotidiano da organização e frequentemente contribuem para evitar a escalada de tensões internacionais. 

Nesse sentido, a efetividade da ONU não pode ser medida apenas pelos conflitos que ela não conseguiu resolver. Grande parte de sua atuação está na prevenção, oferecendo espaços de negociação capazes de reduzir atritos entre Estados antes que eles resultem em confrontos militares.  

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O artigo acima foi editado por Sophia Foster 

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