Desde o período colonial, mulheres negras tiveram sua autonomia negada pelo patriarcado. A história do Brasil foi construída em cima do silenciamento de determinados corpos, o que significa que ser lésbica era viver uma marginalização dupla, sofrendo com os efeitos da hiper sexualização, racismo, sexismo e, obviamente, a lesbofobia. A invisibilidade dessas mulheres não é um acidente e sim parte de um projeto de exclusão social.
O levante lésbico
Em plena ditadura militar e repressão à população LGBT, a chamada Operação Sapatão marcou as primeiras páginas da história da luta que está viva até hoje. Em 1980, bares de São Paulo frequentados majoritariamente por lésbicas foram invadidos por policiais que intimidaram e prenderam dezenas de mulheres, sendo essa apenas mais uma demonstração do quanto o estado tratava com violência institucional a existência da comunidade.
A resposta veio três anos depois, em 1983: o Levante do Ferro’s Bar. Localizado no centro de São Paulo, o local era um dos raros espaços de socialização das lésbicas na época. No momento em que a polícia tentou novamente intimidar e expulsar as frequentadoras do bar, diversas ativistas – como Rosely Roth e Míriam Martinho – se reuniram e organizaram um ato público em frente ao local.
Esse momento foi considerado, para muitos, a primeira manifestação para a visibilidade lésbica no país. O levante foi um gesto coletivo que uniu denúncia, coragem e afirmação identitária, mostrando que as lésbicas não aceitariam mais o lugar de silêncio e marginalidade. “Nós sabíamos que ocupar aquele espaço era arriscado. Mas ficar calada seria morrer em silêncio”, disse Rosely Roth alguns anos depois no programa de Hebe Camargo.
Mais do que um protesto, o evento foi um ato de fundação política que deu visibilidade para uma luta que era ignorada por muitos, tornando esse episódio registrado como um marco histórico: o dia 19 de agosto, portanto, foi considerado o Dia Nacional do Orgulho Lésbico.
Feminismo negro
A partir dos anos 2000, o feminismo negro passou a incluir gênero, raça e sexualidade de forma conjunta. Organizações como o Geledés e a ONG Criola deram espaço para essas discussões. Já a ONG Candaces, fundada em 2007, surgiu para lutar especificamente por lésbicas e bissexuais negras, trazendo esse debate para a periferia e a juventude.
Os números fazem questão de derrubar as dúvidas sobre o apagamento dessas mulheres. O Dossiê sobre o Lesbocídio (2014 – 2017) registrou um aumento de 237% nos assassinatos de lésbicas, sendo 43% das vítimas mulheres negras, e o Atlas da Violência de 2023 reforça mais ainda essa triste realidade.
Produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados mostram que a maioria das vítimas de violência contra LGBT’s são negras, provando que essas mulheres lutam pelo direito de amar, mas também de sobreviver.
Resistência e invisibilidade
A resistência segue viva com coletivos, redes e organizações feministas negras que denunciam toda a violência e criam espaços de acolhimento; Ao ocupar as ruas, as mulheres rompem esse ciclo do apagamento e mostram sua presença e voz. No entanto, a ausência de repercussão na mídia traz o apagamento de volta.
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O artigo acima foi editado por Camila Iannicelli
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